Por Amanda Almeida

A criatura verde e peluda que detesta o Natal vai ganhar mais uma versão para o cinema em 2018, mas é difícil que haja um Grinch mais icônico do que aquele por Jim Carrey. Na época, a viúva de Dr. Seuss, autor de Como o Grinch roubou o Natal, de 1957, só foi convencida a deixar adaptarem a fábula escrita por seu marido porque o ator estava envolvido. E foi assim que O Grinch (2000) se tornou o segundo filme natalino mais lucrativo de todos os tempos, atrás de Esqueceram de Mim (1990).

Não parece haver lugar com mais “espírito natalino” que a Quemlândia. Árvores decoradas e pisca-pisca em todas as casas anunciam que o Natal logo vai chegar. As filas nas lojas e as pilhas de presentes carregados por todos os Quem, também. E, detestando o Natal, o Grinch bola um plano para acabar com tudo aquilo. O negócio é que, na superfície, esse “espírito natalino” não passa de uma estética natalina. E acabar com ela talvez ajude a revelar o que realmente importa.

Por mais que a proposta de O Grinch seja apresentar uma história de Natal um pouco assustadora, não deixa de ter temas bastante comuns aos filmes dessa época: a diferença que pequenas boas ações podem fazer, a possibilidade de redenção até daqueles de coração mais duro, e como valorizar só os nossos interesses e renegar os do próximo é algo vazio.

E não é por acaso que seja uma criança a acreditar que o Grinch seja mais do que uma criatura verde e peluda que detesta o Natal. Afinal de contas, o Natal dos Quem, com todos os seus excessos superficiais, era bem detestável mesmo. A perda da prosperidade material que até então o Natal dos Quem representava pode ser uma boa ilustração em forma de fábula da afirmação de Tiago em sua carta, de que as provações nos ajudam a amadurecer.

Um dos pontos altos do filme é a direção de arte, que consegue apresentar tanto excesso – mais que teatral – de uma forma bastante ordenada na Quemlândia. Os movimentos de câmera transitando entre o colorido povoado dos Quem e a sombria caverna do Grinch na direção de Ron Howard e os quilos de maquiagem gastos num trabalho ganhador de Oscar também são dignos de nota.

Para quem gosta de filmes voltados para crianças, mas cheios de sacadas voltadas para os adultos, vale a pena assistir O Grinch de novo ou pela primeira vez nessa época natalina. Agora é fácil: disponível na Netflix. Na obra lançada em 1950, o Grinch detestava a barulheira e a glutonaria dos Quem no Natal. Na versão cinematográfica dos anos 2000, acompanhando o espírito do tempo da virada do século, a crítica ao consumismo era o elemento mais marcante.

Talvez na animação que vai chegar às telonas no ano que vem, o Grinch fique incomodado é com o individualismo coletivo na Quemlândia. Então, quem sabe, seja hora de convidar alguém pra assistir O Grinch ou outro filme natalino junto. Quem sabe isso não ajude a lembrar que o verde, o vermelho e as luzes são só a estética natalina e que a ideia dessa época é mesmo nos fazer olhar para a esperança e a redenção anunciadas no nascimento de uma criança.

  • Amanda Almeida, 24 anos. É formada em Comunicação Social e faz mestrado em Estudos de Linguagem. Escreve para o blog Ultimato Jovem sobre cinema.

 

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