Por Maurício Avoletta Júnior

Era uma quarta-feira normal. Já era noite e eu voltava da faculdade. Havia passado o dia por lá fazendo as pesquisas, assim como planejado. Quando estava no meio do caminho da volta para casa, sobe um homem no ônibus. Tinha por volta dos quarenta anos de idade e estava nitidamente bêbado. Entrou, cumprimentou o motorista, cumprimentou todos no ônibus, um por um, mas não passou a catraca. Cumprimentou apenas de longe, até que finalmente, quando se cansa de ninguém dar atenção a ele, se senta no banco preferencial. Como já é de praxe da maioria dos bêbados, ele começou a contar diversas histórias, quase todas completamente desconexas entre si. Mas uma delas me chamou atenção. É ela que relato aqui.

“Ele veio e me pediu ajuda. A mãe dele estava descontando os problemas nele, o pai havia saído de casa há mais ou menos uma semana, a namorada o havia deixado. Ele veio me pedir ajuda e eu ajudei. Eu disse o que qualquer pastor diria: ‘confia em Jesus e não transa antes do casamento que vai dar tudo certo, porque se Jesus voltar e você estiver pecando, você fica’. Qualquer pastor diria isso. Eu tentei ajudar ele e eu realmente achei que tinha ajudado. Mas daí, umas semanas depois, eu recebo a mensagem de que a ajuda não tinha adiantado muita coisa: o desgraçado se matou! Como ele pode se matar? Eu falei pra ele o que tinha que falar: ‘obedeça! Não peque!’ O que mais eu tinha que dizer? Eu era só um pastor, não um psicólogo ou um teólogo ou qualquer outro ‘ólogo’ da vida”.

O ônibus deu uma parada um tanto brusca devido a uma criança no meio da rua. Todos no ônibus se manifestaram agressivamente. O bêbado ficou calado. Após o ônibus voltar a andar, todos se calaram novamente e o homem voltou a falar.

“Sabe, agora eu não sou mais pastor, então eu não preciso mais me preocupar em mentir pros outros. Se eu ainda fosse pastor, iam me encher o saco só porque bebi um pouquinho”.

Algumas pessoas no ônibus riram quando ele disse “um pouquinho”. Ele parou de falar, com um ar de quem não havia aprovado as risadas, mas logo deu de ombros e voltou a contar sua história.

“Mas já que eu não sou, então não tem problema. Ah, como me divirto com esses puritaninhos! Querem fugir do inferno, mas pra isso transformam a vida dos outros em inferno. Tem problemas com bebida? Só falar que beber é pecado, que você se safa! Tem problema com sexo? Só falar que quem transa vai pro inferno, que você se safa! Tem problema com cigarro? Simples, fala que é passaporte pro inferno. Já é fácil saber o que eles vão falar, eles nem precisam abrir a boca. Todo mundo fala que é santo, mas na verdade é santarrão. Cara lavada e mão encardida. Ninguém nunca explica porque as coisas são erradas, simplesmente repetem como robôs o que ouviram de androides”.

Ao ouvir esse homem desabafando, eu não soube o que fazer. Ele nitidamente estava machucado. Eu conhecia a cura, mas neguei ajuda. Por que eu neguei ajuda…? Como seria a vida dele se nenhum desses seus problemas tivesse acontecido?

Ele voltou a falar, mas agora, sua voz estava trêmula, como quem está prestes a chorar.

“Eu fiz tudo o que me mandaram, exatamente da forma como me disseram para fazer. Eu tentei ajudar!”

Nesse momento, ele dá um grito que faz com que um clima de tensão extremamente desconfortável se instale no ônibus. Depois de alguns segundos quieto, ele volta a falar.

“Se vocês soubessem o que sinto, não ficariam aí apenas me ouvindo falar e fingindo que não estou aqui. EU EXISTO, embora muitos de vocês ajam como se fosse exatamente o contrário… Sabe por que eu não mudo? Porque eu não quero! Faço porque quero, e sofro porque sou preso às minhas vontades. Eu não quero mais ficar aqui! Eu não quero mais! Eu queria ter a coragem que aquele rapaz teve, queria poder arrancar minha vida e acabar com essa culpa, mas minha covardia não deixa. Ao menos ela não me abandonou…”

Ao terminar de falar, ele levantou uma garrafinha de plástico com um líquido transparente. Ele olhava aquela garrafa com tanta paixão e ao mesmo tempo com tanta tristeza… Depois disso, ele se levantou, andou até o motorista e disse: “Seu ‘motor’, meu ponto é o próximo, mas acho que tô sem dinh…” O homem logo foi interrompido pelo motorista, que parou bruscamente a alguns metros do ponto e disse: “Desce logo e não me enche o saco. Da próxima você vai descer no ponto final!”

Assim que o homem saiu, o clima de tensão que predominava no ônibus saiu junto. Todos voltaram suas atenções para seus celulares. Alguns comentaram com as pessoas ao lado sobre o acontecimento, mas nada que durasse mais de 30 segundos. No final, todos voltavam para os seus mundos particulares. Eu não fui completamente diferente, embora não tenha conseguido permanecer no celular, fiquei pensando o porquê de todos agirmos dessa forma: estávamos diante de um ser humano com problemas e o abandonamos. O que nos leva a sermos tão apáticos com um aparente alcoólatra e sermos transfigurações divinas diante de crianças e cachorrinhos que moram na rua? Por que deixamos a estética interferir na nossa compaixão?

Creio que ficou óbvio que dei uma romanceada nesse acontecimento, contudo, não romanceei tanto quanto muitos vão imaginar. Mas também não direi o que é mentira e o que é verdade. O importante na minha história não foi o que aconteceu naquele ônibus, mas o que aquela situação gerou em mim.

Sei que em certo ponto sou um hipócrita, assim como aqueles a quem critico, pois me calei igualmente diante do necessitado. E não vou terminar dizendo que depois desse dia eu nunca mais fiz isso, porque fiz e ainda faço. A diferença é que agora consigo controlar melhor essa indiferença com as pessoas e ajudar mais quem está a minha volta.

Se um dia eu reencontrar este homem – isso se eu me lembrar do rosto dele -, eu gostaria de fazer diferente, mas infelizmente, não sei se faria. Descobri que me tornei aquilo que abomino, e isso me torna pior do que um homem que se afoga na bebida. Na verdade, me tornei aquilo que adoro: eu mesmo. Meu ídolo me possuiu e, assim como ele, não ando, não falo e não sinto.

Ainda bem que sou sustentado por um Deus iconoclasta que destrói todos os ídolos que construo.

Infelizmente, dessa vez o ídolo sou eu. Deus tenha piedade de nós…

• Maurício Avoletta Junior, 22 anos. É membro da Igreja Presbiteriana do Tucuruvi (SP). Formado em Teologia pela Mackenzie, estudante de filosofia e literatura (por conta própria); apaixonado por livros, cinema e música; escravo de Cristo, um pessimista em potencial e um futuro “seja o que Deus quiser”.

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