Por Rafaela Senfft

“Essa menina vai ser artista!” Era o que eu ouvia desde sempre na minha vida. Mas os anos passam, a gente “adultece” e vai buscando um futuro que proporcione estabilidade financeira. Afinal, ser artista pode parecer poético, mas “não dá dinheiro”.

Ao longo da vida pensei assim, como o senso comum. Precisava escolher algo que me desse recursos para ter uma vida financeira nada modesta, mesmo que isso implicasse em negar uma vocação. Aliás, só me dei conta da importância desse termo “vocação” anos mais tarde em minha vida, anos após me converter ao cristianismo e levar essa parada a sério.

Quando descobri que a espiritualidade envolve toda nossa vida, que não tem uma parte espiritual que é deslocada da financeira, da sentimental e etc..  O senhorio de Cristo envolve tudo, e uma vez que se entrega, tudo é espiritual, tudo tem um propósito, e a vocação é aquilo que Ele nos deu para ser colocado em prática em forma de labor.

Certa vez eu estava conversando com um amigo e ele disse algo de tanta profundidade, que nunca mais vou esquecer. Ele disse que se você quer saber sobre sua vocação profissional, traga à memória as coisas que mais fazia na infância. Pode ser que não seja algo para se generalizar, mas penso em muitas histórias de pessoas que gostavam de colecionar insetos quando criança e que hoje são excelentes biólogos, e outras bem parecidas.

Eu gostava de desenhar, pintar. Era o que eu fazia desde que meus dedos se firmaram em um lápis, e minha avó sempre estava atrás de mim dizendo: “essa menina vai estudar Belas Artes!”. Dito e feito. Mas não tão diretamente. Depois de tantas tentativas de seguir o fluxo da prosperidade e me frustrar existencialmente, sem coragem para seguir as palavras de sabedoria de minha avó, quando menos esperei, lá estava, na escola de Belas Artes, mas mesmo assim me perguntando o que eu estava fazendo ali quase todo o tempo.

“Toda arte é completamente inútil”, brada Oscar Wilde no prefácio de “O Retrato de Dorian Gray”.

Quando li isso, eu concordava com Oscar Wilde, um dos meus escritores favoritos. Afinal, pra que a arte servia? Quem se importaria com ela? Ela salvaria alguma vida por acaso? Alimentaria? Essas eram questões sinceras que me assaltavam e me faziam pensar em desistir de um aparente capricho inútil. Eu admirava as artes, mas com o ceticismo de Wilde.

Até que, no ápice dessas inquietações, uma amiga veio toda animada me entregar um texto, escrito por um autor evangélico, cujo nome nem me lembro mais, isso já faz muitos e muitos anos. Mas lembro que o texto dizia que Deus se importava com as artes e que Ele precisava de artistas para o Reino Dele, pois a Arte estava tomada de falta de sentido e fragmentação, e não estava respondendo às questões da vida, mas que ela é uma linguagem criativa que Deus ama e através da qual reflete sua imagem.

Vi isso como uma resposta acalentadora, mas isso não quer dizer que vivi feliz para sempre com as artes. Sempre vem o dilema de o que fazer, e por que fazer. A minha linguagem artística principal é a pintura, mas o que pintar? Preciso passar uma mensagem cristã? Como farei isso sem ser clichê? Preciso pintar anjos e figuras celestiais? É uma inquietação constante, pois as perguntas são muitas, os temas deveriam ser sinceros, a gente precisa achar um estilo próprio e etc.

Eu gosto de pintar cenas do cotidiano, às vezes ando na rua e as coisas mais corriqueiras me encantam, as vejo permeadas de uma luz mágica. Chego no estúdio e quero apenas representar aquilo, mas quem vir a pintura, o que verá? Apenas uma cena corriqueira, mas o que isso tem de transcendência? E assim vou produzindo minhas representações, algumas coisas apenas pelo prazer de pintar, usar algumas cores…

Às vezes tudo isso parece inútil, ninguém parece se importar, nem eu, e os dilemas voltam. Num instante se desvanece a aura do significado e tudo não passa de tinta sobre tela. Mas precisamos ter a dependência de Deus em tudo não é? Bem como precisamos saber que Deus se importa com a simplicidade.

Por isso quero contar especialmente a história desta pintura ao lado, porque foi muito especial. Já fazia algumas horas que eu estava em meditação e oração, num momento muito difícil da minha vida, numa situação de “ou vai ou racha na fé”.  Era algo do tipo de confiar em Deus cegamente ou ficar andando em círculos, porque largar tudo não era uma opção, sei que não tenho pra onde fugir.

“muitos dos seus discípulos tornaram para trás, e já não andavam com ele. Então disse Jesus aos doze: Quereis vós também retirar-vos? Respondeu-lhe, pois, Simão Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho do Deus vivente”. João 6:66-69

Parece que uma hora Deus lança um xeque-mate, quando nossos recursos ilusórios desaparecem, e, segundo minha metáfora, lá está Deus na água, me esperando pular do trampolim, para junto dele. O trampolim é alto, dá medo, mal da pra ver Jesus lá embaixo. Não se sabe a profundidade da água, se vai arrebentar nossos ossos, mas Jesus está lá chamando, então, você olha, hesita. E aí, vai pular?

Essa é a narrativa deste quadro. Veio de uma oração, um encorajamento, uma pergunta do próprio Deus, uma questão que preciso decidir; uma metáfora dentro dos meus elementos simbólicos. Aí a gente vai descobrindo que Ele tem uma linguagem para cada pessoa de acordo com o universo que cada um carrega dentro de si.

Como isso é profundo, rico! Como Deus não se limita em falar coma gente! Como é rico experimentar isso dentro dos meus referenciais artísticos. Cada dia descubro essa maneira tão peculiar de Deus falar e como posso compartilhar essa experiência através de uma tela. Esse quadro não tem “bula”, cada pessoa que o vê vai ser alcançada dentro de suas próprias peculiaridades.

O que ele significou pra mim não vai ser o que vai significar pra você, mas uma coisa percebi através dessa obra: desde quando eu o expus, houve algum incômodo. Um incômodo pode ser desconfortável, mas não necessariamente, não nesse caso. Desconforto nem sempre tende a ser coisa ruim, pode ser um sinal de mudança, quando o cerco se fecha para a tomada de uma decisão.

No meu caso é assim que acontece. Sou uma pessoa de alma rebelde, e comigo a coisa tem que ficar tensa pra eu agir. O melhor é que Deus sabe de cada um e como Ele lida respeitando cada pessoa! O fim dessa obra? Foi vendida para uma galeria de arte na Paramount Studio em Hollywood.

  • Rafaela Senfft é artista plástica formada pela Escola Guignard/UEMG, onde é professora de História da Arte Ocidental no curso de extensão. É membro de CIVA (Christian in Visual Arts) e congrega na Igreja Esperança, em BH. Alguns dos trabalhos de Rafaela podem ser vistos aqui.
  1. A piculariedade da forma como Deus falou com você e através de você nesse quadro me fez refletir na importância de prestar atenção às diferentes “vozes” que Deus usa para falar e a valorizar essa voz em mim mesmo quando ela só parece um simples sussurro.

    • Olá Maurício! Deus é maravilhoso e não é limitado! Ele é artista, criativo e ama se comunicar conosco. “Quem tem ouvidos, ouça”. Que Deus te abençoe sempre!

  2. Dei uma rápida olhada nos seus trabalhos que o site proporciona. E percebi que você usa muito o “espelho das águas”. O elemento água simboliza as emoções. E o reflexo seria uma indicação do autoconhecimento? Ou uma indicação do nosso lado espiritual? Estas são perguntas retóricas.
    Benedetto Croce, no seu “Breviário de estética”, disse: “O artista cria contemplando… e o fruidor contemplando cria”.
    Encontrar um significado em tudo que fazemos resulta em satisfação no nosso labor. Nas artes, é o motor principal talvez.
    Fico contente por você lutar por viver sua vocação! Um abraço, Rafaela!

    • Obrigada Walbervan! As águas carrega significados, certamente, no caso dos meus trabalhos remete um lugar de mobilidade criativa, flutuante. Transparência e luz me atraem a ponto de eu dedicar tanto a eles minha pintura.

  3. Oi, Rafaela. Foi um presente gigantesco ter me deparado com seu texto. Estou passando por momentos de conflito quanto ao universo das Artes. Desde criação sempre tive vocação com as cores, formas e o universo criativo. Tentei lutar contra ele, e muito sofri sozinha por não me sentir encaixada (tantas e tantas vezes) nas rodas de conversa e pessoas ao meu redor. Hoje em dia caminho mais tranquila. Estudo Publicidade e Propaganda, e me deparo mais vezes com pessoas de interesses afins. No entanto, o meio artístico ainda é um grande desafio. Há uma separação muito grande entre o sagrado e o profano e que nós faz questionar muito se estamos no caminho certo ou não, e principalmente, como glorificar a Deus com nossa arte. Tenho aprofundado cada vez mais no universo da fotografia e ainda estou descobrindo como atuar e o que propor, e oro pra que Deus me dê discernimento e foco dentro das tantas possibilidades que a fotografia possui. E sempre somos confrontados com essa questão da validade artística. Seu texto me trouxe paz. As vezes bate um desespero quando pensamos muito… só Deus pra nos tranquilizar e trazer luz a tantas interrogações que colocamos no meio do caminho. Queria te agradecer, e dizer que bate uma alegria muito grande por saber que: sim, é possível! Me motiva com força. Grande abraço.

    • Lara, sua luta é legítima, siga seu caminho, aquele que Deus colocou em seu coração. As coisas de Deus são peculiares pra cada pessoa. Não olhe para os lados, as pessoas muitas vezes nos desmotivam e até nos faz parecer que estamos erradas. Vivi muito isso, mas não há generalizações pra Deus. Ele tem um proposito único pra cada um. Siga em frente, não se preocupe com o que irão dizer, apenas busque e confie em Deus , ele te conhece e te ama de verdade. Passe pelas criticas com o coração firme em Jesus, acredite no seu potencial , Deus não te deu esses dons a toa! Obrigada por compartilhar sua experiência. Abraços

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