Por Maurício Avoletta Júnior

Confesso que por muito tempo não entendi o porquê da famosa afirmação do Apóstolo São Paulo: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e nossa fé” (1Co 15:14). Não conseguia entender o paralelo entre a ressurreição de Cristo e a nossa fé. O que uma coisa tinha com a outra? Mas um dia, lendo o Evangelho segundo São João, eu finalmente entendi o peso dessa afirmação, compreendi porquê sem a ressurreição nada mais fazia sentido.

No capítulo 20 do Evangelho segundo São João, mais especificamente dos versículos 19 ao 21, nos deparamos com uma cena extremamente triste e desesperadora, pois o Cristo que eles tanto esperaram, aquele que eles seguiram por tanto tempo e creram que era o Cristo verdadeiramente Deus e homem, estava morto. A única esperança deles havia morrido como qualquer outro ser indigente da época. A aparente esperança da humanidade havia sido presa no madeiro e morta. Com a morte de Jesus, deu-se início a uma perseguição a aqueles que antes eram seus seguidores. Os discípulos estavam todos trancados, escondidos com medo da morte, sem esperança alguma. De repente, entra Jesus no local onde eles estavam, sem abrir as portas e de uma forma maravilhosa e aliviadora diz “Que a paz seja convosco”.

Quando me deparei com isso, a fala de Paulo fez total sentido. O significado de Cristo ter desejado a paz para os discípulos mesmo em meio à situação de perseguição na qual eles se encontravam, é algo fantástico, ainda mais pelo fato de os discípulos terem visto Ele morrendo crucificado. Cristo aparecer em meio a uma situação de desespero e desesperança, e de maneira calma e tranquila desejar-lhe a paz, era a esperança de que há algo além de todo o sofrimento, há algo melhor e mais sublime do que essa realidade em que vivemos. Todo o ministério de Cristo ganha um sentido ainda maior depois disso: ele veio para trazer vida e vida em abundância (Jo 10:10).

Se Cristo não ressuscitasse, tudo o que ele havia falado sobre o reino dos céus seria apenas uma grande mentira, seria mais fácil Ele ter ensinado alguma forma da nossa vida ficar melhor aqui, pois não haveria uma vida tudo acabaria aqui e no final toda a existência seria um fruto do acaso e Cristo teria sido apenas um grande mentiroso ou um grande louco: nada mais, nada menos.

Assim como nos contos de fadas e nas grandes histórias da literatura mundial, temos nos evangelhos aquele momento de tensão, onde o herói enfrenta o seu último e mais difícil desafio. Nesse momento, nosso coração palpita, nossas mãos começam a suar, nossa respiração para por rápidos segundos, até que o herói retorna glorioso e leva a história para o seu final atemporal: e viveram felizes para sempre. Essa esperança dos contos de fadas e da literatura se fez verdade na ressurreição de Cristo. Ela foi a “Eucatástrofe” da história da humanidade, como sugeriu J. R. R. Tolkien.

Toda a fé cristã se baseia e deve se basear nessa esperança da ressurreição do Nosso Senhor Jesus Cristo, pois ela é a confirmação de toda a Bíblia e sem ela, parafraseando Dostoiévski, tudo é permitido. Se não há a ressurreição, então não há esperança, e sem esperança a vida perde todo o sentido.

Hoje em dia me parece que a Igreja se esqueceu a importância e a beleza da ressurreição. Vivemos em uma época onde a vida terrena e as alegrias momentâneas que essa vida pode nos dar parecem ser mais importantes do que as promessas que Deus nos fez a respeito da vida eterna, a respeito do Reino dos Céus. Não vivemos mais o verdadeiro cristianismo de mais de dois mil anos da Igreja de Cristo, mas vivemos uma versão materialista e medíocre da religião de Abraão, Isaque, Jacó, dos Apóstolos e toda a nuvem de testemunhas do cristianismo. Um cristão que espera o “melhor de Deus” para essa vida, só demonstra que não entendeu nada do evangelho e por isso é o mais infeliz de todos os seres humanos (1Co 15:19). A esperança em Cristo não é para essa vida, mas para a eternidade. Somos meros estrangeiros aqui (Hb 11:13).

  • Maurício Avoletta Junior, 22 anos. É membro da Igreja Presbiteriana do Tucuruvi (SP). Em suas palavras, é profissional em ser chato e futuramente um mestre em “seja o que Deus quiser”.

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