No fim de 2016, a banda Tanlan lançou seu álbum mais recente, ACALMANOCAOS. Também em 2016, o centro de pesquisas em Ciência e Religião da Universidade de Oxford recebeu um brasileiro, sob orientação do cientista e teólogo Alister McGrath. Um dos recentes episódios do podcast de teologia BTCast teve como tema “Estamos prontos para os ETs?”.

Tudo isso tem um elemento em comum: Tiago Garros, baixista da Tanlan e doutorando em Teologia. Confira aí a entrevista que a gente realizou com o cara!

Ultimato Jovem: Primeiro, como você consegue conciliar banda, família, ministério, vida de pesquisador acadêmico, horas de sono e tudo mais?

Tiago Garros: Pois é… às vezes eu mesmo me pergunto isso… heheheh. Eu sou casado mas ainda não temos filhos, então isso ajuda. Um agravante é que eu moro em Florianópolis e o doutorado e a banda estão em Porto Alegre. Isso faz com que eu tenha que me deslocar bastante, mas acaba dando certo porque tenho reunião do meu Grupo de Pesquisa uma vez por mês, e quando vou, marcamos coisas da banda pras mesmas datas, como ensaio, gravações, etc. Nos últimos dois anos acabei viajando muito para eventos acadêmicos e também para shows com a banda, então já me sinto bem habituado a aeroportos e rodoviárias… heheheheh. Mas,  minha rotina mais diária mesmo é dar aulas de inglês.

UJ: Falando sobre a banda, no final de 2016 teve álbum novo da Tanlan saindo, ACALMANOCAOS. O que esse trabalho representa pra vocês?

TG: Esse disco é muito importante para nós pois é fruto de um período muito difícil que passamos como banda, por causa de questões pessoais de todos os membros. Foi um disco dolorido de sair, pois as músicas não aconteceram de forma fácil como em outros momentos. O fato de eu ter me mudado pra Floripa, o Fábio (vocalista e principal compositor) ter tido um baque com o trabalho dele, a volta do Beto, minha ida pra Inglaterra, tudo isso dificultou bastante, e teve um momento em que parecia que as músicas não aconteciam… não estávamos gostando de nada. Até que veio Epifania (faixa 5 do álbum). Ali começou a se cristalizar o conceito do disco, que realmente se completou quando o Beto (guitarrista) trouxe “Sempre está” (última faixa, também a última a ser composta e gravada). Ali vimos que em todas as tempestades que vivemos nos últimos anos desde o “Um dia a Mais”, Ele estava no barco, trazendo  por fim a calma depois do caos, e nos lembrando que há calma NO caos. Mesmo que pareça que Jesus está dormindo, ele está no controle da situação.

UJ: A pesquisa mais relacionada à Tanlan no Google é “Tanlan é gospel?”. E aí, o que você diz sobre isso?

TG: Essa pergunta costumava vir muito mais no passado, com o tempo as pessoas acho que foram entendendo nosso ponto de vista. No fundo, eu particularmente não acho que exista “música gospel”. O que existe são “pessoas gospel”, ou seja, pessoas que entenderam o evangelho e entregaram sua vida à Jesus. (Quando o João Alexandre canta sobre Minas Gerais, é música gospel?)  Esse é o nosso caso, ou seja, os 4 membros da banda são cristãos. Mas são cristãos que fazem música, e essa música, como qualquer música, reflete as crenças, a visão de mundo, os valores, etc., da pessoa que a compôs. Então, fazemos música que reflete sim esses valores e visão que temos da realidade, e obviamente isso é indissociável da nossa fé. No entanto, temos uma estratégia clara e pensada de escrever essas coisas de um jeito que pessoas que não compartilham dessa fé possam entender e também se relacionar com nossa arte. E é aí que os cristãos que estão totalmente inseridos no “mercado gospel” tradicional não entendem, porque não vêem em nós as obviedades líricas que o mercado gospel normalmente apresenta. Então, a Tanlan prefere não se definir como uma banda gospel, mas sim como uma banda formada por cristãos que busca se comunicar com todos de forma relevante e inspiradora. Graças a Deus temos conseguido isso ao longo dos anos, tocando em circuitos do gospel tradicional mas também em lugares onde artistas do gospel tradicional normalmente não vão, como casas de shows, bares, festivais, colégios, universidades. Temos várias histórias engraçadas, curiosas e até tristes sobre a desconfiança que as pessoas tinham (talvez até hoje tenham) com relação a essa coisa do ser gospel ou não… Outra hora te conto! Heheheh… O que posso deixar (e recomendar porque está até bem engraçado) é o nosso FAQ que uma vez publicamos em nosso site para responder a essas perguntas relacionadas ao “ser ou não ser gospel”. Tá perdido aqui nos arquivos da web, e acho que vale dar uma olhada.

UJ: Mas ah, conta um desses casos pra gente!

TG: Uma história engraçada sobre esse lance de “ser ou não” gospel foi em um evento que tocamos no interior do RS… Era um festival de bandas, evento cristão, e alguns dias antes saiu uma reportagem num jornal gospel de bastante circulação na época que explorava justamente essa questão da gente ser cristão mas não se declarar assim, abertamente, uma banda gospel e tal. Aí, acho que em parte motivado por isso, havia um mestre de cerimônia encarregado de entreter a galera durante as trocas de palco (aqueles 5 ou 10 minutos entre uma banda e outra em que não tem nada pra fazer…). Enquanto nós estávamos ali atrás montando as coisas, o cara, que estava vestido de palhaço fazendo piadas, brincadeiras e tal, me solta o seguinte:  ” Agora, nós vamos ouvir aquela banda… hmmmm…  aquela banda que o pessoal sempre fica na dúvida… será que eles são? Será que não são?  Vamo lá galera, o que vocês acham… eles são crentes ou não são? E aí? O que acham…” Nesse clima. E nós lá em cima, atrás dele, montando as coisas… Baita apresentação pra gente começar o show hein? Hahahahahah!

UJ: E nessa de ser músico e pesquisador, o que surgiu primeiro: o interesse pela música ou pela ciência?

TG: Meu interesse pela música é diretamente ligado ao fato de eu ser um legítimo “church boy”, criado em igreja desde sempre. Meu irmão Fernando, baterista da Tanlan, também é o grande responsável, porque ele é o músico da casa, que desde bebê saía batucando nos baldes, sofás, gaiolas de passarinho e etc. Mas nossa casa era bastante musical, pai e mãe sempre cantaram em coral, todos os irmãos tocam algum instrumento e tal. Eu tive aulas de piano na infância e na adolescência de violão clássico, e depois fui estudar o baixo, chegando a ir até pros EUA pra estudar. Mas sempre fui muito curioso, “perguntador”… sempre quis saber como as coisas funcionam, por que o céu é azul e coisas assim. Então gostava de ciências, porque “explicava” as coisas. Ganhei um microscópio de presente dos meus pais quando estava na pré-escola, e ia no turno inverso na segunda série olhar coisas nos microscópios do laboratório de Biologia do colégio. E o assunto que eu estudo, que é a relação entre as ciências e a fé surgiu na adolescência, quando a gente começa a ser exposto à Darwin e tal. Aí, resolvi cursar biologia na faculdade (UFRGS), mas logo descobri a paixão de dar aula, e resolvi ser professor. Pela vivência no exterior, comecei a dar aulas de inglês, e acabei cursando letras na UFRGS também, mas não cheguei a terminar. Ou seja, o que eu gosto mesmo é estar na frente de pessoas, seja pra tocar ou pra dar aulas… seja de inglês, de ciências, de Bíblia na EBD… até aula de música eu já dei!

UJ: E, em meio a essas aventuras na música e nas letras e na biologia, você já está no doutorado. Como tem sido essa sua trajetória, quais os focos das suas pesquisas?

TG: Eu sou licenciado em Ciências Biológicas pela UFRGS, e por alguns anos lecionei ciências e biologia para Ensino Fundamental e Médio. Mas minha vida acadêmica de pós-graduação é em Teologia, na Escola Superior de Teologia (EST), em São Leopoldo-RS. Minha pesquisa é sobre a interface ciência e religião, mais especificamente sobre Darwin e o evangelicalismo. Essa área chamada “Ciência e Religião” é uma área de pesquisa bem estabelecida nos países anglófonos, mas aqui na América Latina está começando a engatinhar. Por isso existe esse projeto, chamado CYRAL,  que me levou à Universidade de Oxford – para fomentar essa nova área de pesquisa na América Latina. Recentemente publiquei um artigo também sobre outra área relacionada à ciência e religião que é a Astroteologia, ou seja, as implicações teológicas caso haja a confirmação de vida fora do planeta Terra. Mas isso é mais uma curiosidade minha, pelo fato de eu ter sido parte da primeira turma em universidades brasileiras que estudou a matéria chamada Exobiologia (hoje mais comumente chamada Astrobiologia), que estuda a possibilidade científica de existência de vida fora da Terra. A UFRGS tem essa matéria no currículo desde 2004, quando eu cursei, e desde então me interesso sobre o tema, por isso resolvi trazer para o Brasil uma discussão que já existe também em inglês, que é essa da Astroteologia. Mas o foco mesmo das minhas pesquisas de doutorado e mestrado é a área um tanto quanto espinhosa da evolução e fé cristã.

UJ: Como foi ser orientado pelo Alister McGrath, um dos nomes mais respeitados nos estudos teológicos hoje?

TG: Olha, isso foi um grande sonho, uma coisa bem surreal mesmo. O Alister é um típico britânico, que por natureza já é mais reservado do que nós latino-americanos, mas é um britânico tímido, então… ele é bastante reservado meeeesmo, hehehehehe. E num contexto como Oxford, em que há uma grande formalidade nas relações aluno/professor, até você conseguir que ele se aproxime pra conversar demora um pouco. Mas foi muito bom, tive muitas oportunidades de conversar com ele. Tive aulas/palestras com ele em grande grupo mas também participei do seminário que ele coordena com o pessoal do mestrado e doutorado em ciências e religião, que eram apenas umas 7 ou 8 pessoas, e ali foi bastante enriquecedor. O cara é uma lenda, sabe muito de muita coisa mesmo, mas aprendi muito também com os colegas e outros professores que conheci lá, e serei eternamente grato ao Ian Ramsey Center (centro de pesquisas em ciência e religião da U. de Oxford) e ao departamento de Teologia por aceitarem me receber lá.

 

Se quiser encontrar alguns dos trabalhos acadêmicos do Tiago, clique aqui. E para as músicas, acesse o site da Tanlan.

  1. Antonia Leonora van der Meer

    Gostei muito dessa entrevista, boas posições cristãs que ajudam a se comunicar fora do ambiente eclesiástico, tanto como professor, pesquisador, escritor e membro da banda. Vá firme Tiago!

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