Por Amanda Almeida

Sabe quando tem um tantão de sobremesas na ceia de Natal e você sabe que uma delas é a melhor, então deixa essa aí para o final? Talvez, desavisado, você acabe comendo a melhor primeiro, mas aí as outras que vêm em seguida não são tão boas, e você fica com vontade de repetir a primeira para que a ceia acabe num ponto alto, mas não tem mais jeito, seu primo acabou de pegar o último pedaço daquela torta maravilhosa, e o último sabor da sua ceia acabou sendo um mousse doce demais mesmo.

Comparações alimentícias à parte, é basicamente desse mal que sofre Passageiros (2016). O filme, estrelado por Chris Pratt e Jennifer Lawrence, é vendido assim: “uma espaçonave transportando milhares de pessoas que viajam para um planeta colônia distante tem um mau funcionamento em suas câmaras de hibernação. Como resultado, dois passageiros são despertados 90 anos mais cedo”. Um baita filme de ficção científica, né? Só que não mesmo.

O primeiro ato do filme é mesmo voltado para o drama de acordar antes do planejado em uma nave que vai demorar 90 anos para chegar em seu destino final. O que deu errado? Será que tem como voltar ao estado de hibernação? Será que tem como reprogramar a rota para voltar para a Terra? Será que tem jeito de uma missão de resgate buscar os tripulantes que acordaram? Será que dá mesmo para confiar na inteligência artificial? O que pode acontecer com a mente de uma pessoa frente à realidade de 90 anos no espaço?

E, entre todas as inúmeras possíveis perguntas, a que mais tinha potencial para me intrigar é: o que faz alguém largar tudo na Terra para “ressurgir” 120 anos depois em um novo planeta? Não só “alguém”, mas 5000 pessoas só naquela nave, e mais inúmeras outras que deram bilhões de trilhões de dólares para a empresa responsável pelas colônias. (Isso me faz pensar em quem diz que “tacar uma bomba em Brasília” é uma opção possível para acabar com a corrupção, por exemplo. Nós podemos “começar tudo de novo” em outro planeta – ou em outro congresso -, mas ainda seremos nós).

Esse primeiro ato do filme faz um trabalho digno em desenrolar algumas dessas questões. Mas então tudo muda. Do suspense, da aventura, do drama psicológico, do sci-fi-perdidos-no-espaço prometido, passamos para o romance entre os protagonistas Jim (Pratt) e Aurora (Lawrence). E nada contra um bom romance, mas é que a gente comeu uma torta bem gostosa na primeira parte do filme, e depois veio um mousse com açúcar demais da conta. E quando tentaram voltar pra torta, já não tinha mais.

Passageiros foi lançado bem perto de Rogue One: Uma História Star Wars (2016) e A Chegada (2016), dois filmes que fazem um belo trabalho no gênero de ficção científica. E, mesmo com o romance, Passageiros também poderia fazer, mas acaba se confundindo demais. A Chegada, por exemplo, é um filme sobre como encarar o diferente é necessário. E não “encarar” num sentido de confronto, mas muito mais de encontrar em nós mesmos a determinação para transpor as barreiras entre eu e o outro (seja o outro um ser extra-terrestre, ou, desafio maior ainda, humano).

A Chegada apresenta outros conflitos, mas durante toda a obra esse tema da relação com o outro está lá, permeando tudo. E isso só faz com que nossa experiência ao assistir ao filme cresça. Passageiros deixa bastante explícito que seu tema é “não se prender a onde você queria estar a ponto de esquecer de aproveitar onde você está”. Ou seja, a importância da jornada. E, meu Deus, como eu amo esse tema! Mas fica tudo tão confuso que a própria jornada da duração do filme não fica lá tão proveitosa.

Se o ponto principal do filme ficasse claro desde o início – e não por personagens repetindo “não se prenda a onde você queria estar…”, mas por um roteiro que sabe a que veio –, Passageiros teria tudo para ser um bom romance no espaço. Por que a jornada importa mesmo. Como cristãos, nós mesmos somos exilados em uma terra desconhecida esperando o dia em que voltaremos para nosso lar. E até chegarmos lá, temos que viver aqui construindo o reino do nosso Senhor. Aproveitando essa nossa jornada do melhor jeito possível.

 

  • Amanda Almeida tem 23 anos e é formada em Comunicação Social pela UFMG. Sua monografia tratou de jornalismo cultural, arte e cristianismo. Amanda escreve para o blog Ultimato Jovem sobre cinema.

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