Por Amanda Almeida

Sou dessas pessoas que espera até a época de Natal para assistir filmes de Natal. Por isso o texto em cima da hora sobre O Segredo de Kells, essa animação de 2007 que foi muitíssimo indicada pra mim durante esse ano, e na maioria das vezes, relacionada ao Natal.

Nela, o protagonista é Brendan, um garotinho que vive na abadia de Kells, na Irlanda, lá pelo século 9. Ou pelo menos é essa a data do manuscrito do “Livro de Kells”, uma versão inacabada e ricamente ilustrada dos evangelhos. E é a escrita dessa obra que move a história do filme.

Cellach, tio de Brendan, é o supervisor do Mosteiro de Kells e está dirigindo a construção de um muro em torno do local, na esperança disso salvá-los dos ataques dos Vikings. Assim, os moradores do mosteiro e o conhecimento produzido lá ficariam protegidos, mas isolados do mundo exterior.

Apesar de seus receios e das advertências do tio, Brendan não resiste aos mistérios de um mundo além do muro. Quando Aidan, um renomado artista de manuscritos, chega a Kells precisando de alguns frutos especiais que deveriam ser colhidos na floresta, “lá fora”, Brendan começa sua jornada de aventuras e descobertas.

Com um dose bem significativa de elementos pagãos, próprios da cultura irlandesa, assistindo o desenrolar da jornada de Brendan, fiquei com um pouco de dificuldade de ver a relação desse fime com a narrativa natalina. Foi só buscando mais informações sobre o livro em si que tudo foi ficando mais claro.

Os frutos que Brendan se arrisca para colher são o ingrediente de uma tinta essencial para a “página mais gloriosa” do livro, a página “Chi-Ro”. A principal imagem dessa página “é formada pelas iniciais ‘XP’, abreviatura para ‘Chi-Ro’, o nome de Cristo em grego (…) A função dessa página era introduzir o trecho do Evangelho segundo São Mateus que descreve a encarnação de Jesus”[1].

Como ilustado na animação, o “Livro de Kells” é mesmo uma obra de arte, ornamentado com nós infinitos, espirais, tranças, círculos, arcos, bordas decorativas e muito mais, o que demandava o trabalho de copistas realmente competentes. No filme, um dos anciãos diz: “Se não houvesse livros, todo conhecimento seria perdido para sempre!”. Graças a Deus pelo trabalho desses profissionais.

Cheio de imaginação e com a celebração de um livro sagrado que traz luz à escuridão, O Segredo de Kells não é necessariamente um “filme de Natal”, mas inspira ainda mais gratidão agora. No final das contas o maior embate apresentado na trama é esse: manter nossa fé “a salvo”, na zona de conforto de nossas comunidades, ou arriscar até nossas próprias vidas encarando o desconhecido para que esse conhecimento chegue mais longe?

Como Brendan, também somos chamados a trazer o nome de Jesus à vida. Fora da segurança de nossos muros, a um mundo cheio de perigos e mistérios, mas que precisa desesperadamente dele. “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz“[2], e a história desse livro não pode ser segredo.

[1] FARTHING, Stephen. Tudo sobre Arte. Rio de Janeiro: Sextante, 2011. p. 91

[2] Isaías 9:6

• Amanda Almeida tem 23 anos e é formada em Comunicação Social pela UFMG. Sua monografia tratou de jornalismo cultural, arte e cristianismo. Amanda escreve para o blog Ultimato Jovem sobre cinema.