Por Levi Agreste

cmoa3h1sxg0-christopher-sardegna“Da mesma forma, jovens, sujeitem-se aos mais velhos. Sejam todos humildes uns para com os outros, porque ‘Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes’. Portanto, humilhem-se debaixo da poderosa mão de Deus, para que ele os exalte no tempo devido” (1 Pedro 5:5-6)

O grito do nosso “libertador” ecoa nas veias de seus súditos. Um povo se ergue para exigir sua independência – e se torna mais preso do que nunca. Atualmente, palavras muito similares são sussurradas diariamente a nossos ouvidos. O homem pós-moderno foi criado sob o paradigma da autonomia como uma meta desejável – senão inegociável – e, na ânsia por um viver libertador, se viu mais preso que nunca.

Não se pode negar, no âmbito do desenvolvimento humano, a importância da independência, mas é igualmente inegável a supervalorização da mesma na contemporaneidade. O mito do homem autônomo o tornou adorador de si mesmo, incapaz, muitas vezes, de praticar a disciplina da submissão.

O homem superindependente sente-se agredido quando confrontado; questiona constantemente seus superiores; desconstrói e relativiza regras. Gradativamente, a imagem que projeta de si mesmo faz sombra àqueles que o cercam, tenham eles autoridade reconhecida socialmente ou não. O homem pós-moderno regrediu à forma do primeiro homem: o Adão autônomo.

O projeto de autonomia de Adão nos trouxe todas as mazelas que conhecemos – principalmente a morte[1]. E o mesmo projeto é reproduzido fielmente nos corações de homens e mulheres de hoje. Faz-se necessário pôr à terra as estátuas de autoidolatria que erguemos, além de lembrar que da mesma terra somos formados[2].

Jesus nos convida constantemente a reconhecer nossa própria pó-breza: nos lembra que não temos controle sobre as circunstâncias que nos envolvem[3] e nos desafia a diariamente sacrificar nosso ego[4] em favor de uma vontade maior. Enquanto não compreendermos a exata dimensão de nossa fragilidade, não seremos capazes de estar do lado humilhante de uma relação de submissão[5].

Um hábito que deriva dessa premissa é o discipulado, do qual temos inúmeros exemplos nos textos bíblicos. A relação mestre-discípulo está presenta nas histórias de Elias e Eliseu, Barnabé e Paulo, Jesus e os doze, entre tantas outras. O discípulo devia acolher as palavras e exemplos do mestre, não obstante a dificuldade; ir onde quer que o mestre fosse; obedecer a tudo que o mestre ordenasse.

Se a relação de submissão se dá em parâmetros saudáveis, perceberemos o que acontece em todas as histórias já citadas: o discípulo desenvolve autonomia suficiente para tornar-se eventualmente mestre sem ser consumido pela egolatria. Ao contrário do projeto de autonomia de Adão, a submissão saudável – embora inicialmente um ato de dependência – desenvolve todo o potencial do ser humano, gera vida[6].

Como mencionado, o discípulo deve reproduzir o mais fielmente possível os passos do mestre. E nosso mestre supremo foi, acima de tudo, submisso. Nas palavras de Paulo, Jesus “embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!”[7]. A nós, o pedido é simples: “Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus”[8].

Resta-nos escolher: dependência e vida; ou independência e morte.

  • Levi Agreste, 25 anos, graduado em Letras pela Unicamp, leciona em três escolas da região metropolitana de Campinas, faz parte da coordenação da ONG Soprar e escreve no blog umanovaviagem.

Foto: Christopher Sardegna/Unsplash

 

[1] “E o Senhor Deus ordenou ao homem: “Coma livremente de qualquer árvore do jardim, mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá” (Gênesis 2:16-17).

[2] “Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou um ser vivente” (Gênesis 2:7).

[3] “Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida?” (Mateus 6:27).

[4] “Se alguém vem a mim e ama o seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos e irmãs, e até sua própria vida mais do que a mim, não pode ser meu discípulo” (Lucas 14:26).

[5] Os capítulos finais do livro de Jó (mais precisamente a partir do capítulo 38) são sempre uma lembrança latente de nossa pequenez.

[6] “Portanto, irmãos, rogo-lhes pelas misericórdias de Deus que se ofereçam em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês. Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Romanos 12:1-2).

[7] Filipenses 2:6-8.

[8] Filipenses 2:5.

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