Oliver Gruener / Freeimages.com

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Por Daniel Theodoro

Em meio à efervescente intolerância virtual nas redes sociais, tomei um tempo. Prometi para mim não dar muita atenção para conversinhas.

Por isso, larguei de lado o celular e o computador, e botei a água para ferver, iniciando o ritual. Tirei do armário o saco de flores secas de camomila comprado recentemente pela minha esposa no armazém e, perplexo, me dei conta de que não sabia preparar o chá. Triste chegar à casa dos trinta anos e descobrir que não sei sintetizar meu próprio narcótico.

É claro que só recorri à planta desidratada porque as práticas caixinhas com sachês haviam sido consumidas ao longo do estressante mês. Azar meu. Não só isso, azar nosso. Percebi o quanto a humanidade se tornou refém dos saquinhos de chá industrializado. Por culpa de algum marqueteiro, acreditamos que a paz transcendental contida em um chá está acessível ao público apenas nas gôndolas do supermercado, quando na verdade é possível cultivá-la em qualquer vasinho ou tê-la em qualidade superior comprando a flor desidratada.

Acho que no tempo de vovó era diferente. Os saquinhos tinham pouca chance. Afinal, sempre tinha um pé de camomila, hortelã ou capim cidreira no jardim. A paz estava logo ali, ao alcance das mãos. Talvez seja por isso que naquela época as pessoas eram menos estressadas. Eram mais felizes porque tinha chá in natura no terreiro e nenhuma rede social para causar indigestão ou gastrite nervosa.

Pois bem, como não tenho jardim e faço parte da geração que confunde quintal com sacada de apartamento, me restou procurar na internet a receita de chá de flor de camomila desidratada.

Ao leitor mais exigente, minha preocupação pode parecer tola. Antecipo, não é. Tenho um amigo que sofreu as consequências de buscar libertar-se da ditadura dos sachês de chá. Sem ter conhecimento da dose ideal, exagerou na hora de colocar a camomila na água quente. Resultado: desconforto estomacal e visitas frequentes ao banheiro em curtíssimo espaço de tempo, além de um sono sobrenatural.

Na internet, a receita aparece do seguinte jeito: uma colher de flor de camomila seca para meio litro de água, cinco minutos de infusão e depois açúcar – caso queira. “Só isso?”, pensei alto. Impossível segurar a revolta quando li! Acredito que fórmulas naturais essenciais à manutenção do equilíbrio humano não deveriam deixar de ser transmitidas às novas gerações. A receita do chá de camomila natural, por exemplo, deveria ser patrimônio familiar, repassado cuidadosamente aos filhos. Ao invés de presentear o filho com um tablet, seria muito melhor dar um vasinho de camomila.

Em tempos de conflito bélico virtual e linchamento nas redes sociais, receita de chá de flor de camomila deveria estar no trending topics do Twitter. Ou, quem sabe, alguma boa alma poderia fazer um vídeo mostrando como prepará-la in natura e divulgá-lo no Facebook. Com certeza, eu compartilharia. No entanto, no lugar preferimos publicar raiva, curtir ignorância e bloquear bom-senso. Como consequência, substitui-se cada vez mais a receita de chá de camomila pela receita de Rivotril.


• Daniel Theodoro,
32 anos. Cristão “em reforma” e membro nascido na Igreja Presbiteriana Maranata de Santo André (SP). Casado com a Fernanda. Formado em Jornalismo e estudante de Letras.

  1. Adm. Flavio de Deus

    Hj tb aprendi uma receita muito interessante em tempos de intolerância virtual:
    1) Se ñ gostou ñ comente; para não dar ibope
    2) Se comentar seja sutil; para não gerar polêmica
    3) Se quiser ibope e polêmica faça o contrario das duas dicas acima e
    4) Dê um deslike ? e ainda por cima compartilhe

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