Por Bráulia Ribeiro

Wooden Tangram SetUm dia eu me encontrava num acampamento promovido pela missão com muitos jovens de diversos lugares do Brasil. Estava frio e o quarto não tinha janelas nem portas. A rotina era intensa, mas sempre havia tempo para bater papo furado.

Numa das tardes frias, eu e várias moças nos sentamos num dos quartos, espalhadas pelas camas de cimento e colchão fininho para tomar chá e discutir política. Política e não religião. Eu era viciada em política e discussões sobre justiça social, além de ainda não ter, naquele ponto de minha vida, muito conhecimento religioso. Qualquer conversa casual comigo, então, sempre caía em política.

Eu adorava tecer louvores à esquerda perseguida, às tentativas de tornar o Brasil uma democracia socialista etc. Era a década de 1980. Vivíamos a ditadura e os militantes de esquerda para mim eram como os santos mártires do evangelho. De repente, chegou uma moça argentina e começou a nos observar.

Eu e as meninas conversando no quarto éramos alunas, e a argentina era a missionária veterana entre nós, todas com menos de vinte anos. A conversa foi se desenvolvendo, eu fui achando chão para fazer as afirmações de que gostava sobre o futuro do capitalismo e o aspecto cristão do socialismo. Falei de Adam Smith e mais um monte de clichês sobre como a igreja primitiva descrita no livro de Atos dos Apóstolos inspirou muitos teóricos socialistas.

Boa parte das moças que me ouvia tinha sido criada em lares protestantes com uma agenda política bem mais reacionária do que a de meus pais hippies. Uma delas, universitária bem articulada, começou a questionar minhas afirmações com veemência. O quarto virou uma arena de guerra – eu erguia a voz, ela também, e a paz modorrenta da tarde ficou pra trás.

– Você já perdoou o seu pai? – interrompeu, do nada, a moça argentina que até então estava calada. Eu abri a boca espantada com a interrupção e com a aparente falta absoluta de relação da pergunta com o assunto em pauta.

Olhei pra ela sem saber o que dizer e, quando percebi, estava chorando. Nem eu entendi como desabei a chorar no meio de uma discussão sobre política. Entretanto, quando eu a olhei e vi em seus olhos que sua pergunta era sincera, pensei sobre as mágoas que tinha contra o meu pai e não pude deixar de me desmontar num pranto convulsivo.

Ela se aproximou, me abraçou e pediu que eu declarasse em voz alta que o perdoava, citando cada passagem especialmente dolorosa de minha infância e adolescência. Assim, comecei, no meio do choro, a lembrar das vezes em que ele me esqueceu na porta da escola, em que voltava bêbado para casa, em que perdia o controle com minha mãe, dos muitos salários que lhe foram roubados e de tantos outros que foram bebidos, e de muitas outras coisas.

Quando acabei, parecia que eu tinha me livrado de um fardo de 300 quilos. Agora já não me importavam as perspectivas políticas de minhas amigas. Elas podiam até ser cegas, amando a direita e o desenvolvimento que os militares imprimiam à nação, que eu não me importaria. Minhas convicções socialistas já não eram mais tão categóricas e se alguém quisesse argumentar em favor de outra ideologia eu estaria até disposta a aprender. Minha mente se abrira para a razão da fé…

Não sei se aquela moça argentina sabia psicologia o suficiente para saber que todo dogmatismo esconde uma dor, uma ferida, uma decepção, um medo qualquer. Sei que a intuição com que ela agiu naquele momento permitiu que eu me livrasse de ser uma garota ferida e idólatra de ideias, e me tornasse uma sedenta aprendiz de Deus e de seus caminhos.

_____

Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona, no Havaí, com sua família e está envolvida em projetos de tradução da Bíblia nas ilhas do Pacífico. É autora de Chamado Radical e Tem Alguém Aí em Cima?. É colunista da revista Ultimato e blogueira.

 

Nota
Trecho (p 26) do livro Tem Alguém Aí em Cima?, lançamento da Editora Ultimato.

  1. Braúlia, excelente texto! Se prepara para os bombardeios que poderão vir…os marxistas falarão um monte…Mas é isso mesmo! Percebo no meu curso que tem um bando de revoltado na minha sala de aula, professores ideológicos que espumam a boca para falar…acho mesmo que o psiquiatra é a indicação. Essa semana minha professora (essa espuma e muito, parece um PitBull) ouviu que Marx e toda a sua ideologia foi retirada da bíblia, sim porque, toda a ideia dele de igualdade e etc…é a perfeição do céu, disse a ela. E ela disse que sim para o meu espanto. E ela nem espumou. Esse cara leu muito a bíblia. Ela disse que sim por causa de Hegel…Concordo com você Braúlia, que todo dogmatismo esconde uma dor, uma ferida, uma decepção, um medo qualquer.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You may use these HTML tags and attributes:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>