Por Antognoni Misael

“Quando Deus nos salva, somos cobertos pelo sangue de Cristo e precisamos levar a sério esse senhorio como um todo”. Era assim que pensava Francis Schaeffer, teólogo americano que influenciou a cultura cristã de sua época, como ainda hoje o faz. Pensando a partir desta lógica, desmistificamos a tradição de valorizar apenas os aspectos religiosos da vida e passamos a glorificar a Deus também nas chamadas áreas seculares (1Co 10.31).

Esta cosmovisão estancou no decorrer da história da igreja e produziu um comportamento enrugado onde a cultura religiosa afastou-se e isolou-se da cultura dita secular. O papel de o cristão ser sal e luz chegou então a um nível de hostilidade para com o meio, fortalecendo na segmentação e construções de barreiras e tradições meramente humanas, distanciando-se cada vez mais de uma perspectiva influenciadora, como propôs Cristo.

A igreja, despreparada para lidar com o diverso, passou a ver a arte secular como um exercício de desperdício de talentos, ou quiçá, um exercício de louvor ao diabo.

“Quando Deus nos salva, somos cobertos pelo sangue de Cristo e precisamos levar a sério esse senhorio como um todo”. (Francis Schaeffer)

Essa visão agravou na dificuldade de lidar com a arte secular. Se nos tempos da reforma, a igreja se reformulou e se abriu para o mundo influenciando o seu meio, invadindo todas as áreas da sociedade e libertando o homem da ignorância material e espiritual, no último século temos visto o inverso – um isolamento estranho que só tem lhe causado mal, a saber, o pragmatismo, liberalismo teológico e secularismo, quando sorrateiramente ideias advinda do pensamento pós-moderno encharcam a teologia e o mundo dito evangélico.

Diante desse panorama entre cultura, arte e igreja, Francis Shaeffer em sua obra “A arte e a Bíblia”, enumera vários conselhos voltados para o cristão no intuito de redefinir uma relação sadia entre a igreja e a arte. Outra obra relevante trata-se de “A arte não precisa de justificativas” (Hans RookMaaker), cujo autor, de forma madura observa que o mistério da beleza é algo intrínseco a Deus. Foi Ele quem fez a criação com beleza, assim como toda sensibilidade e prazer para com as formas e cores são dádivas dEle.

Não precisamos ir longe pra notar que o belo é nossa sina, as nossas escolhas são cotidianamente deferidas a partir de processos mentais na direção da satisfação do belo. Seja na ornamentação da casa, na cor de um automóvel que se compra, na beleza de um porta-retratos, no design de eletrodoméstico, no modelo de um instrumento musical, na roupa que vestimos, no corte de cabelo, etc. Desejar e definir os padrões de beleza ao nosso redor é um exercício universal do homem. Queremos o Belo. Sempre!

Então você pode me perguntar: por que uma obra de arte tem valor? Eu te digo, porque ela é uma obra de criatividade, e a criatividade tem seu valor porque Deus é o criador. (Jo 1.1-3)

Entretanto, foi pensando neste prisma que Shaeffer nos sugeriu formas de se avaliar uma obra de arte, na tentativa de reatar o relacionamento saudável entre o cristão e as artes. Sendo assim ao nos depararmos com uma obra de arte o autor sugere quatro padrões de julgamento:

1) Excelência Técnica: na pintura, por exemplo, podemos dizer que não concordamos com a cosmovisão do autor, porém, fincado só a este parâmetro, não podemos dizer que ele não é um grande artista. Isto é, mesmo não concordando com a ideia do autor, não podemos rejeitar sua simetria, precisão dos traços, domínio das técnicas sobre a tela, etc.

2) Validade: é a análise se o artista é honesto consigo mesmo e com sua cosmovisão, ou se só faz arte por dinheiro ou pra ser aceito. Há artistas que tem uma excelência técnica incrível, mas prostituem sua arte, banalizando-a a gosto do freguês a ponto de ele não ter vínculo algum com a verdade do sentimento gerador do resultado belo.

3) Conteúdo / Cosmovisão: é a visão de mundo do artista. Para que esta seja boa, agradável, recheada de virtude, precisa ser respaldada pelas Verdades de Deus, não maculando-as e sendo julgadas sob o crivo das escrituras – e em muitos casos isso independe do lugar religioso do artista. Portanto, assim como reconhecemos que tal obra tem excelência técnica, poderemos também apreciá-la e em seguida dizer que sua cosmovisao é correta ou equivocada. A excelência e validade potencializam a cosmovisão, mas não devem ser jogadas no lixo por causa de algum equivoco.

4) Integração: é a relação entre o conteúdo e veículo. Este item é extremamente importante e requer certo bom senso. No meio musical, por exemplo, há integrações medíocres. Letras alegres em melodias tristes, vice-versa. Este fator é determinante para o sucesso final da obra. Saber temperar bem a integração entre os elementos gerais da arte é dar o carimbo final de seu sucesso.

Gente, encerro esta série de quatro postagens dizendo que no geral precisamos ser pessoas criativas como um todo, ninguém deve buscar ser criativo para ser aprovado por Deus, mas porque tem prazer nEle, quer dar o seu tudo da melhor forma e em todas as áreas.

Contemplando Fé e arte, compreendo cada vez mais que nosso alvo é os céus, nossa gloria é celestial, mas que enquanto estivermos no mundo precisamos viver para adorá-lo em todos os sentidos entendendo que o Seu senhorio não é parte da realidade, mas um senhorio como um todo reconhecendo-o como autor e da criatividade humana!

Todas as artes procedem de Deus e devem ser consideradas criações divinas” (João Calvino)

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Antognoni Misael é professor de música (UFPB) , historiador (UEPB), membro da Igreja Presbiteriana do Brasil (Guarabira-PB) e escreve no blog “arte de chocar“. Texto originalmente publicado no blog do autor. Direitos reservados. Reprodução autorizada.