Foto: Jonathan Nunn

O post de hoje é um pouco diferente. Por meio de uma entrevista, originalmente publicada na Revista da PUC, vamos conhecer Becky Greenwood, formada em nutrição pela PUC-PR, em Maringá. Becky também é mestre em Educação em Ciências e Saúde no Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde (NUTES) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, a jovem trabalha no desenvolvimento de materiais educativos na área da prevenção de câncer, voltada para a alimentação.

Como o estudante deve encarar sua formação para trilhar uma carreira de sucesso?

Acredito que o sucesso de uma carreira profissional está em trabalhar com algo que te motive e, para mim, por meio do qual você pode contribuir com a construção de um mundo melhor. Saber o motivo pelo qual você escolheu o curso de graduação ajuda a direcionar o seu foco e suas decisões futuras. No meu caso, escolhi o curso de nutrição porque a situação de pobreza e a desnutrição no mundo me incomodavam e queria fazer algo a respeito. Ao terminar a graduação na PUC-PR, não sabia muito bem como ou aonde trabalhar para alcançar este objetivo. Assim, decidi fazer o mestrado na área de educação em saúde para ampliar minhas oportunidades. Neste período percebi que a abordagem multidisciplinar é essencial para lidar com questões tão complexas como alimentação, pobreza e desnutrição e que, por meio da educação, posso compartilhar de forma mais eficiente meus conhecimentos. Além disso, é importante valorizar todas as experiências na vida, seja na família, com os amigos, dentro da universidade ou em outros espaços, pois elas formam quem você é pessoalmente e profissionalmente.

 

Você sempre quis trabalhar na área em que atua hoje, ou a vida foi te levando para este lado?

Sempre tive a intenção de utilizar minha profissão para contribuir com a melhoria das condições de vida das comunidades, mas não sabia especificamente como gostaria de fazer isto. A minha trajetória acadêmica me aproximou dos campos da alimentação, nutrição e promoção da saúde, nos quais vejo muitas possibilidades. Aproximei-me inicialmente da “alimentação escolar”, que no Brasil é muito relevante devido ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), maior programa de alimentação gratuita no mundo e que também atua na promoção da saúde. Gostaria de atuar com a alimentação escolar no futuro. A oportunidade de trabalhar com a educação em saúde e a prevenção de câncer por meio da alimentação no Instituto Nacional de Câncer (INCA) foi uma surpresa muito boa. Tenho adquirido experiência profissional e aprendido muito com a equipe de Alimentação e Nutrição.

 

Você trabalha no departamento de Alimentação, Nutrição e Câncer do INCA com contrato de prestação de serviços pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS). Como chegou lá?

Quando cheguei ao Rio de Janeiro em 2008 trabalhei como profissional voluntária no Instituto de Nutrição Annes Dias (INAD) onde tive a oportunidade de conhecer muitos profissionais reconhecidos na área da nutrição, com os quais mantive contato. Além disso, no decorrer do mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) conheci outros professores e pesquisadores que muito me inspiraram profissionalmente. No início de 2011, quando o departamento estava procurando profissionais para ampliar suas ações de promoção da saúde, meu nome foi indicado para o processo seletivo. Assim, em junho deste mesmo ano, fui contratada para atuar especialmente no desenvolvimento de materiais educativos para a prevenção de câncer e promoção de práticas alimentares saudáveis. Com esta situação aprendi que todas as oportunidades que temos, tanto nos estágios, projetos de pesquisa e na graduação, são muito importantes para moldar nossa trajetória profissional e as portas que podem se abrir no futuro.

 

Foto: Gabriela Nehring

Quais os pontos positivos e negativos de uma estudar em uma capital?

Pela minha experiência, fazer um bom curso de graduação não depende apenas da universidade ou do campus no qual você estuda. Depende muito da sua dedicação em aprender, investigar as oportunidades que existem e ter a coragem de perseguir seus sonhos. Os aspectos positivos de estudar no interior, no meu caso, foram as possibilidades de morar mais próximo da família e ter mais contato com os professores, pois no Campus de Maringá havia poucos estudantes ainda. Acho que, ao estudar em uma capital, temos mais oportunidades de estágios, envolvimento com movimentos estudantis e mais interação com estudantes de outros cursos de graduação.

 

Quais as principais informações relacionadas à “alimentação e câncer” que o grande público desconhece?

O INCA tem trabalhado com as recomendações do Fundo Mundial para Pesquisas contra o Câncer e o Instituto Americano de Pesquisa em Câncer (AICR/WCRF). Em especial, com o relatório “Food, nutrition, physical activity and the prevention of cancer: a global perspective” (2007) no qual o INCA produziu uma versão em português.

Para compreender a importância deste tema na prevenção de câncer, a alimentação é a segunda maior causa prevenível da doença, perdendo apenas para o tabagismo. Em especial, a obesidade é um fator de risco importante para o desenvolvimento de vários tipos de câncer. As principais recomendações são:

Gordura corporal: seja o mais magro possível dentro dos limites normais de peso corporal.

Atividade física: mantenha-se fisicamente ativo como parte da rotina diária.

Alimentos e bebidas que promovem o ganho de peso: limite o consumo de alimentos com alta densidade energética e evite bebidas açucaradas.

Alimentos de origem vegetal: consuma principalmente alimentos de origem vegetal.

Alimentos de origem animal: limite o consumo de carne vermelha e evite carnes processadas.

Bebidas alcoólicas: limite o consumo de bebidas alcoólicas.

Preservação, processamento e preparo: limite o consumo de sal e evite cereais e grãos mofados.

Suplementos alimentares: ter como objetivo o alcance das necessidades nutricionais apenas por intermédio da alimentação.

Amamentação: as mães devem amamentar, as crianças devem ser amamentadas.

Sobreviventes de câncer: siga as recomendações de prevenção de câncer.

 

Sua dissertação teve foco na “alimentação escolar. Você continua atuando como pesquisadora no Observatório da Educação (CAPES/INEP) com um projeto de mapeamento e delimitação da Alimentação Escolar no Brasil? Qual o objetivo deste trabalho?

Sim, continuo compondo a equipe da pesquisa “Mapeamento e delimitação da alimentação escolar no Brasil: conhecendo e discutindo oportunidades no campo da educação alimentar e nutricional” do Observatório da Educação (CAPES/INEP).

Nosso objetivo é descrever e analisar experiências relacionadas à educação alimentar e nutricional em algumas escolas municipais de cinco cidades brasileiras. Em 2011 realizamos as pesquisas em escolas de Vila Velha (ES), Macapá (AP), Aracajú (SE), Aparecida de Goiânia (GO) e Caxias do Sul (RS). Nas visitas, com duração média de dez dias, observamos o dia-a-dia da alimentação nas escolas e realizaremos entrevistas com gestores do PNAE, professores, merendeiras e alunos a fim de ouvir e discutir experiências. Os planos para este ano é publicarmos os resultados encontrados no meio acadêmico e dar retorno às pessoas envolvidas na pesquisa, de forma a contribuir com as ações de educação alimentar e nutricional em todo o país.

 

Você acredita que “olhar solidário” é algo possível de se desenvolver?

Na minha vida a preocupação em servir ao próximo sempre foi muito importante devido à minha fé cristã e aos valores da minha família. Aprendi mais tarde a diferença entre ser solidário e contribuir com o próximo de forma a construir algo em conjunto, e fazer uma ação assistencialista. As pessoas se beneficiam com o assistencialismo, e, às vezes, este tipo de ação é necessário. Mas, uma vez que o auxilio deixa de existir, as pessoas continuam com o problema inicial. Quando se constrói em conjunto é possível ajudar de maneira permanente, capacitando as pessoas a resolverem seus próprios problemas. Esta é a atitude solidária que procuro ter na minha vida pessoal e profissional. Acredito que é possível desenvolver este olhar solidário fundamentado pelo amor que encontramos em Jesus Cristo. O amor que Ele nos ensina a ter pelo próximo.

 

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