JS_15_09_14_RodaTodos nós deveríamos concordar que a missão surge primariamente da natureza de Deus e não da natureza da igreja. O Deus vivo da Bíblia é um Deus que envia. Acredito que foi Joahnnes Blauw, no livro “The Missionary Nature of the Church”, quem primeiro usou a palavra centrífuga para descrever a missão da igreja. Depois, o professor J. G. Davies aplicou-a ao próprio Deus. Ele escreve que Deus é “um ser centrífugo”. É uma figura de linguagem dramática. Ainda assim, é apenas outra forma de dizer que Deus é amor, sempre alcançando outros por meio de sua doação servil.

Desta maneira ele enviou Abraão, ordenando-lhe que saísse de seu país e de sua parentela para o grande desconhecido e prometendo abençoá-lo e abençoar ao mundo por meio dele se ele obedecesse (Gn 12.1-3). Em seguida ele enviou José ao Egito, invalidando até mesmo a crueldade de seus irmãos para preservar um remanescente piedoso sobre a terra durante a fome (Gn 45.4-8). Depois ele mandou Moisés ao seu povo oprimido no Egito, com boas novas de liberdade, dizendo a ele: “Vem, agora, e eu te enviarei a Faraó, para que tires o meu povo […] do Egito (Êx 3.10). Após o êxodo e o estabelecimento, ele enviou uma sucessão de profetas com palavras de advertência e de promessa para o seu povo. Como ele disse através de Jeremias: “Desde o dia em que vossos pais saíram da terra do Egito até hoje, enviei-vos todos os meus servos, os profetas, todos os dias; começando de madrugada, eu os enviei. Mas não me destes ouvidos” (Jr. 7.25-26; cf. 2Cr 36.15-16). Depois do cativeiro da Babilônia, ele graciosamente enviou-os de volta à terra e mandou mais mensageiros com eles e para eles, para ajudá-los a reconstruir o templo, a cidade e a vida nacional. E, por último, “vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho”, e depois disso o Pai e o Filho enviaram o Espírito no dia de Pentecostes (Gl 4.4-6; Jo 14.26; 15.26; 16.7; At 2.33).

Todas estas coisas formam a base bíblia essencial para qualquer compreensão de missão. A missão primordial é a de Deus, pois foi ele quem mandou seus profetas, seu Filho, seu Espírito. Destas missões, a do Filho é central, pois foi o auge do ministério dos profetas e incluiu em si, com clímax, o envio do Espírito. Agora, o Filho envia – como ele próprio foi enviado. Mesmo durante seu ministério público, ele enviou primeiro os apóstolos, e então os setenta como um tipo de extensão de sua própria pregação, ensino e ministério de cura. Em seguida, após sua morte e ressurreição, ele expandiu o alcance da missão ao incluir todos que o chamam de Senhor e chamam a si mesmos de seus discípulos. Outros estavam presentes com os doze quando a grande comissão foi dada (Cl 24.33). Por isso, não podemos restringir sua aplicação aos apóstolos.

 

— John Stott. Trecho retirado de A Missão Cristã no Mundo Moderno, p 25-27.

 

 

 

 


JS_25_08_14_Prisao

O pecado não somente separa; ele escraviza. Além de nos afastar de Deus, ele também nos mantém cativos.

Consideraremos agora a “internalidade” do pecado. Mais do que uma atitude ou hábito visível, o pecado revela uma profunda e arraigada corrupção em nosso interior. Na verdade, os pecados que cometemos são manifestações exteriores e visíveis de uma enfermidade interior e invisível, são os sintomas de uma doença moral. Jesus empregou a metáfora da árvore e seus frutos para explicá-lo. Ele disse que o tipo de fruto produzido pela árvore (uma figueira ou videira) e sua condição (boa ou má) dependem da natureza e da saúde da árvore. Da mesma forma, “a boca fala do que está cheio o coração”.

Essa declaração de Jesus contradiz muitos reformadores e revolucionários sociais modernos. Certamente a maneira como fomos educados, o ambiente em que fomos criados, o sistema político e econômico sob o qual vivemos exercem uma influência (boa ou má) sobre nós. Além do mais, deveríamos lutar por justiça, liberdade e pelo bem-estar de todos os homens. Entretanto, Jesus não atribuiu a nenhuma dessas coisas os males da sociedade humana, e sim à própria natureza, ou “coração”, do homem. Vejamos o que ele diz:

Porque de dentro, do coração dos homens é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos estes males vêm de dentro e contaminam o homem.
(Marcos 7.21-23)

O Antigo Testamento já ensinava essa verdade. Como coloca Jeremias: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto, quem o conhecerá?” A Bíblia está repleta de referências a essa infecção da natureza humana que chamamos de “pecado original”. Trata-se de uma tendência ou predisposição egoísta, que herdamos de nossos pais, e que está profundamente arraigada em nossa personalidade humana e se manifesta milhares de vezes, de maneira repulsiva. Paulo chamou-a de “carne”, e nos deixou uma lista de suas “obras”, ou consequências.

Ora, as obras da carne são conhecidas, e são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas.
(Gálatas 5.19-21)

Como o pecado é uma corrupção interna da natureza humana, ele nos mantém escravizados. Não são alguns atos ou hábitos que nos escravizam, mas sim a infecção maligna de onde eles procedem. Muitas vezes, no Novo Testamento, somos descritos como “escravos”. Podemos nos ofender com isso, mas é a pura verdade. Jesus provocou a indignação de certos fariseus quando disse a eles: “Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.

Eles retrucaram: “Somos descendência de Abraão e jamais fomos escravos de alguém; como dizes tu: Sereis livres?”

Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade vos digo: Todo o que comete pecado é escravo do pecado”.

Por várias vezes, em suas epístolas, Paulo descreve a servidão humilhante imposta a nós pelo pecado:

Porque, outrora escravos do pecado…

Entre os quais nós também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos.
Pois nós também, outrora, éramos néscios, desobedientes, desgarrados, escravos de toda sorte de paixões e prazeres.
(Romanos 6.17; Efésios 2.3; Tito 3.3)

Tiago nos dá um exemplo de nossa falta de autocontrole quando menciona a dificuldade que temos em refrear a língua. Em um capítulo bastante conhecido, repleto de metáforas, ele diz que se alguém “não tropeça no falar, é perfeito varão, capaz de refrear também todo o seu corpo”. Ele destaca que “a língua, pequeno órgão, se gaba de grandes coisas”. A sua influência se espalha como o fogo; ela é “mundo de iniquidade” e está carregada de “veneno mortífero”. Podemos domar todos os tipos de feras e pássaros, ele acrescenta, “a língua, porém, ninguém consegue domar”.
(Tiago 3.1-12)

Sabemos disso muito bem. Todos nós temos ideais elevados, mas vontade fraca. Queremos viver uma vida abnegada, mas estamos acorrentados ao nosso egoísmo. Embora possamos nos gabar de que somos livres, na realidade não somos outra coisa senão escravos. Devemos nos aproximar de Deus com lágrimas e dizer:

Não posso, Senhor,
não há nada que eu possa fazer,
nenhuma batalha em minha vida
que eu possa realmente vencer.
Mas agora venho lhe dizer
o quanto eu lutei e falhei,
em minha história tão humana
de fraquezas e futilidades.

(Studdert Kennedy)

Regras de conduta não resolvem o nosso problema; não podemos cumpri-las. Mesmo que Deus nos diga claramente para não fazer alguma coisa, continuaremos fazendo até o final dos tempos.

Sermões também não adiantam; o que nós precisamos é de um Salvador. Mudar nossa mente através da educação não é suficiente, precisamos de uma mudança de coração. O homem descobriu o segredo da força física e o poder da reação nuclear. Agora ele precisa do poder espiritual para libertar-se de si mesmo e ajudá-lo a conquistar e controlar o seu eu; um poder que dê a ele um caráter moral à altura de suas conquistas científicas.

 

— Fonte: Cristianismo Básico. Stott, John, página 99-102.

— Imagem: freeimages.com/photo/1226063


Nota:
Durante o mês de agosto, publicaremos neste blog trechos do clássico Cristianismo Básico, de John Stott. Assim, o leitor poderá conhecer ou relembrar o que tem de melhor no livro. Leia o texto abaixo e os próximos que virão.

JS_19_08_14_Cruz[…] o valor dos milagres de Cristo se encontra menos em seu caráter sobrenatural do que em seu significado espiritual. Eles eram tanto “sinais” quanto “maravilhas”. Nunca foram realizados como exibição de poder ou de forma insensata. Seu propósito não era chamar a atenção ou demonstrar autoridade.

Podemos dizer que os milagres eram representações das parábolas de Jesus, uma expressão visual de suas declarações. Suas obras eram dramatizações de suas palavras.

João percebeu isso claramente. Seu Evangelho gira em torno de seis ou sete “sinais” selecionados (veja 20.30-31) e relacionados às grandes declarações “Eu sou” feitas por Jesus. O primeiro sinal foi a transformação da água em vinho na festa de casamento em Caná da Galileia. Esse não é exatamente um milagre edificante. A sua importância está além das aparências. João nos diz que as jarras de pedra estavam preparadas para os “rituais judaicos de purificação”. Esta é uma boa dica. A água representa a antiga religião, assim como o poço de Jacó no capítulo 4, rico em associações com o Antigo Testamento. O vinho significa a religião de Jesus. Ao transformar a água em vinho, a mensagem que estava sendo transmitida era de que o evangelho havia tomado o lugar da lei. O sinal anunciava que Jesus tinha competência para inaugurar uma nova ordem. Ele era o Messias. Logo depois, quando a mulher samaritana perguntou-lhe se era o Messias, ele disse: “Eu o sou, eu, que falo contigo”.

Do mesmo modo, ao alimentar cinco mil pessoas, ele estava ilustrando sua declaração de satisfazer a fome do coração humano. “Eu sou o pão da vida”, ele afirmou. Pouco depois, ele abriu os olhos de um cego de nascença, depois de ter declarado: “Eu sou a luz do mundo”. Se ele foi capaz de restaurar a vista aos cegos, certamente poderia abrir os olhos dos homens para que vissem e conhecessem a Deus.

Finalmente, ele trouxe de volta à vida um homem chamado Lázaro, que estava morto havia quatro dias, e afirmou: “Eu sou a ressurreição e a vida”. Ele ressuscitou um morto. Isso é um sinal. A vida do corpo simboliza a vida da alma. Enquanto estamos vivos, Cristo é a nossa vida, após a morte Cristo é a certeza da nossa ressurreição. Todos os seus milagres são parábolas, pois os homens estão espiritualmente famintos, cegos e mortos, e somente Cristo pode satisfazer a sua fome, restaurar a sua vista e ressuscitá-los para uma nova vida (João 6.35; 8.12; 11.25).

Fonte: Cristianismo Básico. Stott, John, página 39, 40.

 

Nota:
Durante o mês de agosto, publicaremos neste blog trechos do clássico Cristianismo Básico, de John Stott. Assim, o leitor poderá conhecer ou relembrar o que tem de melhor no livro. Leia o texto abaixo e os próximos que virão.