Se nós pelo menos observássemos ‘unidade nos essenciais, liberdade nos não essenciais, caridade em todas as coisas’, as nossas relações certamente estariam na melhor situação possível. (Rupert Meldenius, teólogo luterano do século 17)

A unidade é um dos principais abordados por Paulo na Carta de Filipenses. Ao que parece, tinha havido algum desentendimento sério na igreja. Não sabemos exatamente o porquê , mas uma pista pode ser as três conversões notáveis  que se deram durante as visitas missionárias de Paulo (At 16. 11-18, 27-34). Seria difícil imaginar um trio mais desigual: os três convertidos diferiam um do outro enquanto à nação, grupo social e provavelmente até quanto ao temperamento. Lídia era uma mulher de negócios bem-sucedida, da província da Ásia; a escrava anônima vinha de outra extremidade do aspecto social; já o carcereiro romano , provavelmente um soldado aposentado, poderia ser descrito como pertencente a uma respeitável classe média. Estes três foram membros fundadores da igreja de Filipos. O impressionante é que, pelo batismo, eles puderam ser aceitos na comunidade cristã sem discriminação. Talvez existissem outros convertidos, de passados igualmente diferentes. É bem possível que a tensão entre raças, classes e personalidades tenha vindo à tona  outra vez depois da conversa deles, causando algum conflito.

Unidade no Evangelho

Em todo caso, convém atentarmos para as exortações do apóstolo. Ele pede os seus leitores que permaneçam  firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica (Fp 1.27). E prossegue advertindo-os: Completai a minha alegria, de modo que penseis a mesma coisa, tenhais o mesmo amor, sejais unidos de alma, tendo o mesmo sentimento (2.2).

É importante observarmos, no entanto, que tipo de unidade  Paulo está lhes recomendando. Não é uma unidade que se busque a qualquer preço, mesmo que para isso se comprometam verdades fundamentas; nem é uma unidade nos mínimos detalhes, que implique afastar-se de qualquer um que deixe de colocar pontos nos “is” e cortar todos os “tes” como nós fazemos. É unidade no Evangelho, nas coisas essenciais  do Evangelho,  firmes… lutando juntos pela fé evangélica (versículo 27).

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A primeira condição para garantirmos uma vida cristã cada vez mais robusta e salutar é mantendo uma relação íntima com Deus por meio da leitura diária da Bíblia e da oração. A segunda é que haja no seio da comunidade cristã uma comunhão íntima dos irmãos. A vida cristã não pode ser vivida isoladamente (exceto na circunstância muito improvável de se estar vivendo como náufrago em uma ilha deserta!). Aliás, depois de experimentar os prazeres de uma vida em comunhão, ninguém vai querer se privar disso!

 

Comunhão é importante

Mesmo assim, para muita gente, principalmente quem é novo convertido, a perspectiva de tornar-se membro de uma igreja não é nada convidativa e às vezes é até constrangedora. Na verdade essas pessoas se sentem pouco à vontade na igreja. O ideal de uma comunidade multicultural parece muito bom, mas a realidade que experimentam está muito longe disso. Ninguém expressou com mais pungência esse sentimento de estranheza em relação à igreja do que C. S. Lewis. Ele escreve que quando, depois de sua conversão do ateísmo ao cristianismo, começou a frequentar a igreja aos domingos e a capela de sua faculdade durante a semana, achou a ideia de aderir a uma igreja “totalmente sem atrativos”. E explica:

Mas embora eu gostasse de clérigos tanto quanto de ursos, tinha tão pouca vontade de pertencer à igreja quanto de visitar um zoológico. Era, para começo de conversa, uma espécie de organismo coletivo, uma cansativa “reunião social”. Não conseguia entender como é que uma coisa daquele tipo poderia ter algo a ver com vida espiritual. Para mim, religião tinha mais a ver com homens bons orando sós e encontrando-se dois a dois, ou três a três, para conversar sobre questões espirituais. E depois toda aquela agitação, aquela amolação e perda de tempo! Os sinos, as multidões, os guarda-chuvas, os avisos, a agitação, o eterno planejar e organizar. Os hinos eram (e são) para mim extremamente desagradáveis. De todos os instrumentos musicais, gostava (e gosto) menos do órgão. Tenho também uma espécie de acanhamento espiritual que me torna inepto para participar de qualquer rito.1

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Juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração,louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo (Atos 2.46-47)

Relembrando rapidamente as quatro marcas de uma igreja viva destacadas por Lucas, percebemos claramente que todas dizem respeito aos relacionamentos dos primeiros cristãos.

Primeiro, eles se relacionavam com os apóstolos. Os primeiros cristãos dedicavam-se ao ensino dos apóstolos. Sentavam-se aos pés dos apóstolos e submetiam-se à sua autoridade. Uma igreja viva é uma igreja apostólica; seus membros estão comprometidos com o ensino dos apóstolos e se submetem a ele.

Segundo, eles se relacionavam uns com os outros. Eles se empenhavam em manter a comunhão entre eles. Amavam uns aos outros. Uma igreja viva é uma igreja interessada em pessoas.

Terceiro, eles se relacionavam com Deus. Eles adoravam a Deus no partir do pão e nas orações, com ou sem formalismo, com alegria e reverência. Uma igreja viva é uma igreja adoradora.

Quarto, eles se relacionavam com o mundo. As pessoas de fora eram alcançadas através de seu testemunho e de sua missão. Uma igreja viva é uma igreja evangelizadora.

Anos atrás, numa visita à capital de um país da América Latina, conheci um grupo de estudantes cristãos. Eles chamavam a si mesmos de cristianos descolgados, “cristãos desenganchados”, pois todos eles haviam deixado suas igrejas. Eles tinham visitado todas as igrejas de suas cidades, mas não encontraram nenhuma com as características que estavam procurando. Quais seriam essas
características? Fiquei admirado quando eles, mesmo sem ter conhecimento da descrição de Lucas, mencionaram exatamente as quatro marcas enfatizadas por ele. Eles procuravam uma igreja: que ensinasse a Bíblia; que desfrutasse de uma amorosa comunhão; que adorasse a Deus com sinceridade e humildade; que estivesse profundamente interessada em alcançar os que estão no mundo.

Não precisamos esperar pela vinda do Espírito Santo. Ele veio no dia de Pentecostes e nunca mais deixou a igreja. O que precisamos é nos humilhar diante dele e buscar sua plenitude, sua direção e seu poder. Só assim nossas igrejas poderão ao menos se aproximar do modelo ideal de Lucas no ensino apostólico, na comunhão amorosa, na adoração sincera e no evangelismo contínuo e constante.

Para saber mais: Atos 2.37-47

Texto originalmente publicado em A Bíblia Toda o Ano Todo.