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“A conversão de São Paulo”, por Murilo – Museu do Prado, Madri

A conversão de Saulo de Tarso é a mais celebrada em toda a história da igreja cristã. Algumas pessoas, no entanto, se sentem perturbadas com ela. “Eu não tive uma experiência repentina na estrada de Damasco”, dizem. Mas considere. A conversão de Saulo não foi repentina. Isso o surpreende? É claro, é verdade que de repente uma luz brilhou no céu, ele caiu no chão e Jesus falou com ele. Mas essa intervenção imprevista não foi, de modo algum, a primeira vez em que Jesus falou com ele. Ao contrário, foi o ápice de um longo processo. Como sabemos isso? Deixe-me citar Atos 26.14: “Todos caímos por terra. Então ouvi uma voz que me dizia em aramaico: ‘Saulo, Saulo, por que você está me perseguindo? Resistir ao aguilhão só lhe trará dor!’”

A palavra grega kentron poderia ser traduzida como “espora”, “chicote” ou “aguilhão”. Muito frequentemente, no grego clássico, a partir de Ésquilo, ela foi usada num sentido metafórico. Do mesmo modo, no livro de Provérbios, lemos: “O chicote é para o cavalo, o freio, para o jumento, e a vara, para as costas do tolo!” (26.3)

Ao falar com Saulo, Jesus estava se comparando a um fazendeiro incitando um boi recalcitrante ou a um treinador de cavalos domando um potro selvagem. A implicação é clara. Jesus estava perseguindo, cutucando e espetando Saulo. Mas ele estava resistindo à pressão, e era difícil, doloroso e até mesmo fútil para ele resistir aos aguilhões.

Isso nos leva a uma pergunta natural. Quais eram os aguilhões com os quais Jesus Cristo estava cutucando Saulo de Tarso? Embora isso não nos tenha sido dito especificamente, podemos observar algumas evidências a partir do livro de Atos e de menções autobiográficas nas cartas do apóstolo.

Jesus estava cutucando Saulo em sua mente

Saulo havia sido educado em Jerusalém aos pés de Gamaliel, provavelmente o professor judeu mais celebrado de todo o primeiro século da era cristã. Assim, teologicamente, Saulo tinha um ótimo conhecimento do judaísmo e, moralmente, era zeloso da Lei. De sã consciência naqueles dias, ele estava convencido de que Jesus de Nazaré não era o Messias. Para ele, era inconcebível que o Messias judeu pudesse ser rejeitado por seu próprio povo e então morrer, aparentemente debaixo da maldição de Deus, uma vez que estava escrito na Lei: “qualquer que for pendurado num madeiro está debaixo da maldição de Deus” (Dt 21.23). Não, não. Jesus deve ser um impostor. Desse modo, Saulo via como parte de sua tarefa opor-se a Jesus de Nazaré e perseguir seus seguidores. Essa era a sua convicção. Inconscientemente, no entanto, sua mente estava cheia de dúvidas por causa dos rumores que circulavam acerca de Jesus: a beleza e a autoridade de seu ensino; a humildade e a mansidão de seu caráter; seu serviço compassivo pelos pobres; seus feitos poderosos de cura; e, em especial, o rumor persistente de que sua morte não havia sido o fim, pois algumas pessoas diziam que o haviam visto e tocado, e conversado com ele após sua morte. A mente de Saulo estava em desordem.

Jesus estava cutucando Saulo em sua memória

Ele evidentemente estivera presente no julgamento, diante do Sinédrio, de um líder cristão chamado Estevão, a quem Lucas descreveu como “homem cheio de fé e do Espírito Santo” (At 6.5). Isso, então, não era rumor ou boato, pois Saulo vira com seus próprios olhos a face de Estevão brilhando como a face de um anjo (At 6.15). Ele ouvira com seus próprios ouvidos a defesa de Estevão, ao final da qual ele afirmara ver a glória de Deus e “o Filho do homem em pé, à direita de Deus” (At 7.55,56). E, quando arrastaram Estevão para fora da cidade e o apedrejaram até a morte, colocaram suas vestes aos pés de Saulo. Lucas continua sua descrição: “Enquanto apedrejavam Estêvão, este orava: ‘Senhor Jesus, recebe o meu espírito’. Então caiu de joelhos e bradou: ‘Senhor, não os consideres culpados deste pecado’. E, tendo dito isso, adormeceu’ (At 7.59,60).

Saulo deve ter dito para si mesmo: “Há algo inexplicável a respeito desses cristãos. Eles estão convencidos de que Jesus de Nazaré é o Messias e têm a coragem de suas convicções; estão preparados para morrer por elas. Além disso, recusam-se a retaliar seus inimigos; ao contrário, oram por eles”. Jesus estava cutucando a memória de Saulo. Ele não conseguia tirar Estêvão da mente.

Jesus estava cutucando Saulo em sua consciência

Saulo era um homem extremamente piedoso, como todos os fariseus eram. Vivia uma vida irrepreensível e tinha uma reputação sem mancha. Assim como escreveu em suas cartas, no que diz respeito à justiça da Lei, ele era irrepreensível (Fp 3.6). No entanto, a piedade perfeita que ele dizia ter era uma conformidade puramente externa às exigências da Lei. Exteriormente ele havia obedecido aos preceitos e às proibições da Lei. Interiormente, no entanto, em sua consciência, ele sabia que era pecador. Ele poderia ter dito como C. S. Lewis escreveu mais tarde: “Pela primeira vez examinei a mim mesmo com um propósito seriamente prático. E ali encontrei o que me assustou: um bestiário de luxúrias, um hospício de ambições, um canteiro de medos, um harém de ódios mimados. Meu nome era legião”.7 No caso de Saulo, o último dos Dez Mandamentos o condenava. Ele poderia lidar bem com os primeiros nove porque eles tinham a ver somente com suas palavras e obras. Mas o décimo proibia a cobiça. E a cobiça não é nem uma obra nem uma palavra, mas um desejo, uma luxúria insaciável. Então, quando se deparou com aquele mandamento, ele escreveu com dramática imaginação em Romanos 7 que a cobiça o matou.

Eu não saberia o que é pecado, a não ser por meio da Lei. Pois, na realidade, eu não saberia o que é a cobiça, se a Lei não dissesse: “Não cobiçarás”. Mas o pecado… produziu em mim todo tipo de desejo cobiçoso… Antes eu vivia sem a Lei, mas quando o mandamento veio, o pecado reviveu, e eu morri. (Rm 7.7-9)

Jesus estava cutucando Saulo em seu espírito

Eu uso a palavra espírito em referência àquela parte de nossa composição humana que é ciente da realidade transcendente de Deus. Como um judeu, Paulo havia crido em Deus, é claro, desde a infância. Havia buscado servir a Deus na juventude com uma consciência limpa, e ainda assim sabia que estava separado do Deus em quem cria. Ele acreditava nele, mas não o conhecia. Estava alienado de Deus. Ele assim o declarou, no texto que acabei de citar: “quando o mandamento veio… eu morri”. Mais adiante ele diz que estava “morto em suas transgressões e pecados” (Ef 2.1), estranho ao Deus doador da vida.

Estes, eu sugiro, eram os aguilhões com os quais Jesus estava ferindo Saulo de Tarso e aos quais ele estava resistindo, e com os quais acabava por ferir a si mesmo. Jesus o afligia em sua mente, enchendo-o de dúvidas sobre se ele era um impostor ou não. Ele o afligia em sua memória, fazendo-o lembrar-se da face, das palavras, da dignidade e da morte de Estevão. Ele o afligia em sua consciência, condenando-o por seus desejos maus. E o afligia em seu espírito, naquele imenso vácuo de alienação. Desse modo, durante anos Jesus cutucou e picou Saulo, com o objetivo único de curá-lo. E todo o fanatismo com o qual Saulo estava perseguindo a Cristo, ao perseguir a igreja, traía sua inquietação interior. Assim, o episódio da estrada de Damasco, quando Jesus lhe apareceu, foi o clímax inesperado de um processo gradual. Saulo finalmente entregou-se àquele contra quem estava lutando e de quem estava fugindo havia muito tempo.

JS_06_11_15_chave_liberdadeMuitas pessoas estão preocupadas com a busca pela liberdade. Para uns, ela é a liberdade nacional, a emancipação de um jugo colonial ou neocolonial. Para outros, é a liberdade civil, de direitos e liberdades individuais. E para outros, ainda, é a liberdade econômica, a liberdade da pobreza, da fome e do desemprego. Mas, para todos nós, ela é a liberdade pessoal. Até mesmo aqueles que lutam mais arduamente por aquelas outras liberdades citadas em geral sabem que eles mesmos não são livres. Eles se sentem frustrados, insatisfeitos e sem liberdade. Certa vez o célebre novelista britânico John Fowles, quando lhe perguntaram se havia algum tema especial em seus livros, respondeu: “Sim. Liberdade. Como alcançar a liberdade. É a minha obsessão, todos os meus livros falam sobre isso”.

Liberdade é uma grande palavra cristã. Jesus Cristo é retratado no Novo Testamento como o supremo libertador do mundo. Ele disse que viera “libertar os oprimidos” (Lc 4.18). E acrescentou mais adiante: “se o Filho os libertar, vocês de fato serão livres” (Jo 8.36). Do mesmo modo, o apóstolo Paulo escreveu: “foi para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5.1).

Liberdade é hoje uma palavra moderna para “salvação”. Ser salvo por Jesus Cristo é ser liberto. No entanto, quando se introduz a palavra “salvação” em uma conversa ela gera diferentes reações. Alguns reagem com constrangimento e mudam de assunto o mais rápido possível. Outros reagem com tédio. Eles bocejam e não ficam vermelhos, porque para eles os termos “pecados” e “salvação” fazem parte de um vocabulário religioso tradicional que já se tornou obsoleto e sem sentido. Um terceiro grupo vive em meio à confusão, porque não tem ideia de como a palavra “salvação” deveria ser definida. No entanto, quando se fala em “liberdade”, as pessoas logo demonstram interesse.

A bela história de B. F. Westcott, um famoso estudioso do Novo Testamento, ilustra essa confusão. Durante alguns anos ele foi professor de divindade na Universidade de Cambridge e em 1890 tornou-se bispo de Durham. Conta-se que, enquanto viajava de ônibus para um determinado lugar, ele foi abordado por uma jovem do Exército de Salvação. Sem se intimidar com os trajes que denunciavam sua posição religiosa, a moça lhe perguntou se era salvo. Com um brilho no olhar, o bispo respondeu: “Bem, minha querida, depende do que você quer dizer. Você quer dizer sozomenos ou sessmenos ou sothesomenos?” — usando os tempos presente, passado e futuro do verbo grego sozo, que significa “salvar”.

Espero que neste capítulo o leitor não se sinta constrangido, cansado ou confuso, mas que possamos reafirmar e restabelecer essa grande e gloriosa palavra “salvação”, pois ela é uma palavra bíblica (não pode ser simplesmente rejeitada) e uma grande palavra (inclui todo o propósito de Deus). Então, deveríamos estar aptos a fazer coro com Paulo, que escreveu: “Não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê: primeiro do judeu, depois do grego” (Rm 1.16).

Lembro-me bem de, quando era um cristão recém-convertido, ter lido esse versículo e ter sido apresentado ao que chamamos de “três tempos da salvação”. Eles são os seguintes:

Primeiro, fui salvo (ou liberto) no passado da penalidade do pecado por um Salvador crucificado.

Segundo, estou sendo salvo (ou liberto) no presente do poder do pecado por um Salvador vivo.

Terceiro, serei salvo (ou liberto) no futuro da presença do pecado por um Salvador que virá.

Trata-se de uma estrutura simples, que engloba o que a Bíblia quer dizer por “salvação”. Ela nos capacitará, sempre que a palavra aparecer, a perguntarmos a nós mesmos que tempo da salvação — passado, presente ou futuro — está em mente. O fato de que fomos salvos nos liberta da culpa e do julgamento de Deus. O fato de que estamos sendo salvos nos liberta da escravidão da nossa própria autocentralidade. E o fato de que seremos salvos nos liberta de todo o temor acerca do futuro.

Trecho do livro Por que sou cristão (p. 89 – 92)

Por que Sou Cristão ganhou mais um fôlego nesta semana. Ele segue firme em cativar o interesse dos leitores desde seu lançamento há exatos 9 anos. Recebemos ontem a remessa referente à décima reimpressão deste livro de John Stott. Ao todo, já foram impressos quase 15 mil exemplares. Os números podem até ser modestos se fizemos a comparação com os de grandes editoras, mas para nós, da Ultimato, são muito significativos.

O que mais nos alegra é saber que a essência da identidade cristã tem sido propagada nos quatro cantos do Brasil. Que assim seja!

 

Na foto, nosso colega Rodrigo, responsável pelo envio dos livros aos leitores.