No capítulo intitulado “Dependência”, do livro O Discípulo Radical, John Stott conta algumas histórias para ilustrar o significado de dependência e humildade. Uma delas tem a ver com Michael Ramsey (1904-1988), arcebispo de Canterbury que, discursando para um grupo de pessoas na véspera da ordenação delas, escolheu a humildade como tema para a ocasião e seu discurso incluía os seguintes conselhos:

1. Agradeça a Deus, com frequência e sempre […]. Agradeça a Deus, com atenção e admiração por seus privilégios sem fim […]. Gratidão é um solo no qual o orgulho não cresce facilmente.

2. Interesse-se por confessar seus pecados. Certifique-se de julgar a si mesmo na presença de Deus: isso é o seu autoexame. Coloque-se sob o julgamento divino: isso é a sua confissão […].

3. Esteja pronto para aceitar humilhações. Elas podem doer terrivelmente, mas te ajudam a ser humilde. Pode ser que sejam humilhações insignificantes. Aceite-as. Pode ser que sejam humilhações maiores […]. Tudo isso pode ser uma oportunidade para estar um pouco mais próximo do nosso crucificado e humilde Senhor.

4. Não se preocupe com status […]. Só existe um status com o qual nosso Senhor nos ordena a estar preocupados: o status de proximidade dele mesmo.

5. Use seu senso de humor. Rir das coisas, rir dos absurdos da vida, rir de si mesmo e de seus próprios absurdos. Nós somos, todos nós, criaturas infinitamente pequenas e burlescas dentro do universo de Deus. Você tem de ser sério, mas nunca ser cerimonioso, porque se você for cerimonioso sobre qualquer coisa, existe o risco de tornar-se cerimonioso com você mesmo.1 

Nota:
1 – The christian priest today. SPCK, 1972. Edição revisada, 1985. Capítulo 11: “Divine humility”, p. 79-91.
Texto originalmente publicado no livro O Discípulo Radical.

Ao falar sobre o serviço dos cristãos a Cristo e ao próximo, John Stott lembra que há diferentes tipos de ministério, conforme o dom e a vocação de cada servo. Cada um pode servir com suas orações, dons, interesses e capacidades, encorajando ou engajando-se em alguma atividade e respondendo à chamada de Deus para nos especializarmos de acordo com nossa vocação, conforme os dons, os interesses e oportunidades.

Além dos diferentes dons, há diferentes esferas do ministério cristão, começando do nosso “centro” pessoal (lar e trabalho), passando pela igreja e vizinhança, até atingir o mundo todo. A respeito do ministério cristão em nosso trabalho ele diz:

O local de trabalho é a segunda esfera na qual somos chamados a servir, a exercitar um ministério cristão. Há cristãos que entendem isso apenas em termos de evangelização – acham que o seu emprego é primordialmente uma oportunidade para testemunhar aos seus colegas ou companheiros de trabalho. Isso é verdade, principalmente se eles forem os únicos cristãos ali, e especialmente se o seu testemunho se refletir acima de tudo na qualidade de seu trabalho. Mas o nosso trabalho diário tem o seu próprio valor como forma de ministério cristão, totalmente independente da questão evangelística. Nós precisamos de uma filosofia cristã de trabalho.

O lugar certo para começar é em Gênesis 1, onde vemos Deus como um trabalhador atencioso, criativo, diligente e responsável. Depois de criar o mundo, ele continuou supervisando, sustentando e renovando-o. Então, ao criar os seres humanos à sua própria imagem, ele os fez igualmente trabalhadores criativos. Lembrar que ao trabalhar estamos sendo como Deus acrescenta honra e dignidade ao nosso labor. O nosso trabalho ganha ainda mais importância porque nos permite beneficiar a outros, tanto porque ao ganhar nosso salário podemos sustentar nossa família e ajudar os necessitados, quanto porque o produto de nosso trabalho contribui para o bem comum.

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A oração parece ser uma coisa muito simples, quando Jesus fala sobre ela. Simplesmente Pedi …, buscai …, batei …, e, em qualquer caso, receberemos a resposta. Não obstante, é uma simplicidade ilusória; há muita coisa por detrás dela.

Primeiro, oração pressupõe conhecimento. Considerando que Deus só concede dádivas de acordo com a sua vontade, temos de esmerar-nos em descobri-la – pela meditação nas Escrituras e pelo exercício da mente cristã disciplinada nessa meditação.

Segundo, oração pressupõe fé. Uma coisa é conhecer a vontade de Deus; outra é nos humilharmos diante dele e expressarmos a nossa confiança em que ele é capaz de executar a sua vontade.

Terceiro, oração pressupõe desejo. Podemos conhecer a vontade de Deus e crer que ele pode executá-la, e ainda assim não deseja-la. A oração é o principal meio ordenado por Deus para a expressão de nossos mais profundos desejos. É por isso que a ordem de “pedir – buscar – bater” está no imperativo presente e em escala ascendente, para desafio de nossa perseverança.

Assim, antes de pedir, precisamos saber o que pedir e se está de acordo com a vontade de Deus; temos de crer que Deus pode concedê-lo; e precisamos genuinamente desejar recebê-lo. Então, as graciosas promessas de Jesus se realizarão.

Trecho extraído do livro A Mensagem do Sermão do Monte.