O processo natural que Deus estabeleceu, em parte pela criação e em parte pelo juízo, é nascimento, crescimento, declínio, morte e decomposição. Este é o ciclo da natureza. Ele inclui os seres humanos: “Porque você é pó, e ao pó voltará”.1 O próprio conceito de ressurreição é, portanto, sobrenatural.

No caso de Cristo, o processo natural de decomposição física foi além de detido e anulado: foi superado. Em vez de se dissolver em pó, seu corpo foi transformado em um novo e glorioso instrumento para sua alma. Na verdade, o Novo Testamento apresenta a ressurreição de Jesus como a manifestação máxima do poder sobrenatural de Deus. A oração de Paulo pelos cristãos de Éfeso era para que os olhos do coração deles fossem iluminados, a fim de conhecerem a incomparável grandeza do poder de Deus, o poder que “ele exerceu em Cristo, ressuscitando-o dos mortos […]”.2

O cristianismo é, em sua essência, uma religião de ressurreição. Este conceito é central para ele. Se for removido, destruímos o cristianismo. Deixe-me mostrar o que quero dizer. O Novo Testamento fala de pelo menos três ressurreições distintas.

Primeiro, a ressurreição de Cristo. 35 horas após a morte, sua alma (que estivera no Hades, onde habitam os mortos) e seu corpo (que ficara em uma pedra no túmulo) se uniram. Ao mesmo tempo, seu corpo foi levantado. Ou seja, foi transformado no que Paulo chama de “seu corpo glorioso”3 e investido de poderes novos até então desconhecidos. Nesse corpo de ressurreição, Cristo irrompeu do túmulo, atravessou portas fechadas, apareceu aos seus discípulos, desapareceu e, finalmente, desafiando a lei da gravidade, ascendeu aos céus.

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No mês de março, a Editora Ultimato comemorou junto com a Aliança Bíblica Universitária (ABU) os 43 anos de fundação da ABU Editora e os 7 anos de parceria, desde que Ultimato passou a ser a responsável por comercializar os livros dessa editora. Atualmente Ultimato tem mais de 50 títulos da ABU em seu catálogo.
 
A seguir você pode ler um trecho de Crer é Também Pensar, de John Stott, um clássico da ABU Editora e um dos livros mais vendidos em 2017.

O apelo à santidade

Muitos segredos para a santidade nos são dados nas páginas da Bíblia. De fato, um dos maiores propósitos da Bíblia é mostrar ao povo de Deus como viver de forma digna e agradável ao Senhor. Porém, um dos aspectos mais negligenciados na questão da santidade é o papel da mente, mesmo que Jesus tenha esclarecido a questão quando prometeu que “conhecerão a verdade, e a verdade os libertará”.1

É por meio da verdade que Cristo nos liberta do domínio do pecado. Como isso funciona? Onde está o poder libertador da verdade?

Para começar, precisamos ter uma visão clara do tipo de pessoa que Deus quer que sejamos. Precisamos conhecer as leis morais e os mandamentos de Deus. Como John Owen expressa, “aquele bem que a mente não pode descobrir, que a vontade não pode escolher, que os sentimentos não podem discernir”. Ainda assim, “nas Escrituras a corrupção da mente é comumente vista como o princípio de todo o pecado”.2

O melhor exemplo disso talvez seja encontrado no começo da vida de nosso Salvador. Por três vezes o diabo veio até ele e o tentou no deserto da Judeia. Por três vezes ele reconheceu que a sugestão do diabo era maligna e contrária à vontade de Deus. Por três vezes ele enfrentou a tentação com a palavra gegraptai, “está escrito”. Não havia espaço para debate ou argumento. O problema estava resolvido na mente dele desde o começo. Porque a Escritura tinha estabelecido o que era certo. Um conhecimento claro da vontade de Deus é o primeiro segredo para uma vida reta.

No entanto, não é suficiente sabermos o que devemos ser. Precisamos ir além e empenhar nossas mentes nisso. A batalha é quase sempre ganha na mente. É por meio da renovação da nossa mente que nosso caráter e comportamento são transformados.3 Assim, as Escrituras nos chamam novamente para uma disciplina mental a esse respeito. “Tudo o que for verdadeiro” – ela afirma – “tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas”.4

Novamente, “portanto, se vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus”.5

E, uma vez mais, “quem vive segundo a carne tem a mente voltada para o que a carne deseja; mas, quem vive de acordo com o Espírito, tem a mente voltada para o que o Espírito deseja. A mentalidade da carne é morte, mas a mentalidade do Espírito é vida e paz”.6

Notas
1 – João 8.32.
2 – OWEN, John. Pneumatologia ou A Discourse Concerning the Holy Spirit. [S.l.: s.n.]: 1668. p. 111.
3 – Romanos 12.2.
4 – Filipenses 4.8.
5 – Colossenses 3.1-2.
6 – Romanos 8.5-6.
Trecho do livro Crer é Também Pensar. ABU/Ultimato, 2012.

Em 1995, Roy McCloughry entrevistou John Stott para a revista britânica Third Way. A entrevista foi republicada também pela Christianity Today nos Estados Unidos. O conteúdo da entrevista esclarece ainda mais os temas centrais de Stott sobre cristianismo equilibrado e apresenta seus pontos de vista em várias questões enfrentadas pelo cristianismo evangélico. Leia trechos a seguir.

Quais são as causas atuais de nossa fragmentação?

Bem, divergimos sobre o que consideramos questões de princípio, mas a razão é frequentemente pessoal, não é mesmo? Quando sentimos medo, abrigamo-nos em relacionamentos e guetos nos quais nos sentimos seguros com pessoas que pensam como nós. Reconheço esse medo em mim mesmo; é parte de nossa insegurança humana básica. Estamos buscando contextos nos quais podemos ser apoiados, não questionados.

Qual a base teológica para o envolvimento cristão hoje? É suficiente falar sobre “sal e luz”?

Primeiro, há a natureza do próprio Deus. Ele está interessado e preocupado com mais do que religião: ele é o Deus da criação, assim como da aliança. Ele é amante da justiça: essa é sua natureza. Ele é um Deus que protege e defende os oprimidos. Se esse é o tipo de Deus que ele é, então, obviamente, seu povo também deve sê-lo.

Segundo, há a doutrina dos seres humanos. Se você se concentrar exclusivamente na salvação eterna da alma, dá a impressão de que um ser humano é apenas uma alma flutuando no vazio. Quando eu era estudante, fomos criados com a frase “um amor pelas almas”. Lembro-me de ter lido um livro chamado A Passion for Souls [Paixão pelas almas]. Contudo, nunca tive paixão pelas almas. Não posso imaginar uma alma como um objeto apropriado de amor ou afeição.

Seres humanos são mais do que almas; são “corpos-almas-em-uma-comunidade”. Se eu verdadeiramente amar meu próximo, o segundo grande mandamento ordena que eu o ame e o sirva em suas dimensões físicas, sociais e espirituais.

Eu poderia continuar – mas há tanto a dizer. Quase toda doutrina bíblica tem alguma relação com essa questão.

Você disse que cristãos são otimistas e não utópicos. Você é otimista sobre a igreja? Você sente que a próxima geração de líderes está preparada adequadamente?

Sim, penso que devo responder positivamente. Pessoas mais velhas da minha geração sempre têm dificuldade de reconhecer os dons dos jovens, ou mais jovens, mas, certamente, quando olho à minha volta, há homens e mulheres com dons notáveis que Deus está levantando.

No entanto, não somos utópicos. Não podemos construir o reino de Deus na terra. Estamos esperando pelo novo céu e pela nova terra, que serão o lar da retidão e paz. Contudo, sou otimista, porque não acho que pessimismo e fé andem juntos. Creio que Deus está agindo no mundo, creio que o evangelho é o meio do poder de Deus para a salvação de cada crente, e creio que a igreja pode ser sal e luz na comunidade. Tanto o sal quanto a luz são bens influentes: mudam o meio em que são colocados.

Que conselhos daria à nova geração de líderes da igreja?

Gostaria de dizer muitas coisas, mas minha exortação mais importante seria: Não negligencie suas habilidades críticas. Lembre-se de que Deus é um Deus racional, que nos fez à sua própria imagem. Ele nos convida e espera que exploremos essa dupla revelação, na natureza e nas Escrituras, com as mentes que nos deu, e que continuemos no desenvolvimento de uma mente cristã capaz de aplicar a cada aspecto do mundo moderno e pós-moderno a maravilhosa verdade revelada.

Texto extraído do livro Cristianismo Equilibrado. Ultimato, 2017.

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