Os cristãos têm uma contribuição característica a fazer para a discussão ecológica?

Certamente nossa geração está levando a responsabilidade ambiental mais a sério do que nossos predecessores imediatos. Os cientistas estão enfatizando o delicado equilíbrio da natureza. Deus estabeleceu na natureza poderes quase inacreditáveis de recuperação e degeneração, e, em particular, um ciclo para a renovação da energia (do sol para as plantas, para os animais, para bactérias, para a terra e de volta às plantas). É um exemplo do que Barbara Ward denominou “a unidade mais majestosa” do nosso planeta. Ela é devida às leis naturais que produzem um “equilíbrio dinâmico de forças biológicas mantidas em posição por sistemas de controle mútuo do tipo mais delicado”.1 “Eles são tão complexos” – comentou o doutor John Klotz, conservacionista norte-americano – “que não poderiam ter sido desenvolvidos pelo acaso.”2 Porém, se despojarmos a superfície verde da terra, ou destruirmos o plâncton dos oceanos, rapidamente alcançaremos o ponto em que não haverá retorno no processo de reciclagem. Nosso imenso conhecimento científico atual nos ensina “uma coisa acima de todas” – escreveu Barbara Ward – ou seja, a “necessidade de cuidado extremo, um senso da espantosa vastidão e complexidade das forças que podem ser desencadeadas, e da fina delicadeza dos agentes que podem ser perturbados”.3

Nos anos recentes temos visto vários fatos encorajadores. Mais uma vez, o meio ambiente está se tornando um item importante do programa de trabalhos das cúpulas mundiais. Porém, é mais fácil assinar tratados do que viver de maneira consistente com a boa administração do mundo de Deus.

Os cristãos têm uma contribuição característica a fazer para a discussão ecológica? Sim, cremos que Deus criou a terra, confiando seu cuidado a nós, e que um dia ele a recriará, quando ele fizer “o novo céu e a nova terra”, pois “toda a natureza criada geme até agora, como em dores de parto”. Seus gemidos se devem à “escravidão da decadência” e à consequente “frustração”. Contudo, no final ela compartilhará da “gloriosa liberdade dos filhos de Deus”. Ou seja, sua escravidão dará lugar à liberdade; sua decadência, à glória; e sua dor, à alegria de um novo mundo nascendo (Rm 8.19-22). Essas duas doutrinas, relacionadas ao princípio e ao final da História, à criação e à consumação, têm um efeito profundo na nossa perspectiva. Elas nos dão um respeito adequado pela terra, na verdade por toda a criação material, já que Deus tanto a fez como a fará novamente.

Em decorrência disso, devemos aprender a pensar e a agir ecologicamente. Nós nos arrependemos da extravagância, da poluição e da destruição irresponsável. Reconhecemos que os seres humanos consideram mais fácil subjugar a terra do que a si mesmos. O livro de Ronald Higgins, The Seventh Enemy [O sétimo inimigo] é significativo a esse respeito. Os seis primeiros “inimigos” são a explosão populacional, a crise de alimentos, a escassez de recursos, a degradação ambiental, o abuso nuclear e a tecnologia científica. Entretanto, o sétimo inimigo somos nós, nossa cegueira pessoal e inércia política à face do desafio ecológico de hoje. Essa é a razão pela qual o subtítulo do livro de Ronald Higgins é “O fator humano na crise global”. A raça humana precisa de uma nova autoconsciência, uma visão nova, um renascer de suas capacidades morais e religiosas.4 Mas, isso é possível? Sim, os cristãos estão convencidos disso.

Um dos méritos particulares do livreto do falecido professor Klaus Bockmuhl Conservation and Lifestyle [Conservação e estilo de vida] é ir além do “critério cristão” da responsabilidade ambiental para os “motivos cristãos”. Em sua conclusão, ele vai à raiz do problema:

“O que se espera dos cristãos é a motivação para o trabalho altruísta, que no passado distinguia a herança cristã. Nós deveríamos ser pioneiros no cuidado da raça humana […]. Deveríamos mostrar de onde vêm o poder e a perspectiva para essa contribuição. Somos incumbidos de dar o exemplo”. Nós temos de “despertar novamente o cerne da ética evangélica”.5

Podemos ser agradecidos porque atualmente existem várias organizações cristãs trabalhando especificamente na área do cuidado pela criação. Entre elas há o John Ray Institute, a International Evangelical Environment Network [Rede internacional ambiental evangélica], A Rocha e o Au Sable Institute. A raiz da crise ecológica é a avareza humana, que tem sido chamada “ganho econômico pela perda ambiental”. Muitas vezes trata-se de uma questão de competição entre interesses comerciais (embora algumas corporações multinacionais possuam departamentos ambientais). É uma questão lógica que o consumidor deva pagar o custo da produção sem poluição, seja em preços mais altos ou (por meio de um subsídio governamental ao fabricante) em impostos mais elevados. Os cristãos não devem se ressentir, se esse é o custo da administração responsável e ecológica.

Aqueles que querem viver responsavelmente à luz da visão bíblica para o meio ambiente e para as crises atuais que o afligem encontrarão muitas sugestões práticas no recente livro de Ruth Valerio L Is for Lifestyle [“E” de estilo de vida], que tem o subtítulo Christian living that doesn´t cost the earth [O estilo de vida cristão que não custa o preço da terra].6 O livro passeia pelo alfabeto, observa problemas específicos que enfrentamos e fornece indicações de como podemos mudar nosso estilo de vida ou ser mais bem informados a respeito desse problema em particular. Assim, A fala de ativistas, B de bananas, H de HIV, R de reciclagem, S de simplicidade, T de turismo e assim por diante. O livro é uma combinação de sugestões práticas e meditações cuidadosas sobre questões como a globalização e a simplicidade. Também contém sugestões sobre aonde ir para obter informações e ajuda adicionais.

Como os países em desenvolvimento lutam para elevar seus padrões de vida, o meio ambiente muitas vezes recebe menos prioridade do que os problemas mais imediatos de subnutrição, doenças e pobreza. Isso é compreensível e esses problemas mais profundos devem receber atenção se quisermos fazer progresso na preservação e nas melhorias do ambiente natural. Além do mais, insistir na proteção das florestas tropicais dos países em desenvolvimento, se estivermos relutantes em reduzir a emissão de CO2 em nossos próprios países, é hipocrisia grosseira. Também devemos estar dispostos a compartilhar tecnologias, as quais podem auxiliar a refrear a destruição natural e a criar benefícios econômicos para práticas profissionais ecologicamente seguras. Enquanto a vasta disparidade entre a riqueza e a pobreza permanece, os cristãos viverão com a consciência inquieta. Devemos evitar vigorosamente todo desperdício e avareza, não apenas devido à solidariedade com o pobre, mas também devido ao respeito pelo ambiente vivo.


Notas
  1. Ward, Barbara; Dubos, Rene. Only One Earth, The care and maintenance of a small planet. Londres: Penguin, 1972, p. 83.
  2. Ibid., p. 45.
  3. Ibid., p. 85.
  4. Higgins, Ronald. The Seventh Enemy. Londres: Hodder & Stoughton, 1978.
  5. Bockmuehl, Klaus. Conservation and Lifestyle. 1975, trad. Kaye, Bruce N. Cambridge: Grove Books, 1977, p. 23-24. Para uma avaliação cristã mais recente das questões ambientais, veja Elsdon, Ron. Greenhouse Theology. Londres: Monarch, 1992; LeQuire, Stan, org. The Best Preaching on Earth; A Collection of Sermons on Care for Creation. Valley Forge, Penn.: Judson Press, 1996; RUSSELL , Colin A. The Earth, Humanity and God. Londres: UCL Press, 1994. Veja também a revista quadrimestral Green Cross, uma publicação da Christian Society of the Green Cross, um ministério da Evangelicals for Social Action – Green Cross, 10 East Lancaster Avenue, Wyhhewood, PA 19096-3495, USA.
  6. VALERIO , Ruth. L is for Lifestyle. Leiscester: InterVarsity Press, 2004.
Texto originalmente publicado em Os Cristãos e os Desafios Contemporâneos, Editora Ultimato.

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