Vemos, nos Evangelhos, a distância que separava Jesus dos fariseus. Estes evitavam o contato com todos os excluídos. Aquele, no entanto, os acolhia como amigos; Jesus tocava os intocáveis.

“Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas!”.

Por que isso? Qual era a causa desse desacordo entre eles? A resposta é simples: a maior preocupação dos fariseus era com eles mesmos e com um modo de manter sua própria pureza, enquanto a prioridade de Jesus Cristo eram os outros – como “buscar e salvar o que estava perdido”.1

A fim de explicar e defender o que fez, Jesus recorreu a uma série de imagens ou parábolas marcantes.

Para começar, ele se comparou a um médico que se dedica ao cuidado de doentes e, portanto, assume o risco de se contagiar. Foi assim que ele respondeu à pergunta indignada dos fariseus sobre o motivo de comer com publicanos e pecadores: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim para chamar justos, mas pecadores”.2

Mais uma vez, quando os fariseus murmuraram, dizendo: “Este homem recebe pecadores e come com eles”,3 Cristo respondeu comparando-se com um pastor que havia perdido uma de suas cem ovelhas. Ele não abandonaria a ovelha perdida, nem aguardaria com esperança ouvir seu balido no caminho de casa. Ele preferiria abandonar as 99 que estavam seguras para sair à procura da que estava perdida e em perigo. Ele continuaria a busca até encontrá-la. Esse encontro levaria a uma alegria que ele gostaria de compartilhar com seus amigos e vizinhos.4

O que distinguia Jesus dos fariseus era, em uma palavra, a graça, a iniciativa divina que primeiro busca e depois salva o pecador perdido. Como explicou o estudioso judeu C. G. Montefiore, “os rabinos haviam dito que se o pecador voltar para Deus, este irá recebê-lo; eles não disseram que o amor de Deus sai à procura do pecador onde ele está. Todavia, é isso que dizem os Evangelhos”.5

Passemos de um pastor que perdeu uma de suas cem ovelhas para uma mulher que perdeu uma de suas dez moedas. Talvez a dracma, a moeda de prata que havia se perdido, tivesse um valor sentimental além do monetário. Talvez fosse um adorno ou uma das dez moedas de prata que as mulheres palestinas usavam naquela época para mostrar que eram casadas, assim como a aliança de casamento de nossos dias. Em todo o caso, ao perdê-la, ela sentiu falta da moeda. Não lhe ocorreu apenas aceitar a perda. Em vez disso, ela acendeu uma lâmpada e varreu toda a casa, procurando atentamente até encontrá-la.

Então, mais uma vez, com a moeda recuperada, como no caso da ovelha encontrada, a descoberta levou a uma alegria que, por sua vez, levou a uma celebração da qual amigos e vizinhos foram convidados a participar. “Da mesma forma” – disse Jesus – “há alegria [no céu,] na presença dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende”. Foi isso que faltou aos fariseus. Eles não se alegraram; eles murmuraram.6

A mais longa das três parábolas sobre perda ilustra a mesma verdade básica sobre a compaixão divina, porém vai mais fundo e acrescenta o tema do irmão mais velho. A graça de Deus no ministério de Cristo, já exibida no médico, no pastor e na mulher, agora é vista no pai. E não é difícil ver os paralelos entre, primeiro, os publicanos e o filho pródigo e, segundo, os fariseus e o irmão mais velho.7

Não devemos minimizar a rebeldia do filho mais novo. Quando confessou mais tarde: “Pequei”, ele estava dizendo a verdade. Ele havia perdido sua fortuna por causa da insensatez e sua honra por causa do pecado. Dificilmente poderia estar pior. Ele não só havia perdido tudo o que possuía, como também ele próprio estava perdido.

Durante todo o tempo, seu pai ficou na expectativa de encontrá-lo e nunca perdeu a esperança. Sua paciência não vacilou. Seu amor não desapareceu. Ele perseverou. E quando, finalmente, avistou o filho, ainda longe, voltando para casa, imediatamente, “cheio de compaixão, correu para seu filho, e o abraçou e beijou”.8

Mais uma vez, a ênfase está na iniciativa da graça. O pai não esperou que o filho chegasse em casa; correu para se encontrar com ele e acolhê-lo. Não esperou que ele se reconciliasse. Não o rebaixou à vida de servo que sabia que ele merecia. Não, ele o restaurou imediatamente como filho na família e honrou-o com um anel, com sandálias e com a melhor vestimenta. Ele nem mesmo esperou que o rapaz terminasse seu pedido de desculpas; interrompeu-o para ordenar que preparassem uma festa.

Entretanto, quando todos começaram a comemorar, a atitude pessimista do irmão mais velho de não querer participar da festa lançou uma sombra sobre ela. Ao descobrir o motivo da música e da dança, ele ficou com raiva e recusou-se a entrar, a despeito dos apelos que o pai lhe fez. Ficou ressentido com a recepção dada ao seu irmão, especialmente uma vez que sua própria lealdade ao pai não lhe parecia ter sido adequadamente reconhecida.

Este filho representa aqueles que consideram que a religião tem a ver com o mérito das pessoas, para quem a ideia de graça é injusta e até mesmo imoral. Ele nada sabia sobre a culpa que nenhum ato humano pode remover, sobre a oferta divina de perdão imerecido, sobre a alegria celestial por pecadores que se arrependem. Foi áspero, amargo, hipócrita e insensível. Enquanto outros comemoravam, ele permaneceu à distância, aborrecido. Em suma, ele era um fariseu.

Para os fariseus, o fato de Cristo aceitar os excluídos era um comprometimento imperdoável com o pecado; eles não o viam pelo que realmente era: uma expressão da compaixão divina pelos pecadores.

NOTAS
1 – Lucas 19.10.
2 – Marcos 2.17.
3 – Lucas 15.2.
4 – Lucas 15.1-7.
5 – MONTEFIORE, C. G. The Synoptic Gospels. Londres, 1927, v. 1, p. cxviii e v. 2, p. 520. Citado por S. C. Neill em Christian Faith Today. Pelican, 1955. p. 165.
6 – Lucas 15.8-10.
7 – Lucas 15.11-32.
8 – Lucas 15.20.
Trecho extraído do livro As Controvérsias de Jesus, de John Stott. Editora Ultimato.

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