Cada evangelista começa sua história num lugar diferente. Marcos mergulha quase imediatamente no ministério público de Jesus, anunciado como foi por João Batista. João assume o outro extremo e vai resgatar na eternidade passada a existência pré-encarnada de Jesus Cristo.

Como “Verbo” ele estava com Deus no início de tudo. De fato ele mesmo era Deus, ativo na criação do universo. Muito antes de ter factualmente “vindo” ao mundo ao tornar-se carne, ele estava continuamente “vindo ao mundo” como verdadeira luz (embora não reconhecida), a fim de iluminar cada homem com a luz da razão e da consciência (Jo 1.1-14).

São Mateus e Lucas que de fato contam a história do nascimento de Jesus. Lucas conta-a pelos olhos da virgem Maria (talvez até mesmo por seus próprios lábios), enquanto Mateus conta-a sob a ótica de José.

Lucas registra o anúncio angelical feito a Maria de que tanto sua concepção quanto o menino que nasceria seriam sobrenaturais:

“Respondeu-lhe o anjo: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus.” (Lucas 1.35)

Lucas prossegue descrevendo como Maria compartilhou seu segredo com sua prima Isabel, que logo daria à luz João Batista; como José (cujo doloroso dilema diante da gravidez de Maria é descrito por Mateus) viajou ao sul com ela, de Nazaré a Belém, residência de seus ancestrais, a fim de cumprir os requerimentos do recenseamento imperial e como foi num estábulo de uma hospedaria em Belém que Jesus nasceu e foi deitado, por sua mãe, numa manjedoura.

Embora tenha nascido em condições tão humildes, sem receber aclamação pública, houve aqueles que vieram prestar honras ao Salvador do mundo. Lucas conta de certos pastores que ficaram sabendo das boas novas por anjos, e Mateus fala de misteriosos magos – astrólogos da Pérsia – que foram guiados até ele por uma estrela. Parece ter havido uma providência deliberada trazendo esses grupos tão contrastantes. Pois os pastores eram judeus, iletrados e pobres, e os magos eram gentios, sofisticados e ricos. Ainda assim as barreiras de raça, nível educacional e social foram transcendidos por sua adoração comum ao menino Cristo. Eles prefiguravam a exuberante diversidade dos seguidores de Cristo.

Nem todos o adoraram, no entanto. Herodes, o Grande, que no curso de seu reino assassinou todo possível rival, ficou alarmado ao ouvir os magos dizendo que tinham vindo homenagear o Rei dos judeus – pois ele era o rei dos judeus. Quem então era esse? Advertidos por Deus da resolução de Herodes em destruir a criança, José e Maria fugiram com ele para a segurança do Egito, e aquele que havia nascido para reinar tornou-se um refugiado.

Jesus cresceu em Nazaré, na Galileia. Seu lar deve ter sido longe de abastado, visto que quando foram apresentar o seu primogênito ao Senhor, José e Maria trouxeram como oferta um par de rolinhas, prescritas na lei para aqueles que não tinham condições financeiras de oferecer um cordeiro. Deve, porém, ter sido um lar feliz, compartilhado (com o passar dos anos) por outras crianças na família. José trabalhava como carpinteiro e ensinou o ofício a Jesus, enquanto Maria cultivava-o em devoção e justiça, ensinando-o a ler as Escrituras e a orar. Nos belos arredores ele teria se familiarizado com os lírios do campo e com as aves do céu, aos quais se referiria mais tarde, e com o Deus vivo que os vestia e alimentava.

O único incidente da infância de Jesus registrado nos Evangelhos tomou lugar quando ele completou doze anos de idade e foi levado a Jerusalém para a Páscoa, a fim de preparar-se para tornar-se, aos treze anos, um “filho do mandamento”. Depois do festival ele foi acidentalmente deixado para trás. Seus pais encontraram-no “assentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os”. Esses líderes judeus “admiravam da sua inteligência e das suas respostas”, e seus pais ficaram perplexos quando ele lhes perguntou: “Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai?” (Lc 2.49). Seu senso de comunhão com Deus como Pai e sua compulsão em fazer sua vontade permaneceriam com ele durante todo o seu ministério posterior.

Fora essa história, registrada em Lucas 2.41-51, os versículos que imediatamente a precedem e seguem dizem-nos tudo de que precisamos saber sobre a juventude de Jesus. Ambos são versículos-ponte, sendo que o versículo 40 abrange os doze anos desde seu nascimento e o versículo 52, os cerca de dezoito anos antes do início de seu ministério público. Ambos contam-nos que durante esses anos Jesus desenvolvia- se de forma natural, mas com perfeição, em corpo, mente e espírito.

“E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens.” (Lucas 2.52)

Trecho retirado de Para Entender a Bíblia. Editora Ultimato.

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