A justificação somente pela fé

É difícil para nós hoje compreender o pesado fardo de pecado e culpa sob o qual labutavam as pessoas da igreja medieval. Elas eram criadas para se concentrar na ira de Deus, no terror do julgamento e nas dores do purgatório e do inferno. Viviam no medo, empenhando-se para garantir o favor de Deus por meio de boas obras de justiça. Ora, esse era o ensino da igreja.

Quando jovem, Martinho Lutero não era exceção. Nascido em 1483, seu pai era ambicioso em relação a ele e o enviou à escola e à universidade. Mas ele estava o tempo todo dominado por uma profunda perturbação espiritual. Vendo um amigo cair morto atingido por um raio, ficou tomado pelo medo da morte e do julgamento. Assim, ele se lançou sem reservas ao serviço de Deus e entrou num mosteiro agostiniano, confiante de que ali certamente seria capaz de salvar a própria alma. Ele orava e jejuava e adotou outras austeridades extremas. “Eu era um bom monge”, escreveu mais tarde. “Se algum monge algum dia alcançasse o céu por sua vida monástica, seria eu”.1 Mas o regime ascético aumentava, não diminuía, seu tormento. Fazia suas confissões e penitências. Tomou os três votos de pobreza, castidade e obediência. Mergulhou nos estudos teológicos. Foi ordenado padre. Fez uma peregrinação a Roma e subiu de joelhos os vinte e oito degraus da Scala Santa. Mas foi tudo em vão. Lutero ficou desiludido com a igreja, convencido de que havia perdido as chaves do reino.

Em 1512, Lutero tornou-se professor de Bíblia na Universidade de Wittenberg. De início, suas dúvidas e temores persistiram. Estava decidido a satisfazer a Deus, mas não conseguia encontrar paz. “Quando procurava Cristo”, disse certa vez, “parecia que eu via o diabo”.2 Essa declaração espantosa revela a falsa imagem de Jesus Cristo que ele abrigava por causa da intensidade de seu conflito moral. Para ele, na época, Cristo era raivoso, não amigo; perigoso, não misericordioso; seu juiz, não salvador. Onde encontraria um Deus gracioso? Esse era seu clamor angustiado.

Então Lutero voltou-se para as Escrituras. Preparando-se para suas aulas na universidade, estudou os Salmos em 1513-15 e a Epístola aos Romanos em 1515-16. Ele ficou perturbado com a oração em Salmos 31.1, “livra-me pela tua justiça” e com a declaração em Romanos 1.17, que a justiça de Deus é revelada no evangelho. Se a justiça de Deus é seu julgamento, perguntava-se, como pode trazer salvação ou fazer parte do evangelho? Lutero lutava com essa questão porque ainda entendia que “a justiça de Deus” se expressava na punição dos injustos. Isso não soa como uma notícia boa!

Dia e noite eu refletia… até que percebi a verdade de que a justiça de Deus é aquela justiça com que, pela graça e pura misericórdia, ele nos justifica pela fé. Dali em diante senti-me renascido e senti ter passado por portas abertas para o paraíso. Toda a Escritura ganhou novo significado e enquanto antes “a justiça de Deus” me enchia de ódio, então tornou-se inefavelmente doce em maior amor. Essa passagem de Paulo tornou-se para mim um portão para o céu.3

Assim juntaram-se a teologia e a experiência de Lutero. Pelo evangelho depurado da justificação só pela graça, só em Cristo e só pela fé, Lutero descobriu a aceitação de Deus que vinha buscando desesperadamente havia anos. Ele não se tornou antinomiano, como entendem alguns críticos, declarando que as boas obras não importam, pois insistia que elas são o fruto da fé. Lutero também não era um inovador; pelo contrário, recuperou o evangelho apostólico original que a igreja havia perdido temporariamente. Ele escreveu no comentário sobre a Carta aos Gálatas: “Essa é a verdade do evangelho. É também o principal artigo de toda a doutrina cristã, aquilo em que consiste toda a piedade. É mais que necessário, portanto, conhecermos bem esse artigo, ensiná-lo aos outros e incuti-lo continuamente na cabeça deles”.4 É essa a doutrina, acrescentou, “que, de fato, marca os cristãos verdadeiros”,5 pois “se o artigo da justificação perder-se,  então se perde toda a doutrina cristã”.6

Em cada geração, pois, a igreja precisa recuperar a doutrina da justificação. Paulo a chamou “o evangelho da graça de Deus” (At 20.24; cf. Gl 1.6) e graça é o amor de Deus imerecido, não solicitado. Ele foi visto em seu mais pleno esplendor na cruz. Ele oferece salvação aos pecadores como uma dádiva inteiramente gratuita. Portanto, não deixa nenhum espaço para a vanglória humana. O evangelho da graça dá glórias a Jesus Cristo apenas – a Jesus Cristo, nosso Salvador gracioso.

Notas
1 – Citado em R. H. Bainton, Here I Stand (Hodder & Stoughton, 1951), p. 45.
2 – Citado em J. Atkinson, The Great Light: Luther and Reformation (Paternoster, 1968), p. 16.
3 – Essa foi a chamada “experiência da torre” de Lutero por ter ocorrido na torre do Claustro Negro de Wittenberg. Seu relato a esse respeito apareceu primeiro na introdução à edição em latim de suas Obras (1545).
4 – Martinho Lutero, Commentary on the Epistle to the Galatians (1535; James Clarke, 1953), p. 10.
5 – Ibid., p. 143.
6 – Ibid., p. 26.
Trecho extraído do livro O incomparável Cristo.

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