Ao falar sobre o serviço dos cristãos a Cristo e ao próximo, John Stott lembra que há diferentes tipos de ministério, conforme o dom e a vocação de cada servo. Cada um pode servir com suas orações, dons, interesses e capacidades, encorajando ou engajando-se em alguma atividade e respondendo à chamada de Deus para nos especializarmos de acordo com nossa vocação, conforme os dons, os interesses e oportunidades.

Além dos diferentes dons, há diferentes esferas do ministério cristão, começando do nosso “centro” pessoal (lar e trabalho), passando pela igreja e vizinhança, até atingir o mundo todo. A respeito do ministério cristão em nosso trabalho ele diz:

O local de trabalho é a segunda esfera na qual somos chamados a servir, a exercitar um ministério cristão. Há cristãos que entendem isso apenas em termos de evangelização – acham que o seu emprego é primordialmente uma oportunidade para testemunhar aos seus colegas ou companheiros de trabalho. Isso é verdade, principalmente se eles forem os únicos cristãos ali, e especialmente se o seu testemunho se refletir acima de tudo na qualidade de seu trabalho. Mas o nosso trabalho diário tem o seu próprio valor como forma de ministério cristão, totalmente independente da questão evangelística. Nós precisamos de uma filosofia cristã de trabalho.

O lugar certo para começar é em Gênesis 1, onde vemos Deus como um trabalhador atencioso, criativo, diligente e responsável. Depois de criar o mundo, ele continuou supervisando, sustentando e renovando-o. Então, ao criar os seres humanos à sua própria imagem, ele os fez igualmente trabalhadores criativos. Lembrar que ao trabalhar estamos sendo como Deus acrescenta honra e dignidade ao nosso labor. O nosso trabalho ganha ainda mais importância porque nos permite beneficiar a outros, tanto porque ao ganhar nosso salário podemos sustentar nossa família e ajudar os necessitados, quanto porque o produto de nosso trabalho contribui para o bem comum.

Existe, no entanto, uma visão ainda mais nobre de trabalho. Deus quer que o vejamos como uma forma de cuidarmos do que é dele por ordem dele, e até mesmo em parceria com ele, papel para o qual ele nos designou. Ele fez a terra e então disse aos seres humanos que a sujeitassem e dominassem (Gênesis 1.26-28). Ele plantou um jardim e então colocou Adão ali para o cultivar e cuidar (Gênesis 2.8, 15). Quer a tarefa seja global (a terra) ou local (o jardim do Éden), o princípio de mordomia era o mesmo. Deus repassou para administradores humanos a responsabilidade de proteger o meio ambiente e desenvolver seus recursos. Portanto, é mais do que o papel de mordomos, em que Deus é o senhor da terra e nós gerenciamos sua propriedade; é uma parceria genuína na qual Deus deliberadamente se humilha e pede a nossa colaboração. Ele cria; nós cultivamos. Ele planta; nós desenvolvemos. O que ele dá se chama “natureza”; a nossa contribuição chama-se “cultivo”. O cultivo é impossível sem a natureza, já que não teríamos nada a cultivar se Deus não tivesse dado. Mas a natureza, por sua vez, tem valor limitado sem o cultivo, já que Deus nos deu a matéria-prima e deixou para nós a tarefa de convertê-la em bens.

Cada trabalho honrado, quer seja manual ou mental, ou os dois, quer seja assalariado ou voluntário, por mais simples e humilde que seja, deve ser visto pelo cristão como uma espécie de cooperação com Deus, na qual nós participamos com ele na transformação do mundo que ele fez e submeteu aos nossos cuidados. Isto se aplica na mesma proporção a quem trabalha na indústria e no comércio, em repartições públicas e em qualquer profissão, assim como a donas de casa e mães de família. O grande mal do desemprego é que ele nega esse privilégio a algumas pessoas. Agora, de que forma vamos exercer a nossa parceria com Deus – em termos seculares, que carreira vamos seguir, que empregos vamos assumir – dependerá mais do que tudo do nosso temperamento e talentos, da educação e capacitação que recebemos. Todo cristão deveria dar tudo de si com a maior satisfação no serviço de Deus, de modo que tudo o que somos e tudo o que temos nos traga realização, e não frustração.

Trecho extraído do livro Como Ser Cristão.

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