JS_03_05_13_CactoMeus leitores provavelmente nem suspeitam que eu seja uma pessoa emotiva. Pois é. Eu sou um daqueles cavalheiros ingleses frios e distantes, descendente de nórdicos durões e de rudes anglo-saxões, sem nenhum traço de calor celta ou latino em meu sangue. Com tal ascendência, já era de se esperar que eu fosse um sujeito tímido, reservado e de nariz empinado. Além disso, fui educado em uma escola inglesa muito elitizada cuja filosofia era “aguenta firme”. Isto é, já que uma tremidinha no lábio superior é o primeiro sinal visível de emoção, a tradição era endurecê-lo. Ensinaram-me as virtudes dignas de um homem – coragem, força e autodisciplina – e me advertiram que, sempre que por algum acaso eu sentisse alguma emoção, nunca deveria deixar transparecer. Chorar era estritamente para mulheres e apenas para crianças, nunca para homens.

Mas aí eu fui apresentado a Jesus Cristo. Para minha surpresa, descobri que Deus, cuja “impassibilidade”, segundo eu pensava, significava que ele era incapaz de qualquer emoção, fala (se bem que em termos humanos) de sua ira ardente e do seu amor vulnerável (por exemplo, Os 11.8-9). Descobri também que Jesus de Nazaré, o perfeito ser humano, não era um “machão durão”, um asceta sem emoções. Pelo contrário, li que ele expulsou os hipócritas com raiva, que ele olhou para um jovem líder rico e o amou, que tanto podia regozijar-se em espírito como suar gotas de sangue em agonia espiritual, vivia se compadecendo das pessoas e até rompeu em lágrimas duas vezes em público.

Com todas estas evidências, é óbvio que nossas emoções não são para serem reprimidas, já que elas têm um lugar essencial em nossa natureza humana e, portanto, em nosso discipulado cristão.

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John Stott. Trecho de “Mente e Emoções” (capítulo 7 do livro “Ouça o Espírito, Ouça o Mundo”, p. 134-135). ABU Editora. 2005.