Em 2012 Crer é Também Pensar completou 40 anos desde a sua publicação na Inglaterra. Para celebrar esta data a Editora ABU, com o apoio da Editora Ultimato, lançaram uma edição comemorativa, com nova tradução a partir da edição norte-americana de 2006, nova capa e formato e de acordo com a nova norma ortográfica da Língua Portuguesa.

Em meio a uma sociedade e igrejas saturadas pelo emocionalismo e pela autoajuda, Crer É Também Pensar mostra, à luz das Escrituras, como relacionar a adoração, a evangelização, o serviço — enfim, a vida cristã — com a capacidade de pensar. Apresentamos os prefácios escritos pelos editores à primeira edição do livro e por Ziel Machado à edição brasileira. Boa leitura!

Prefácio à primeira edição

Ninguem deseja um cristianismo intelectual, frio e apático. No entanto, será que isso significa que devemos evidar o “intelectualismo” a todo custo? Será que o que realmente importa é a experiência e não a doutrina? Muitos estudantes, ao fecharem os livros, fecham também as mentes, convencidos de que o intelecto deve desempenhar uma pequena função na vida cristã – se é que desempenha alguma. Até onde eles estão certos? Para o cristão inspirado pelo Espirito, qual é extamente o lugar do intelecto?
Essas são questões de vital importâcnia prática. Elas afetam todos os aspectos da nossa fé. Até que ponto, por exemplo, devemos apelar para a razão das pessoa ao apresentarmos o evangelho? Será que a “fé” envolve algo completamente irracional? Será que o senso comum tem alguma função na orientação cristã?
Foi pensando nessas e em outras questões que o reverendo John Stott apresentou o discurso presiedencial sobre o lugar do intelecto na vida cristã, na Conferência Anual da Inter-Varsity, em 1972. Este livro traz o conteúdo completo deste discurso. Ele explica por que o uso da mente é tão importante para o cristão e como esse uso se aplica aos aspectos práticos da vida cristão. Ele faz um apelo para que os cristãos demostrem um “devoção fervorosa pela verdade”.

 

Prefácio à edição brasileira

Por Ziel J. Machado

“Você tem certeza? Isso não vai colocar em risco a sua fé? A universidade não é algo muito perigoso par  a um cristão sincero?”; “Se você conseguiu entrar nessa universidade é porque você é inteligente, mais como pode uma pessoa que pensa crer nessas histórias da Bìblia?”; “Você precisa pensa menos e crer mais!”; “Tenho certeza que, quando você começar a pensar de maneira seria, aos poucos vai abandonar essas crendices primitivas sobre Deus, Jesus e a Bíblia! “Frases como estas me foram ditas em um curto período de tempo, colocando-me numa experência de “fogo cruzado”. De um lado, amigos da igreja preocupados com a minha possivel perda da fé por ter entrado na universidade; de outro, os meus novos colegas de curso, surpresos por verem um cristão num ambiente onde imperava uma forma materialista-dialética de ver a vida e tudo mais.
Diante de tantas surpresas, passei a me questionar se minha fé em Jesus Cristo e na Bíblia, como Palavra de Deus, implicava um suicídio intelectual. Ampliei estes questionamentos me perguntando se a maneira cristã de ver a vida teria alguma contribuição para a sociedade em geral. Busquei na memória aquilo que havia aprendido da história do povo de Deus, desde os tempos do Antigo Testamento, passando pela caminhada de Jesus na Palestina, o surgimento da Igreja, chegando até as histórias das missões modernas. Esta visão panorâmica me ajudou a ver que a integração entre o crer e o pensar sempre fora fonte de permanente tensão para os cristãos, tanto em relação a Deus como em relação ao seu entorno social. Foi assim no passado e é assim em nossos dias.
Foi uma tremenda descoberta quando vi a primeira edição de Crer é Tambem Pensar. Não podia imaginar o impacto que este livro viria a produzir em mim. Eu li de forma ávida, repetidas vezes, até quase memorizá-lo. Meu exemplar, da primeira edição, se esfarelou em minhas mãoes devido ao uso contínuo. As páginas ficaram multicoloridas porque, a cada leitura, eu marcava as frases com cores diferentes. Nas margens acabei “escrevendo outro livro” com as minhas observações e ideias de aplicações possíveis da mengaem de John Stott. Não seria exagero dizer que devorei o livro! Tempos depois tive a oportunidade de compartilhar com “tio John” – como aprendemos a chamá-lo, de forma carinhos, no contexto do ministerio estudantil – o impacto do livro na minha vida e na vida de muitos outros estudantes que, ao longo de mais de trinta anos, tive oportunidade de discipular. Crer é Tambem Pensar era nosso guia nos primeiros passos para a formação de uma mente cristã.
Como disse anteriormente, entender que a fé não dispensa o uso da mente foi um desafio no passado e continua sendo em nosso dias. Isso se aplica a nossa relação com Deus, assim como a nossa relação com a sociedade. É de vital importância perguntar a uma igreja que segue em um ritmo acelerado de crecimento numérico o que significa este processo. Qual a contribuição de tal crescimento para a missão da igreja, seja em relação a sua proclamação, seja em relação a sua presença social? Algumas formas de misticismo têm crescido no meio da igreja, introduzindo novas formas mais sutis de idolatria, produzindo um esvaziamento da dimensão ética da fé, que é substituida por rituais mágicos para lidar com a realidade. Os que antes eram conhecidos como o podo do Livro agora se veem numa postura que confunde livre acesso à Escritura com livre interpretação da Escritura.
Nessa confusão não se faz justiça ao texto, nem ao contexto, muito menos ao chamado para uma fé que pensa e uma razão que crê. O resultado é uma elaboração de pretextos apresentados no tradicional esquema dos três pontos com uma pequena variação: agora se lê o texto, se esquece do texto e nunca mais se retorna ao texto. Temos o desafio de outras formas de leitura, que colocam o texto sob suspeira, mas não suspeitam de quem suspeita. Outros ainda pretendem exercer sobre o texto bíblico um controle tal, que se esquecem de que o maior desafio não é ler as Escrituras, mas ser lido por elas.
Deve ficar claro que a expressão “crer é também pensar” não sugere a possibilidade de uma fórmula capaz de tornar o evangelho palatável a uma geração que, encantada com a inteligência dos cristãos, vejam reduzidas a dimensão de loucura e de escândalo da mensagem da cruz de Jesus Cristo. Fazer isso seria adulterar o evangelho para torná-lo quase inofensivo, uma muleta que se preste a ser suporte para o status quo vigente, uma ideologia a serviço de interesse outros, contrários aos valores  e esperanças do reino de Deus, conforme anunciado por Jesus Cristo.
Não se trata de exaltar a mente em detrimento da fé, mais de torná-la discípula de Cristo, pois só assim entederemos o que é um verdadeiro culto a Deus, com todo o nosso ser. Só assim será possivel discernir a vontade de Deus, reconhecer a voz do bom pastor, compreender o real significado de uma vida de santidade e fazer um anúncio fiel ao evangelho, poder de Deus para salvação de todo aquele que nele crê.
Minha oração e esperança é que as novas gerações possam ser impactadas de forma tão intensa como a minha geração o foi. Que encontrem nas palavras deste livro um guia, um caminho, uma inspiração para manter em harmonia aquilo que Deus nunca colocou em oposição. Afinal, o que Deus uniu – fé e razão – não separe o ser humano!

 

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