O amor pelas crianças e a preocupação pelo bem-estar deles são elementos tão essenciais da cultura cristã, que acabamos achando-os naturais. Mas nem sempre foi assim. O sacrifício de crianças, por exemplo, ocorria em várias religiões pagãs e sua prática pelos amonitas para apaziguar o deus Milcom ou Moloque provocava fúria e horror nos profetas do Antigo Testamento.

Ao que parece, no mundo antigo não havia reprovação nem legal nem ética do aborto ou do infanticídio. Os pais tinham plenos direitos de sentenciar vida ou morte aos próprios filhos.1 Por exemplo, encontrou-se entre os papiros Oxyrhynchus a carta de um homem chamado Hilário à esposa grávida, Alis: “Se for menino, deixe-o viver; se for menina, abendone-a”.2

É verdade que o Juramento de Hipócrates, feito pelos médicos, incluía a declaração: “não darei a nenhuma mulher substância abortiva”. Grande parte do juramento talvez não tenha sido escrito por Hipócrates (460-377 a.C.), “o pai da medicina”, mas por seus discípulos. Ainda assim, conforme escreveu W. H. S. Jones, “é muito difícil acreditar que o núcleo, pelo me­nos, do Juramento não remonte ao ‘grande’ Hipócrates em pessoa”.3 Mas essa parte do juramento costumava ser quebrada, já que nas sociedades permissivas da Grécia e de Roma a destruição ou abandono de crianças indesejadas tornaram-se práticas normais. Por outro lado, os cristãos opunham-se a isso com argumentos teológicos e morais. Por exemplo, Tertuliano, em Apologia, acusa os romanos de infanticídio e depois prossegue:

No nosso caso, já que o homicídio é proibido de uma vez por todas, não podemos destruir nem mesmo o feto no ventre, ainda que o ser humano receba o sangue de outras partes do corpo para manter-se. Impedir um nascimento é apenas um homicídio mais rápido; tam­bém não importa se o que se toma é uma vida já nascida ou se o que se destrói é uma vida por nascer. É um homem (i.é. um ser humano) que virá a ser; o fruto já está na semente.4

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Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne (Gn 2.24).

O casamento tem sofrido tantas ameaças no mundo ocidental de hoje que é bom relembrarmos sua base bíblica. Em Gênesis 2.24 encontramos a definição bíblica para casamento; ela é ainda mais importante porque foi endossada pelo Senhor Jesus Cristo (cf. Mc 10.7). Este é um relacionamento com cinco características especiais:

  1. Heterossexual. O casamento é a união entre um homem e uma mulher. Uma parceria homossexual jamais poderá ser vista como uma alternativa legítima.
  2. Monogâmico. “Um homem” e “uma mulher”, ambos no singular. A poligamia pode ter sido tolerada por algum tempo, na época do Antigo Testamento, mas a monogamia sempre foi o propósito de Deus, desde o princípio.
  3. Compromisso. Quando um homem deixa a casa de seus pais para se casar, ele deve “unir-se” à sua mulher, juntar-se a ela como cola (como sugere o texto equivalente no Novo Testamento). O divórcio deve ser permitido apenas em uma ou duas situações definidas. “Mas não foi assim desde o princípio”, Jesus insistiu (Mt 19.8). Além disso, o que se perde com o divórcio é precisamente o compromisso, que é fundamental para o casamento.
  4. Público. Antes de partir para o casamento é preciso “deixar” os pais, e esse “deixar” indica que esta é uma ocasião social pública. A família, os amigos e a sociedade têm o direito de saber o que está acontecendo.
  5. Físico. “Eles se tornarão uma só carne”. Se por um lado, o casamento heterossexual é o único contexto dado por Deus para a união sexual e a procriação, por outro, a união sexual é um elemento tão importante no casamento que a sua não consumação deliberada é, em muitas sociedades, motivo para a sua anulação. Adão e Eva certamente não experimentaram nenhum constrangimento com relação ao sexo. “O homem e sua mulher viviam nus, e não sentiam vergonha” (Gn 2.25).

Assim, o casamento de acordo com o propósito de Deus quando de sua instituição é uma união heterossexual e monogâmica que envolve um compromisso amoroso mútuo, por toda a vida; deve ser firmado depois do deixar público dos pais e consumado na união sexual.

Leitura recomendada: Efésios 5.21-33

 

Texto originalmente publicado em A Bíblia Toda o Ano Todo.

Nascido em 27 de abril, John Stott completaria 96 anos hoje. Pelos relatos a respeito de sua vida e por sua obra é possível imaginar que se estivesse vivo, ainda dedicaria tempo para contemplar a natureza – e os passarinhos, em especial – orar, divertir-se e ser atencioso com quem quer que fosse.

No texto a seguir, John W. Yates, um dos assistentes de John Stott, relata como o notável pastor e escritor encarava cada novo dia.

 

Naquela primeira manhã, ao entrar no quarto de John Stott (meu escritório durante as horas do dia), eu encontrei um manuscrito de dez páginas escrito por ele próprio sobre minha mesa, junto a uma nota: “Isto é uma entrevista sobre um livro escrito para pessoas solteiras nos seus 20 anos. Você poderia dar um parecer a respeito do que eu disse, e sugerir quaisquer mudanças que a tornem mais interessante ou relevante?” Não que os pensamentos deste jovem de 21 anos fossem de algum valor, ainda assim, eu li cuidadosamente o manuscrito e listei várias sugestões de acréscimos, exclusões e modificações.

Na manhã seguinte, lá estavam novamente o manuscrito e uma nota em minha mesa: “O que você acha agora?” A entrevista tinha sido reescrita — e cada uma das sugestões aplicada. O britânico mundialmente renomado, escritor e professor de 75 anos, tinha consentido com cada parte de um conselho dado por um recém graduado em seu primeiro dia de trabalho.

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