Parece legítimo considerar que, juntas, as sete igrejas da província da Ásia (Apocalipse 2 e 3) representam a igreja universal. E já que um aspecto específico é destacado em cada igreja, talvez possamos entender essas sete características como as marcas de uma igreja ideal.

Amor. Essa é a primeira marca de uma igreja ideal. A igreja em Éfeso possuía muitas qualidades. Cristo conhecia seu trabalho árduo e perseverança, sua intolerância ao mal e seu discernimento teológico. Alguns anos mais tarde, no início do segundo século, o Bispo Inácio de Antioquia, a caminho de Roma para ser executado como cristão, escreveu aos efésios em termos muito elogiosos: “Vós todos viveis de acordo com a verdade e nenhuma heresia tem abrigo entre vós; aliás não vos prestais a ouvir ninguém que fale outra coisa senão acerca de Jesus Cristo e sua verdade”.1

Ainda assim, Jesus tinha algo contra a igreja efésia: “você abandonou o seu primeiro amor” (2.4). Todas as virtudes dos efésios não compensavam aquela falha. Não há dúvida de que na época da conversão o amor deles por Cristo havia sido ardente e vivo, mas agora as chamas haviam definha­do. Lembramos da reclamação de Javé a Jeremias acerca de Jerusalém: “Eu me lembro de sua fidelidade quando você era jovem: como noiva, você me amava…” (Jr 2.2). Como em Jerusalém, assim também com Éfeso: o noivo celestial procurava cortejar a noiva para que ela voltasse ao primeiro êxtase de seu amor: “Lembre-se de onde caiu! Arrependa-se e pratique as obras que praticava no princípio” (2.5). Sem amor, tudo é nada.

 

Sofrimento. Se a primeira marca de uma igreja viva é o amor, a segunda é o sofrimento. A disposição de sofrer por Cristo prova a genuinidade de nosso amor por ele.

Cristo conhecia as aflições, a pobreza e injúria que a igreja de Esmirna estava tendo de enfrentar. Talvez esses sofrimentos estivessem associados com o culto local ao imperador, pois Esmirna orgulhava-se de seu templo em homenagem ao Imperador Tibério. De tempos em tempos, os cidadãos eram convocados para jogar incenso no fogo que queimava diante do busto do Imperador e confessar que César era o senhor. Mas como os cristãos poderiam negar o senhorio de Jesus Cristo? Em 156 d.C., o venerável Policarpo era Bispo de Esmirna. Ele enfrentou esse mesmo di­lema. No anfiteatro lotado, o procônsul instou-o a reverenciar o gênio de César e insultar Cristo, mas Policarpo recusou-se, dizendo: “Por oitenta e seis anos o tenho servido, e ele nenhum dano me causou; como então poderia eu blasfemar meu rei que me salvou?” Ele preferiu ser queimado numa estaca a negar a Cristo.2

Mais de um século antes daquilo, Cristo já havia alertado a igreja de Esmirna de que provações severas estavam chegando, inclusive prisão e talvez morte. “Seja fiel até a morte”, disse-lhes Jesus, “e eu lhe darei a coroa da vida” (2.10).

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Um cristianismo que perdeu sua dimensão perdeu o sal e, não somente é insípido em si mesmo, mas inútil para o mundo

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Que tal ler o livro A Missão Cristã no Mundo Moderno, de John Stott, em apenas 5 minutos? A jornalista, missionária e leitora Tábata Mori topou o desafio e selecionou os trechos que mais sintetizam o conteúdo da publicação. Confira.

 

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A Missão Cristã no Mundo Moderno

A palavra missão não pode ser usada apropriadamente para cobrir tudo o que Deus está fazendo no mundo. No que diz respeito à providência e à graça comum, ele realmente está ativo em todos os homens e em todas as sociedades, quer eles reconheçam isso ou não. Mas esta não é sua ‘missão’. ‘Missão’ diz respeito ao seu povo redimido e o que Deus o manda fazer no mundo.
(p.22)

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Um cristianismo que perdeu sua dimensão perdeu o sal e, não somente é insípido em si mesmo, mas inútil para o mundo.
(The Uppsalla 68 Report. WCC, Genebra, 1968. P. 317-318. Editado por Norman Goodall, in Stott, p. 24)

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Quando qualquer comunidade se deteriora, a falha deve ser atribuída a quem de direito: não à comunidade que está indo mal, mas à igreja que está falhando em sua responsabilidade de, como sal, pôr fim à deterioração. E o sal só será efetivo se permear a sociedade, se os cristãos se atentarem novamente para a vasta diversidade dos chamados divinos, e se muitos penetrarem profundamente na sociedade secular para lá servir a Cristo.
(p. 37)

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Disse-lhe Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim, não morrerá eternamente. Você crê nisso?” (João 11:25-26)

A morte inspira terror em muitas pessoas. O intenso conflito interno de Woody Allen com a morte é bem conhecido. Ele a vê como uma aniquilação do ser e a considera “absolutamente espantadora em seu terror”. “Não que eu tenha medo de morrer”, graceja ele, “apenas não quero estar lá quando acontecer”.1

Outro exemplo é dado pelo americano Ronald Dworkin, o filósofo de direito que tem ocupado cadeiras nas universidades de Londres, Oxford e Nova York. Ele escreveu:

O mais horrível na morte é o esquecimento — a terrível e absoluta morte da luz […]. A morte domina porque não é apenas o começo do nada, mas o fim de tudo.2

Porém, para os cristãos, a morte não é horrível. É verdade que o processo da morte pode ser confuso e humilhante, e a decadência procedente não é agradável. Na verdade, a própria Bíblia reconhece isso ao chamar a morte de “o último inimigo a ser destruído” (1Co 15.26). Ao mesmo tempo, afirmamos que “Cristo Jesus […] destruiu a morte” (2Tm 1.10). Ele a conquistou pessoalmente por sua ressurreição, de tal forma que ela não tem mais autoridade sobre nós. Consequentemente, podemos gritar, em desafio: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Co 15.55).

A derrota da morte é uma coisa; o dom da vida é outra. Contudo, por causa da dificuldade em se definir a vida eterna, os escritores do Novo Testamento tendem a utilizar o recurso da figura de linguagem. O apóstolo João, por exemplo, descreve o povo de Deus tendo seus nomes inscritos no livro da vida (Ap 3.5; 21.27), gozando de acesso contínuo à árvore da vida (Ap 2.7; 22.2), e bebendo livremente da água da vida (Ap 7.17; 21.6; 22.1, 17).

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Mas temos esse tesouro em vasos de barro, para mostrar que este poder que a tudo excede provém de Deus, e não de nós. (2 Coríntios 4.7)

Um dos temas predominantes nas cartas aos coríntios se refere ao poder através da fraqueza; há oito expressões diferentes sobre esse tema nas duas cartas.

A sede de poder tem sido uma característica da história humana desde que foi oferecida a Adão e Eva a possibilidade de receber poder em troca da desobediência a Deus. Até hoje, por trás da busca por dinheiro, fama e influência, está o anseio pelo poder. A busca pelo poder está presente na política e na vida pública, nos grandes negócios e na indústria, nas diferentes profissões e na mídia, e até mesmo na igreja e nas organizações para-eclesiásticas. O poder é mais tóxico que o álcool e vicia mais que as drogas. Foi Lord Acton, político britânico do século 19, que compôs a epigrama: “O poder corrompe; o poder absoluto corrompe absolutamente”. Ele foi um católico que em 1870 se opôs veementemente à decisão do Concílio Vaticano I de atribuir infalibilidade ao papa, pois percebeu que com essa decisão a igreja seria corrompida pelo poder.

A Bíblia contém claras advertências sobre uso e abuso de poder. Paulo insistiu no tema do poder através da fraqueza, do poder divino através da fraqueza humana. Nos capítulos iniciais de 1 Coríntios, ele apresenta três exemplos admiráveis desse mesmo princípio.

Nós encontramos esse princípio primeiramente no próprio evangelho, pois a fraqueza da cruz é o poder salvador de Deus (1Co 1.17-25). Em segundo lugar, o poder através da fraqueza é visto nos coríntios convertidos, pois Deus escolheu pessoas fracas para envergonhar as fortes (1Co 1.26-31). Terceiro, o poder através da fraqueza pode ser visto na vida de Paulo, o evangelista, uma vez que ele tinha ido a Corinto “com fraqueza, temor e com muito tremor”, mas também com “demonstração do poder do Espírito” (1Co 2.1-5).

Assim, as boas novas, os convertidos e o pregador (ou o evangelho, os evangelizados e o evangelista) exibiram o mesmo princípio de que o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza humana, pois Deus escolheu um instrumento fraco (Paulo) para levar uma mensagem fraca (a cruz) a um povo fraco (os socialmente desprezados). Mas, através dessa tripla fraqueza, o poder de Deus foi — e ainda é — revelado.

Texto originalmente publicado no livro A Bíblia Toda, o Ano Todo.

Jesus ia crescendo em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens. (Lucas 2.52)

A descrição vívida do episódio da perda e do encontro do menino Jesus no recinto do templo é, como observamos, o único incidente público que Lucas registra entre o nascimento de Jesus e o seu batismo. É verdade que os evangelhos apócrifos tentam preencher esse hiato. Eles, no entanto, são todos posteriores, datados do segundo século e, portanto, de valor histórico questionável. São ou heréticos ou insignificantes em seu conteúdo, com uma ou duas exceções. A narrativa sóbria de Lucas é um grato contraste.

Assim, o que teria feito Jesus durante trinta anos antes que seu ministério público tivesse início? Resposta: ele estava crescendo, ou se desenvolvendo, e assim se preparando para a sua missão. Lucas nos diz isso em dois versículos “pontes” do capítulo 2:

O menino crescia e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele (v. 40).
Jesus ia crescendo em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens (v. 52).

O versículo 40 é uma ponte de doze anos, uma vez que, no versículo precedente (v. 39), Jesus ainda era um bebê, e, no versículo seguinte (v. 41), ele tinha doze anos. O versículo 52 então é uma ponte de dezoito anos, já que, no versículo antecedente (v. 51), ele ainda tinha doze anos, e, no versículo seguinte (3.1), ele tem trinta.

Dessa forma, durante os dois períodos de transição, dos doze e dos dezoito anos, ele cresceu física, mental e espiritualmente. Seu corpo se desenvolveu de modo natural. Sua mente se expandiu enquanto ele aprendia suas lições em casa e na escola. E ele também cresceu em graça, tornando-se ainda mais agradável a Deus e ao seu próximo.

Algumas pessoas levantam uma objeção aqui. Se Jesus cresceu nessas áreas, dizem elas, isso não significaria inevitavelmente que antes ele era imperfeito? Não. Estamos afirmando, não que Jesus tivesse saltado direto da infância para a fase adulta, mas que cresceu e que a cada estágio foi perfeito para aquele estágio. Por exemplo, dizer que ele cresceu em favor para com Deus não significa que antes estivesse fora desse favor, mas que, a cada estágio, ele agradou a Deus de acordo com a sua idade. Insistir nesse crescimento é garantir a autêntica humanidade de Jesus.

Para saber mais: Hebreus 2.14-18

Texto originalmente publicado no devocionário A Bíblia Toda a Ano Todo.