Todos os direitos humanos são, basicamente, o direito de ser humano, e assim desfrutar a dignidade de ter sido criado à imagem de Deus e de possuir, em consequência, relacionamentos sem paralelo com o próprio Deus, com os outros seres humanos e com o mundo material.

A dignidade dos seres humanos é afirmada em três sentenças sucessivas em Gênesis 1.27-28. Em primeiro lugar, “criou Deus o homem à sua [própria] imagem”. Em segundo, “homem e mulher os criou”. Em terceiro lugar, “Deus os abençoou, e lhes disse: Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e  subjuguem a terra!”. A dignidade humana é vista aqui como consistindo de três relacionamentos singulares que Deus estabeleceu para nós pela criação, os quais, juntos, constituem grande parte da nossa humanidade e que foram distorcidos pela Queda, mas não destruídos.

O primeiro é o nosso relacionamento com Deus. Os seres humanos são seres semelhantes a Deus, criados pela vontade de Deus à sua imagem. A imagem divina inclui aquelas qualidades racionais, morais e espirituais que expressam algo de quem Deus é. Em consequência, podemos aprender a seu respeito com os evangelistas ou professores (ouvir o evangelho é um direito humano básico); vir a conhecê-lo, amá-lo e servi-lo; viver em consciente e humilde dependência dele; compreender a sua vontade e obedecer aos seus mandamentos. Assim, então, todos aqueles direitos humanos que nós chamamos de liberdade para professar, praticar e propagar a religião, a liberdade de cultuar, de consciência, de pensamento e de expressão, vêm sob essa primeira classificação do nosso relacionamento com Deus. É surpreendente que até mesmo os líderes deístas das revoluções norte-americana e francesa sabiam disso instintivamente. Como vimos anteriormente, a Declaração Americana de Independência (1776) proclamou notadamente: “Consideramos que essas verdades são autoevidentes: que todos os homens são criados iguais, que eles são dotados, pelo seu Criador, com certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade”.1

A segunda capacidade singular dos seres humanos diz respeito aos nossos relacionamentos mútuos. O Deus que fez a raça humana é, ele mesmo, um ser social, um Deus que consiste de três modos de personalidade eternamente distintos. Ele disse: “Façamos o homem à nossa imagem”, e “Não é bom que o homem esteja só”. Assim, Deus fez o homem e a mulher e disse a eles que procriassem. A sexualidade é criação dele; o casamento, a sua instituição, e o companheirismo humano, seu propósito. Desse modo, então, todas aquelas liberdades humanas que chamamos santidade do sexo, do casamento e da família, o direito de reunião pacífica e o direito de receber respeito, seja qual for nossa idade, sexo, raça ou posição, ficam sob essa segunda classificação do nosso relacionamento mútuo.

Nossa terceira qualidade distintiva como seres humanos é o nosso relacionamento com a terra e com suas criaturas. Deus nos deu o domínio, com instruções para subjugar e cultivar a frutífera terra e dominar suas criaturas. Assim então, todos aqueles direitos humanos que denominamos direito ao trabalho e direito ao descanso, o direito de compartilhar dos recursos da terra, o direito ao alimento, vestuário e abrigo, o direito à vida, à saúde e à sua preservação, juntamente com a libertação da pobreza, da fome e das doenças, vêm sob essa terceira classificação do nosso relacionamento com a terra.

Apesar da simplificação exagerada, podemos resumir o que significa dignidade humana destas três maneiras: nosso relacionamento com Deus (ou o direito e a responsabilidade de adorá-lo), nosso relacionamento mútuo (ou o direito e a responsabilidade de sermos solidários) e nosso relacionamento com a terra (ou o direito e a responsabilidade de administrá-la) – juntamente, é claro, com a oportunidade que a nossa educação, nossa renda e nossa saúde nos fornecem para desenvolver esse potencial humano singular.

Assim, todos os direitos humanos são, basicamente, o direito de ser humano, e assim desfrutar a dignidade de ter sido criado à imagem de Deus e de possuir, em consequência, relacionamentos sem paralelo com o próprio Deus, com os outros seres humanos e com o mundo material.

Nota
1. www.constitution.org/usdeclar.htm
Trecho extraído do livro Os Cristãos e os Desafios Contemporâneos. Editora Ultimato.

Vemos, nos Evangelhos, a distância que separava Jesus dos fariseus. Estes evitavam o contato com todos os excluídos. Aquele, no entanto, os acolhia como amigos; Jesus tocava os intocáveis.

“Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas!”.

Por que isso? Qual era a causa desse desacordo entre eles? A resposta é simples: a maior preocupação dos fariseus era com eles mesmos e com um modo de manter sua própria pureza, enquanto a prioridade de Jesus Cristo eram os outros – como “buscar e salvar o que estava perdido”.1

A fim de explicar e defender o que fez, Jesus recorreu a uma série de imagens ou parábolas marcantes.

Para começar, ele se comparou a um médico que se dedica ao cuidado de doentes e, portanto, assume o risco de se contagiar. Foi assim que ele respondeu à pergunta indignada dos fariseus sobre o motivo de comer com publicanos e pecadores: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim para chamar justos, mas pecadores”.2

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Christina Balit

“Quando o Senhor passar pela terra para matar os egípcios,verá o sangue na viga superior e nas laterais da porta e passará sobre aquela porta”. (Êxodo 12.23)

Deus deu instruções claras sobre a décima e última praga. Por volta da meia-noite ele atravessaria o Egito exercendo juízo, e todos os primogênitos de todas as classes sociais morreriam.

Os israelitas, porém, seriam poupados. Para isso, cada família deveria sacrificar um cordeiro de um ano, sem defeito. O sangue do cordeiro deveria ser passado na viga superior e nas laterais das portas de suas casas, e ninguém poderia sair de casa até o amanhecer. Naquela noite Deus passaria pelo Egito, mas ao vir o sangue, passaria por cima daquela casa, protegendo-a. A festa da páscoa marcaria o começo do calendário anual dos israelitas e deveria ser celebrada anualmente.

Para os cristãos, Jesus Cristo é “o Cordeiro de Deus”, acerca de quem podemos afirmar: “Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi sacrificado. Por isso, celebremos a festa” (1Co 5.7-8). Podemos aprender muitas verdades com essa história. A primeira é que o Deus que julga é também o Deus que salva.

O Deus que atravessou o Egito para julgar os primogênitos é o mesmo Deus que passou por sobre as casas dos israelitas, protegendo-os da morte. Não podemos caracterizar o Pai como Juiz e o Filho como Salvador. É o mesmo e único Deus que nos salva do juízo através de Jesus Cristo.

A segunda verdade é que a salvação foi (e é) por substituição. Os únicos primogênitos poupados foram aqueles em cujas casas um cordeiro primogênito havia sido sacrificado. Terceira, o sangue do cordeiro deveria ser aspergido depois de derramado. Cada família deveria se apropriar individualmente da provisão divina. Para que a família fosse salva Deus precisaria antes ver o sangue.

A quarta verdade é que todas as famílias resgatadas passaram a pertencer a Deus. Suas vidas agora pertenciam a ele, da mesma forma que nossas vidas pertencem ao Senhor. E a consagração leva à celebração. A vida do povo redimido de Deus é uma festa contínua, expressa ritualmente na Eucaristia, a festa cristã de ação de graças.

Para saber mais: Apocalipse 5.6-14

Nota: texto retirado do livro A Bíblia Toda, O Ano Todo, de John Stott.