Por Amanda Almeida

Quando Jesus resume a lei de Deus, sua compilação é amar a Deus com todo o nosso ser e ao próximo como a nós mesmos. Não é uma questão de só deixar de fazer algo. Amar é uma ação positiva – que aí sim implicará em renúncias e outras negativas.

Os Dez Mandamentos foram entregues aos israelitas pelo Deus como expressão da sua vontade para o seu povo. E a maioria deles é expresso em uma ordem negativa: “não terás outros deuses além de mim”, “não matarás”, “não darás falso testemunho contra o teu próximo”…

À primeira vista, esses mandamentos podem parecer um compilado de proibições, e contanto que deixemos de fazer aquele apanhado de “nãos”, estamos cumprindo aquela vontade divina.

Mas implícito na ordenança de “não matarás”, por exemplo, deve estar seu contraponto positivo: promover a vida. Além de não darmos falso testemunho, o que Deus quer de nós é que amparemos a verdade.

Quando Jesus resume a lei de Deus, sua compilação é amar a Deus com todo o nosso ser e ao próximo como a nós mesmos (Dt 6.5; Lv 19.18; Mt 22.37-39). Não é uma questão de só deixar de fazer algo. Amar é uma ação positiva –  que aí sim implicará em renúncias e outras negativas.

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Pois a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais afiada que qualquer espada de dois gumes; ela penetra ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e julga os pensamentos e intenções do coração. (Hebreus 4:12)

Uma das verdades que mais distinguem o Deus da revelação bíblica é que ele é um Deus que fala. Ao contrário dos ídolos pagãos – que, sendo mortos, são mudos – o Deus vivo falou e continua falando. Eles têm bocas, mas não falam; ele não tem boca (porque é espírito) mas, mesmo assim, fala. E, já que Deus fala, nós devemos ouvir. Este é um tema constante no Antigo Testamento, em todas as três das suas divisões principais. Na Lei, por exemplo: “…amando ao Senhor teu Deus, dando ouvidos à sua voz”.¹ E nos escritos da Sabedoria: “Oxalá ouvísseis hoje a sua voz!”.² Existem também muitos exemplos nos Profetas. Em que residia a “dureza de coração” da qual Deus vivia reclamando para Jeremias? Era porque o povo “se recusa a ouvir as minhas palavras”.3 O trágico nesta situação é que o que fazia de Israel um povo especial, diferente, era precisamente o fato de Deus tê-lo chamado e falado com ele. Mesmo assim, ele não ouvia nem respondia. O resultado foi juízo: “Visto que eu clamei e eles não me ouviram, eles também clamaram e eu não os ouvi”.4 Quase se poderia dizer que a epígrafe gravada na lápide da nação seria: “O Senhor Deus falou ao seu povo, mas ele recusou-se a ouvir”. Por isso Deus enviou seu Filho, dizendo: “Eles ouvirão ao meu Filho”. Mas, ao invés disso, eles o mataram.

Ainda hoje Deus fala, se bem que há certas discordâncias na igreja quanto à forma como ele o faz. Eu mesmo não creio que ele fale conosco hoje em dia de maneira direta e audível, como fez, por exemplo, com Abraão,5 com o menino Samuel6 ou com Saulo de Tardo no caminho de Damasco.7 Nem poderíamos garantir que ele se dirige a nós “face a face, como um homem fala com seu amigo”,8 já que esta relação íntima que Deus manteve com Moisés é especificamente relatada com tendo sido única.9 Para falar a verdade, as ovelhas de Cristo reconhecem a voz do bom Pastor e o seguem,10 pois isto é essencial para o nosso discipulado; mas em nenhum lugar nos é prometido que essa voz será audível.

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Parece que é em nossa função como servos que encontramos a síntese correta entre evangelismo e ação social. Pois ambos deveriam ser para nós, como indubitavelmente foram para Cristo, expressões autênticas do amor que serve.

Isso nos leva a uma consideração dos termos da Grande Comissão. Qual foi a comissão que o Senhor Jesus deu ao seu povo? Não pode haver dúvida de que a maioria de suas versões (pois parece que ele repetiu a comissão de várias formas e em várias ocasiões) dá ênfase ao evangelismo. “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” é o mandamento familiar da “longa conclusão” do Evangelho de Marcos que parece ter sido adicionada mais tarde por outra pessoa, após a conclusão original ter sido perdida (Mc 16.15). “Ide […] fazei discípulos de todas as nações, batizando-os […], ensinando-os” é a forma que Mateus escolheu (Mt 28.19-20), enquanto Lucas registra, no final de seu evangelho, as palavras de Cristo de que “em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações” e no início de Atos, de que seu povo receberia poder para se tornar testemunha até os confins da terra (Lc 24.47; At 1.8). A ênfase cumulativa parece clara. Ela é colocada na pregação, testemunho e discipulado, e muitos deduzem disso que a missão da igreja, de acordo com as especificações do Senhor ressurreto, seja exclusivamente uma missão de pregação, conversão e ensino. Realmente, confesso que defendi essa posição no Congresso Mundial de Evangelização em Berlim, em 1966, quando tentava expor as três versões principais da Grande Comissão.

Entretanto, hoje me expressaria de forma diferente. Não significa apenas que a Comissão inclui a tarefa de ensinar aos convertidos tudo o que Jesus havia ordenado previamente (Mt 28.20), e que a responsabilidade social está entre as coisas que Jesus ordenou. Agora vejo mais claramente que, não apenas as consequências da Comissão, mas também a própria Comissão inclui em si a responsabilidade social assim como a evangelística, a menos que queiramos ser acusados de distorcer as palavras de Jesus.

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