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A mulher por trás de John Stott

 ESPECIAL

Por Julia Cameron

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John e Frances, em 2006, no Palácio de Buckingham. John Stott foi condecorado como Comandante da Ordem do Império Britânico

Frances Whitehead pode ser descrita como “a mulher que o John Stott não podia viver sem”. A relação dos dois era única; em termos humanos, era a chave para a extensão do ministério frutífero de Stott. Mark Labberton, presidente do seminário Fuller, os descreve como “rápidos, exigentes e determinados”. Eles foram modestos em suas necessidades, trabalhando em um time de três pessoas, que incluía um aluno assistente de John Stott — função a qual Mark Labberton prestou por um ano. O escritório de Frances em Londres ficava em frente a uma parede de tijolos, e o aluno assistente trabalhava em uma mesa no canto do quarto de John Stott. O “tio John” trabalhava em sua pequena sala de estar. Quando Stott estava ocupado com uma obra importante, todos eles iam para Hookses, em West Wales, uma remota fazenda que, em 1997, tinha, eventualmente, eletricidade.

Como um trabalho tão eficiente poderia surgir de um time de três pessoas? No nível humano, a melhor resposta seria: Frances.

Como a parceria começou

Frances serviu nos serviços secretos na guerra e trabalhou na área da matemática após deixar a escola. Quando John Stott a conheceu, ela estava trabalhando para um produtor da BBC. Ela era cristã há pouco tempo, convertida num culto ministrado pelo Stott, na véspera de ano novo de 1953. Em 1954, ela foi conselheira na Cruzada Billy Graham, em Londres, e, nos dezoito meses seguintes, começou a se perguntar se não devia cursar uma faculdade bíblica. Na primavera de 1956, numa sexta-feira à noite, ela pediu para conversar sobre isso com John Stott. Porém, a conversa não foi muito encorajadora. Apesar de um pouco desapontada, e pensando que a sugestão de John Stott foi meio estúpida, ela pedalou até sua casa, tentando, por todo o fim de semana, tirar isso da sua cabeça.

Um dia, ao longo da semana, seu telefone tocou enquanto estava na BBC. Para sua surpresa, era John Stott:

“Então, você pensou no que eu disse?”

“Pensei em quê?”, respondeu ela.

“Sobre se tornar minha secretária”

“Tem certeza? Eu não achei que você estava falando sério!”

Aquela ligação marcou o início de uma das mais notáveis parcerias da liderança cristã. Cinquenta e cinco anos depois, em julho de 2011, Frances estava ao lado de John Stott quando ele morreu; ela foi a executora do seu testamento e, a pedido dele, ela fez um tributo no culto em memória realizado na Catedral St Paul.

“Tia” Frances

BlogUlt_01_07_16_Selo_JSAssim como John Stott se tornou o “tio John” para muitos ao redor do mundo, Frances Whitehead se tornou “tia Frances”. Em 2001, Frances recebeu a titulação de Mestre do arcebispo de Canterbury, em reconhecimento pelo seu trabalho. Cinco anos depois, em 2006, ela estava no Palácio de Buckingham com John Stott, para a condecoração dele como Comandante da Ordem do Império Britânico. Neste mesmo ano, Ruth Padilla DeBorst [filha de René Padilla] abriu uma biblioteca no Centro Bíblico Christiano em San Salvador, nomeada “Biblioteca John Stott – Frances Whitehead”. O fundador, Mardoqueo Carranza, conheceu Frances quando ela estudava no Instituto Londrino de Cristianismo Contemporâneo.

Frances datilografou/digitou todos os 50 títulos de John Stott, e as duas biografias autorizadas escritas por Timothy Dudley Smith. Mas ela era muito mais do que uma datilógrafa eficiente. Ela administrou todos os projetos do Stott. O modo de trabalho do Stott foi edificado por meio de amizades. Depois de uma visita, Stott oferecia um livro, mandava uma carta, ou um convite para lhe visitar em Londres. As suas várias iniciativas exigiam que Frances organizasse reuniões de comissões e preparava os locais para as mesmas; o recebimento de visitas, enquanto tentava se manter em dia com milhares de correspondências e programava suas viagens. Frances lembrava de nomes, fazia conexões, absorvia informações. Ela, portanto, gerenciava o império multitarefa de Stott.

Frances tinha autoridade e era respeitada por todos. Ela desenvolveu uma combinação rara caracterizada por paixão, intelecto aguçado e sensibilidade pastoral. Ela administrava o tempo do “tio John”, e todo encontro, todo telefonema só eram marcados com a sua autorização. Um dos alunos assistentes disse que ela intimidava até os assistentes americanos que “tentavam marcar um encontro no tempo livre do Stott”. Também contou que o escritório se iluminava com a sua chegada. Ela estava longe de ser severa.

Ziel Machado recorda seu entusiasmo natural. Ele veio estudar no Instituto de Londres enquanto era um jovem secretário da ABUB. “Frances se aproximou de braços abertos, me chamou pelo nome e disse que vinha orando por mim. Foram as melhores boas vindas que eu já recebi”.

Livro de Julia Cameron sobre Frances Whitehead

Livro de Julia Cameron sobre Frances Whitehead

O que tinha em seu caráter e em sua personalidade que gerava força, direção, uma marca dominadora, dava a direção, exigia padrões, ação protetora, um tom imperioso ocasional, a preocupação pastoral, o calor, a alegria, a perseverança, tudo isso misturado? Como acontece com todos nós, há pistas em sua história familiar.

A família de Frances pode ser rastreada a partir dos séculos 17 e 18. É uma história familiar de esforço, privilégio, privação, coragem e honra militar. Frances perdeu a irmã mais velha quando ainda era muito nova; sua mãe saiu de casa quando ela deixou o internato, e seu pai morreu quando ela tinha 19 anos. A história da família de seu pai ainda inclui um atentado contra a vida do rei George III. Sua história não é uma típica biografia cristã.

Uma história que precisa ser preservada

Enquanto trabalhava no “John Stott’s Right Hand”, eu descobri que John Stott tinha esperança de que a história de Frances fosse contada um dia.

Stott contou a amigos que esperava que ele morresse antes da Frances, pois ele achava que não conseguiria lidar com o fato de estar sem ela. Essa esperança foi garantida. Agora, cinco anos depois, com 91 anos, Frances continua vivendo em sua própria casa em Bourne End, uma cidade em Buckinghamshire. Ela finalmente se aposentou, com 87 anos, em 2012, quando todos os documentos de Stott foram arquivados na biblioteca do Palácio Lambeth.

Os arquivos vão contar sua própria história, mas, por trás dela, há 55 anos, houve uma outra história. John Stott estava certo. Essa história também precisa ser preservada.

 

• Julia Cameron é diretora de publicações do Movimento Lausanne. Ela é autora do livro “John Stott´s Right Hand: the untold story of Frances Whitehead” (Carlisle, Piquant, 2012).