Nosso paradoxo e a necessidade da democracia
18/06/13
O paradoxo (ou a ambiguidade) humano faz da democracia a melhor forma de governo jamais desenvolvida, pois, idealmente, a democracia reconhece tanto a dignidade como a depravação do ser humano.
Por um lado, ela reconhece nossa dignidade humana, pois se recusa a impor as pessoas que nos governarão sem o nosso consentimento. Ela nos deixa participar do processo de tomada de decisão. Ela nos trata com respeito, como adultos responsáveis.
Por outro lado, a democracia reconhece também a nossa depravação humana, quando se recusa a concentrar poder nas mãos de poucos, uma vez que isso não é seguro. Assim, faz parte da essência da democracia dividir o poder e proteger os governantes de si mesmos. Como Reinhold Niebuhr afirma, “a capacidade do homem para praticar a justiça torna a democracia possível; mas a inclinação do homem para a injustiça torna a democracia necessária”.1
John Stott. Por Que Sou Cristão, p 84.
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Nota:
1. NIEBUHR, Reinhold. The Children of Light and the Children of Darkness; A Vindication of Democracy and a Critique of its Traditional Defenders. Nisbet, 1945. p. vi.
O John Stott de nariz empinado (As emoções e o Deus emotivo)
03/05/13
Meus leitores provavelmente nem suspeitam que eu seja uma pessoa emotiva. Pois é. Eu sou um daqueles cavalheiros ingleses frios e distantes, descendente de nórdicos durões e de rudes anglo-saxões, sem nenhum traço de calor celta ou latino em meu sangue. Com tal ascendência, já era de se esperar que eu fosse um sujeito tímido, reservado e de nariz empinado. Além disso, fui educado em uma escola inglesa muito elitizada cuja filosofia era “aguenta firme”. Isto é, já que uma tremidinha no lábio superior é o primeiro sinal visível de emoção, a tradição era endurecê-lo. Ensinaram-me as virtudes dignas de um homem – coragem, força e autodisciplina – e me advertiram que, sempre que por algum acaso eu sentisse alguma emoção, nunca deveria deixar transparecer. Chorar era estritamente para mulheres e apenas para crianças, nunca para homens.
Mas aí eu fui apresentado a Jesus Cristo. Para minha surpresa, descobri que Deus, cuja “impassibilidade”, segundo eu pensava, significava que ele era incapaz de qualquer emoção, fala (se bem que em termos humanos) de sua ira ardente e do seu amor vulnerável (por exemplo, Os 11.8-9). Descobri também que Jesus de Nazaré, o perfeito ser humano, não era um “machão durão”, um asceta sem emoções. Pelo contrário, li que ele expulsou os hipócritas com raiva, que ele olhou para um jovem líder rico e o amou, que tanto podia regozijar-se em espírito como suar gotas de sangue em agonia espiritual, vivia se compadecendo das pessoas e até rompeu em lágrimas duas vezes em público.
Com todas estas evidências, é óbvio que nossas emoções não são para serem reprimidas, já que elas têm um lugar essencial em nossa natureza humana e, portanto, em nosso discipulado cristão.
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John Stott. Trecho de “Mente e Emoções” (capítulo 7 do livro “Ouça o Espírito, Ouça o Mundo”, p. 134-135). ABU Editora. 2005.
Sob a Palavra, no mundo
26/04/13
Com exclusividade, leia um trecho do livro de Stott ainda inédito em português
Antecipamos, com exclusividade em português, um trecho de “Issues Facing Christians Today”, livro de John Stott publicado na década de 80, e que a Ultimato publicará neste ano.
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Começo com um comprometimento com a Bíblia como “Palavra escrita de Deus”, que é a sua descrição nos artigos anglicanos e como ela tem sido recebida por quase todas as igrejas até recentemente. Essa é a pressuposição básica deste livro; não faz parte do meu objetivo aqui argumentá-la. Mas nós, cristãos, temos um segundo comprometimento, com o mundo no qual Deus nos colocou. E nossos dois compromissos muitas vezes parecem conflitantes. Por ser uma coleção de documentos que se relacionam a eventos distantes e particulares, a Bíblia dá uma impressão arcaica. Parece incompatível com nossa cultura ocidental, com suas sondas espaciais e microprocessadores. Como qualquer outro cristão, me sinto preso na dolorosa tensão entre esses dois mundos. Eles estão há séculos de distância. Todavia, tenho procurado resistir à tentação de me afastar de qualquer um deles em sujeição ao outro.
Alguns cristãos, ansiosos, sobretudo por serem fiéis à revelação de Deus sem concessões, ignoram os desafios do mundo moderno e vivem no passado. Outros, ansiosos por reagir ao mundo ao seu redor, podam e torcem a revelação de Deus em sua procura por pertinência. Tenho lutado para evitar ambas as armadilhas. Pois o cristão tem uma condição livre, que lhe permite não se render à antiguidade nem à modernidade. Pelo contrário, tenho procurado com integridade submeter tudo à revelação de ontem, dentro das realidades de hoje. Não é fácil aliar lealdade ao passado com sensibilidade ao presente. Porém, esse é o nosso chamado cristão: viver, sob a Palavra, no mundo.
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John Stott – Trecho do Prefácio da primeira edição de “Issues Facing Christians Today”.



