A justificação somente pela fé

É difícil para nós hoje compreender o pesado fardo de pecado e culpa sob o qual labutavam as pessoas da igreja medieval. Elas eram criadas para se concentrar na ira de Deus, no terror do julgamento e nas dores do purgatório e do inferno. Viviam no medo, empenhando-se para garantir o favor de Deus por meio de boas obras de justiça. Ora, esse era o ensino da igreja.

Quando jovem, Martinho Lutero não era exceção. Nascido em 1483, seu pai era ambicioso em relação a ele e o enviou à escola e à universidade. Mas ele estava o tempo todo dominado por uma profunda perturbação espiritual. Vendo um amigo cair morto atingido por um raio, ficou tomado pelo medo da morte e do julgamento. Assim, ele se lançou sem reservas ao serviço de Deus e entrou num mosteiro agostiniano, confiante de que ali certamente seria capaz de salvar a própria alma. Ele orava e jejuava e adotou outras austeridades extremas. “Eu era um bom monge”, escreveu mais tarde. “Se algum monge algum dia alcançasse o céu por sua vida monástica, seria eu”.1 Mas o regime ascético aumentava, não diminuía, seu tormento. Fazia suas confissões e penitências. Tomou os três votos de pobreza, castidade e obediência. Mergulhou nos estudos teológicos. Foi ordenado padre. Fez uma peregrinação a Roma e subiu de joelhos os vinte e oito degraus da Scala Santa. Mas foi tudo em vão. Lutero ficou desiludido com a igreja, convencido de que havia perdido as chaves do reino.

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No capítulo intitulado “Dependência”, do livro O Discípulo Radical, John Stott conta algumas histórias para ilustrar o significado de dependência e humildade. Uma delas tem a ver com Michael Ramsey (1904-1988), arcebispo de Canterbury que, discursando para um grupo de pessoas na véspera da ordenação delas, escolheu a humildade como tema para a ocasião e seu discurso incluía os seguintes conselhos:

1. Agradeça a Deus, com frequência e sempre […]. Agradeça a Deus, com atenção e admiração por seus privilégios sem fim […]. Gratidão é um solo no qual o orgulho não cresce facilmente.

2. Interesse-se por confessar seus pecados. Certifique-se de julgar a si mesmo na presença de Deus: isso é o seu autoexame. Coloque-se sob o julgamento divino: isso é a sua confissão […].

3. Esteja pronto para aceitar humilhações. Elas podem doer terrivelmente, mas te ajudam a ser humilde. Pode ser que sejam humilhações insignificantes. Aceite-as. Pode ser que sejam humilhações maiores […]. Tudo isso pode ser uma oportunidade para estar um pouco mais próximo do nosso crucificado e humilde Senhor.

4. Não se preocupe com status […]. Só existe um status com o qual nosso Senhor nos ordena a estar preocupados: o status de proximidade dele mesmo.

5. Use seu senso de humor. Rir das coisas, rir dos absurdos da vida, rir de si mesmo e de seus próprios absurdos. Nós somos, todos nós, criaturas infinitamente pequenas e burlescas dentro do universo de Deus. Você tem de ser sério, mas nunca ser cerimonioso, porque se você for cerimonioso sobre qualquer coisa, existe o risco de tornar-se cerimonioso com você mesmo.1 

Nota:
1 – The christian priest today. SPCK, 1972. Edição revisada, 1985. Capítulo 11: “Divine humility”, p. 79-91.
Texto originalmente publicado no livro O Discípulo Radical.

Ao falar sobre o serviço dos cristãos a Cristo e ao próximo, John Stott lembra que há diferentes tipos de ministério, conforme o dom e a vocação de cada servo. Cada um pode servir com suas orações, dons, interesses e capacidades, encorajando ou engajando-se em alguma atividade e respondendo à chamada de Deus para nos especializarmos de acordo com nossa vocação, conforme os dons, os interesses e oportunidades.

Além dos diferentes dons, há diferentes esferas do ministério cristão, começando do nosso “centro” pessoal (lar e trabalho), passando pela igreja e vizinhança, até atingir o mundo todo. A respeito do ministério cristão em nosso trabalho ele diz:

O local de trabalho é a segunda esfera na qual somos chamados a servir, a exercitar um ministério cristão. Há cristãos que entendem isso apenas em termos de evangelização – acham que o seu emprego é primordialmente uma oportunidade para testemunhar aos seus colegas ou companheiros de trabalho. Isso é verdade, principalmente se eles forem os únicos cristãos ali, e especialmente se o seu testemunho se refletir acima de tudo na qualidade de seu trabalho. Mas o nosso trabalho diário tem o seu próprio valor como forma de ministério cristão, totalmente independente da questão evangelística. Nós precisamos de uma filosofia cristã de trabalho.

O lugar certo para começar é em Gênesis 1, onde vemos Deus como um trabalhador atencioso, criativo, diligente e responsável. Depois de criar o mundo, ele continuou supervisando, sustentando e renovando-o. Então, ao criar os seres humanos à sua própria imagem, ele os fez igualmente trabalhadores criativos. Lembrar que ao trabalhar estamos sendo como Deus acrescenta honra e dignidade ao nosso labor. O nosso trabalho ganha ainda mais importância porque nos permite beneficiar a outros, tanto porque ao ganhar nosso salário podemos sustentar nossa família e ajudar os necessitados, quanto porque o produto de nosso trabalho contribui para o bem comum.

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