Sociedade

Ampliando o “Ver” para melhor “Agir”: corrigindo um ponto cego na teologia de missão integral

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Em um artigo recente, bastante incisivo e homilético, apontei e problematizei o fato muitíssimo relevante de que muitos Cristãos evangélicos sentiram-se confusos e incertos sobre a natureza imprópria da assim-chamada “Cruz de Espinal”, e muitos louvaram o artefato como uma expressão adequada do evangelho. Aleguei que vários desses irmãos estão na verdade se afastando do significado verdadeiro da cruz e seguindo por um caminho obscuro.

Embora a questão pareça a muitos mero preciosismo teológico ou, pela dureza da interpelação, um descuido da unidade Cristã, sua natureza é corretamente descrita como “herética”. Herética no sentido clássico da Haerese, a opinião cismática, que rompe a unidade presente. Ao contrário do que pensam muitos, não é o ataque apologético por mim realizado o que causa o cisma; ele, antes, denuncia o cisma, causado por um afastamento de parte (atenção, não todo, mas parte) do progressismo evangélico em relação às bases clássicas do evangelicismo. O cisma está instalado como uma ruptura tectônica, como uma falha geológica, coberta apenas por solo solto e vegetação. Responsabilizo-me por apontar a Haeresis; não  por causá-la. Nem penso que o sentimentalismo seja suficiente para remendá-la. (mais…)

Sobre o Dilema Estético-Sentimental da Política Evangélica Contemporânea

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Escrevo a contragosto, arrancado do meu exílio blogosférico pela força das circunstâncias. Deveria estar agora trabalhando em meu livro encomendado em eras passadas, inacabado e, aparentemente, inacabável. Mas é dura cousa golpear os aguilhões do processo histórico.

Para encurtar, lancemo-nos diretamente ao assunto, introduzido de forma pedante no título por uma absoluta falta de imaginação nessa tarde fria de sexta feira: afirmo que o problema da política evangélica hoje é um problema estético; um problema de aisthesis, de distúrbios de percepção e de efeito sentimental, que ocultam uma fragilidade mais profunda: a falta da fonte verdadeira dos sentimentos verdadeiros, que é a beleza verdadeira, a que nasce da união entre o bem e a verdade.
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O “Príncipe Moderno” e a Visão Cristã do Estado

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No último dia 03 de Novembro a comissão executiva do PT produziu uma resolução política sobre os rumos do partido a partir das eleições 2014. Observei, nas redes sociais, que ali se desenha uma radicalização da militância “sabendo que pouco tempo lhe resta” (ou muito, sob outro aspecto). Mas a radicalização na verdade é um retorno aos fundamentos, não uma inovação.

Num artigo anterior (“Sobre as intoxicações políticas, e porque sou oposição”) descrevi o governo atual como servindo a “um projeto hegemônico muito maior, de uma absorção progressiva das forças da sociedade civil para incorporá-las em um processo historicista de revolução social, pilotado pelo partido-estado”. Maior, digo, do que o cuidado com o pobre e o excluído. Ou, em outros termos, que “temos um estado inclinado apossuir a sociedade civil, sendo lentamente possuído por um partido desde sempre possuído por um sonho hegemônico.”

A resolução de anteontem mostra com pureza cristalina que essa é de fato a direção do partido; pilotar um movimento trans e suprapartidário de integração de forças partidárias de esquerda, movimentos da sociedade civil em todos os campos possíveis, das instituições do estado e, na medida do possível, de grandes empresas, em uma  potência política central que levará à consumação o socialismo democrático. Nesse processo, realizar-se-á uma “revolução cultural” – confesso-me surpreso com o emprego dessa expressão no texto da resolução – e se dobrarão as forças conservadoras. (mais…)

Sobre as intoxicações políticas, e por que sou oposição

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“Saiamos, pois, a ele, fora do arraial, levando o seu vitupério. Na verdade, não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a que há de vir” – Hebreus 13.13-14

 

Votei em Marina no primeiro turno; como os amigos Igor Miguel, Sandro Baggio e outros, penso que ela era a única com um plano de governo inovador e com capacidade política para vencer a Dilma no segundo turno. E no segundo acompanhei Marina no apoio a Aécio; fui derrotado duas vezes. Que assim seja!

Convido agora meus amigos oposicionistas a honrar a democracia orando pelos novos governantes e cooperando em tudo o que for compatível com a “Shalom” divina. E meus amigos situacionistas a não se embebedarem com a vitória; pois a vitória para nós, Cristãos, está além das forças históricas. Ainda assim, precisamos julgá-las, e precisamos julgar a nossa própria relação com elas. (mais…)

O Peso Total das Nossas Convicções: O Ponto do Pluralismo Kuyperiano

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[Com autorização do companheiro Daniel Dliver, republico sua tradução de um artigo jóia de Jonathan Chaplin, sobre o tema do pluralismo. É esse o tipo de perspectiva subjacente ao que escrevi anteriormente neste blog sobre pluralismo (veja AQUI).]

 

A visão de Kuyper pode ser uma inspiração para os cristãos que hoje enfrentam a dupla ameaça do capitalismo explorador e do estatismo arrogante — ambas as forças profundamente secularizantes.

Por Jonathan Chaplin, 1 de novembro de 2013, Comment Magazine

 

Paridade, não privilégio. Dificilmente um slogan acrobático de campanha eleitoral, mas, em poucas palavras, o objetivo estratégico da visão do “pluralismo” de Abraham Kuyper. Os cristãos não devem buscar uma posição de privilégio político ou legal nas praças públicas de suas nações religiosa e culturalmente diversas, mas uma posição de paridade. O objetivo é desfrutar de direitos iguais ao lado de outras “comunidades confessionais” dentro de uma democracia constitucional marcada pela ampla liberdade de expressão, justa representação, e uma diversidade de vozes. Assim, no auge da luta do século XIX holandês por igualdade de tratamento para as escolas cristãs, Kuyper afirmou que “o nosso objetivo incessante deve ser a exigência de justiça para todos, justiça para cada expressão de vida.” (mais…)

“O Corpo é meu, faço o que quiser com ele”. Será?

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Há algum tempo escrevi sobre os problemas da ideologia liberal e sua relação com a promiscuidade sexual contemporânea, e mais recentemente dei uma breve entrevista sobre o tema ao Jonathan Silveira, do ministério Tu Porém (Veja no vídeo ao final do post). Mas logo depois disso, por pura coincidência, saíram os resultados de uma pesquisa do IPEA sobre estupro (e patriarcalismo) causando comoção geral, e o tal argumento liberal “se o corpo é meu, faço o que quiser com ele” foi invocado na mídia como fundamento para o combate à violência sexual. Então decidi reviver o assunto por aqui.

Sou perfeitamente contrário à violência sexual, mas esse argumento simplesmente não funciona. Na verdade penso que ele não apenas é irracional, mas alimenta indiretamente os problemas que deseja evitar.

Faço apenas um reparo à entrevista: a pergunta do Jonathan foi sobre o movimento LGBT, mas se aplica mais exatamente ao fundo liberal da vanguarda feminista contemporânea. Às vezes se ouve esse argumento em contextos LGBT, mas ele pertence mais propriamente a todo o movimento de liberação sexual moderno e principalmente ao feminismo. É empregado, por exemplo, para justificar o aborto, a legalização da prostituição, e para atacar a instituição do casamento monogâmico.

De todo modo, eu não fui o único a perceber que o emprego desse argumento como fundamento para a crítica à cultura masculina do desrespeito e, indiretamente, do estupro, é ideológico e moralista. É claro que uma campanha individualista e libertária sobre os direitos do indivíduo sobre o seu corpo não mudará criminosos e não protegerá as mulheres. Isso faz tanto sentido, como observou jocosamente o amigo Vitor Grando, quanto uma campanha de conscientização pública pelo direito de andar nas ruas com jóias e iphones expostos sem medo. Para quê o argumento serve, então? Para plausibilizar o próprio liberalismo moral culpando o conservadorismo moral. É um jogo ideológico.

Se o reforço do liberalismo moral reduzisse os impulsos basais dos estupradores já deveríamos ter a essa altura um ambiente de profundo respeito sexual na sociedade brasileira; mas aparentemente esse respeito é inversamente proporcional ao domínio cultural do liberalismo moral. Isso acontece, no meu entendimento, porque o liberalismo moral é irracional.

Enfim, o que se precisa no mundo do hiperconsumo, da atomização da vivência humana e da venalização do sexo – o rabo preso que o liberalismo moral tem com o estupro –  é de uma educação para a virtude, coisa que o feminismo e o liberalismo moral temem tanto quanto a morte.

Para mais detalhes, veja também o artigo abaixo. Para quem quiser saber mais: os três argumentos tem um pouco de ética da virtude, de Kant, de Charles Taylor e de Scruton. E, claro, de um sujeito chamado Paulo de Tarso.

IDEOLOGIA LIBERAL E PROMISCUIDADE SEXUAL: CÚMPLICES?

 

Cristianismo e Secularismo: o que fazer quando o diálogo “acaba”?

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O que fazemos quando o diálogo com o secularismo aparentemente acaba (ou, ao menos, se esgota temporariamente)?

Certamente há limites para o diálogo. Andei pensando nisso diante dos debates atuais sobre o “estado laico”. Há muito fundamentalismo religioso para o qual “pluralismo” é um palavrão. Mas de modo geral o campo religioso brasileiro me parece extremamente plural e tolerante com a divergência. A sensação que muitos cristãos tem e expressam em conversas privadas (ou as não tão privadas assim na internet) é a de que a militância secularista é o fenômeno religioso mais agressivo dos últimos tempos (veja um exemplo interessante AQUI). O clima mudou, definitivamente.

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Manifestações: sempre fomos plurais, ainda não somos pluralistas

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O “Outono Brasileiro” revelou a imensa pluralidade de ideias e preocupações do povo brasileiro. Não que essa pluralidade não fosse conhecida; é que ver o arco-íris é sempre mais do que apenas saber que ele às vezes acontece ou mesmo que está acontecendo em algum lugar.

Vimos o arco-íris e de repente nos lembramos de que somos muito, muito diferentes. Retomando algo que já disse em outro post: o movimento começou com setores de esquerda atualmente fora do poder, que funcionaram como catalisadores, como o estopim. Então veio a enxurrada de gente, cada um com seu cartaz. (mais…)

Manifestações: a nova cidadania em rede

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A surpresa dos primeiros dias de manifestação não impediu a proliferação de palpites e experimentos analíticos por sociólogos, jornalistas, economistas, e observadores menos profissionais que se proliferam na vasta blogosfera e nas redes sociais. Não apenas todo mundo queria participar; todo mundo queria tweetar, ver, compartilhar, ouvir e opinar também.

E esse movimento não vai parar tão cedo. Há muito o que fazer para interpretar o fenômeno; e precisamos nos esforçar para interpretá-lo se quisermos responder a ele de forma inteligente – e tanto faz se você é um oponente ou um participante; o fato é que junho de 2013 e a maior manifestação popular da história do Brasil não podem ser ignorados.

O que está acontecendo, e porque está acontecendo desse jeito? Nesse post não vamos nos debruçar sobre todas as questões mais amplas da conjuntura política e até mesmo sobre o sentido das últimas respostas pelo governo e o congresso, mas sobre o tipo de reação política que acabamos de testemunhar. O que é isso, afinal? Uma convulsão, uma catarse social ou algo mais? (mais…)

A baderna de Deus e a baderna dos homens

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No princípio foi disso que a chamaram: “baderna!” Foi assim que a “imprensa vendida” descreveu o movimento. Mas enquanto ela subestimava o povo um sopro de expectativas varreu as redes sociais, insuflando chamas de esperança em alguns, causando arrepios de indignação e desprezo entre outros. Conservadores só viam a baderna e as bandeiras do PSOL, do PSTU e do PCO; a juventude à esquerda viu um futuro, um sentido, um sinal de que estamos vivos e que coisas novas podem acontecer. (mais…)

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