Quando comecei a me interessar pelas práticas da oração contemplativa, lá pelos anos de 1987, compartilhei algumas das minhas descobertas e leituras com um amigo. Ele não me pareceu muito interessado e, na verdade, até mesmo mostrou-se desconfiado de que a vida contemplativa seria sintoma ou sinal de alienação, de fuga das questões da realidade. Nada mais equivocado. A vida de oração contemplativa é um mergulho fundo no coração da realidade, tanto material quanto física, psicológica, social, mas fundamentalmente espiritual.

Thomas Merton enfrentou os mesmos dilemas em relação às suas horas de oração e silêncio, afinal rondava-o sempre o velho ditado que diz: “Quem cala, consente”. Calar-se, diante de um mundo violento e desigual, seria o mesmo que aceitar as coisas como são. Merton reage a esse equívoco.

Em seu diário, no dia  3 de março de 1964, ele escreve:

 

Não há consolação, só futilidade, na ideia de que alguém é mártir de alguma causa. Não sou mártir de coisa alguma. Estou com medo. Eu quis agir como um cristão sensato, civilizado e responsável do meu tempo. Não tenho permissão para fazer isso. Dizem-me que renunciei a isso — tudo bem. Em favor do quê? Em favor de um silêncio que está em profunda e completa cumplicidade com as forças que exercem opressão, injustiça, agressão, exploração, guerra. Em outras palavras, a cumplicidade silenciosa é apresentada com um “bem maior” do que o protesto honesto e consciencioso — supostamente ele é parte de meus votos, para a “glória de Deus”. Certamente, recuso-me a ser cúmplice. Meu silêncio é em si mesmo um protesto, e aqueles que me conhecem estão conscientes desse fato. Pelo menos tenho conseguido escrever o suficiente para tornar isso claro. Eu também não posso sair daqui para protestar, pois o sentido de qualquer protesto depende do meu estar aqui. De qualquer modo, Estou definitivamente “silenciado” sobre a questão da guerra nuclear.

 

merton