Cada vez mais percebo que todas as áreas da minha vida passam pela oração e dependem dela para ter sentido, energia e algum sucesso, até mesmo as atividades profissionais e acadêmicas. Vejo também que a oração contemplativa é uma experiência que pode me ajudar a superar fracassos, quando os demais planos simplesmente falham.

Em Pedra Lisa só pude orar de olhos abertos. Cada vez que fechava os olhos ouvia um pássaro cantar e dar um vôo rasante, uma manga caindo do pé, um som de chuva chegando, as águas do riacho, as vozes das crianças. Então elevava os olhos para as montanhas e a oração se misturava com a vibração de todas as cores e sons da criação.

Nesse último final de semana estive em retiro com a Igreja Presbiteriana de Macaé. Ficamos em um hotel-fazenda chamado Pedra Lisa. O hotel fica em um vale aos pés de uma montanha de mais de 300 metros de altura. Passei um bom tempo admirando aquele bloco maciço de pedra.

Aquele lugar tinha sido uma fazenda de cana-de-açucar em tempos do Brasil colonial, onde foi usada mão-de-obra escrava. Depois se tornou uma fazenda de café, e agora um local de descanso e lazer.

Enquanto contemplava a montanha, imaginei o que ela deve ter testemunhado ao longo da nossa história: os índios que habitavam ali originalmente, os portugueses chegando, as caçadas, os desmatamentos. As primeiras construções surgindo. Os escravos sendo trazidos para trabalhar na fazenda. Os espancamentos, as prisões, os batuques na senzala. Depois os caboclos subindo e descendo as picadas, plantando e colhendo café. Quase ouvi as vozes do passado.

Percebi que a nossa noção de tempo é bem nossa, bem humana. As pedras, os riachos, as árvores têm outro ritmo, outra pulsação. Aprendi muito com eles a respeito de simplicidade, humildade e humanidade.

Impressionam-me cada vez mais as distrações que a vida contemporânea traz: televisão, telefone, internet, rádio, video-game, sem falar dos inúmeros livros que são lançados a cada semana. Tanta coisa pra fazer, tanta coisa pra ler, tanto site pra visitar, mas tudo muito solto e desconexo. Sinto que preciso de um foco mais nítido e claro, quero aprender a dizer não, a fugir de certas distrações que apenas ocupam a mente e trazem pouco crescimento. Concentração, voltar ao centro, ao eixo de minha vida, ao coração, e ali encontrar meu Criador e ouvir Sua voz, não o simples vazio ou o som do sangue em minhas veias.

Vejo que a vida nos torna mais experientes a cada ano que passa, mas distancia-nos da inocência. Facilmente a decepção e a amargura podem nos fazer refens de nossas próprias memórias e nos aprisionar em uma grade invisível de ceticismo e desânimo. Envelhecer, mantendo a alma intacta, é um respeitável desafio.

Ontem li o Salmo 52. O salmista se compara a uma oliveira plantada no pátio do templo de Jerusalém. Quero ser assim também. Quero aprender a permecer no pátio da casa de Deus, ficar quieto em sua presença, beber a água da chuva, alimentar-me da luz do sol, cravar as raízes em solo santo, sentir o vento passando por mim, abrigar alguns pássaros, cumprimentar as pessoas que chegam para louvar a Deus, e vê-las depois indo para casa.

Ensina-me, Senhor, a ser calmo e humilde como as árvores. Que meus frutos ainda sirvam pra abençoar, quem sabe, alguém.

Gladir