Sustainable-Green-WorldNa Semana do Meio Ambiente, parei para relembrar canções que marcaram a história da música popular brasileira e que trouxeram alguma contribuição para o desenvolvimento de uma sensibilidade ambiental. Felizmente, não foram poucas as lembranças. Muitas outras canções ficaram de fora, mas esta lista me parece representativa do esforço dos artistas brasileiros no sentido de se pensar a Terra e neste momento decisivo de sua (nossa) história.

 

  1. “Borzeguim” (Tom Jobim, 1987) faz pensar sobre o sagrado das coisas criadas por Deus, “todo o dia é dia santo”, ainda que seja Sexta-Feira da Paixão, tempo de sofrimento. A canção traz imperativos que na época surgiam como gritos de alerta: “Deixa o mato crescer em paz… Deixa o tatu bola no lugar… Deixa a capivara atravessar… Deixa a anta cruzar o ribeirão… Deixa o índio vivo no sertão… Escuta o mato…” e por aí afora. Ela o alerta para o risco e a violência do movimento devorador chamado progresso. A canção é feito oração, “em nome de Deus”. https://www.youtube.com/watch?v=OA1YnWZi76s
  2. “Planeta água” (Guilherme Arantes, 1983) foi uma das canções que, quase profeticamente, antecipou um problema que hoje sentimos na pele: a falta da água potável e a contaminação dos mananciais, o dilema entre a sede e a inundação. A canção vai traçando o percurso das águas, das fontes, dos igarapés, dos riachos, riachos até os mares e de novo aos céus em forma de nuvens, para depois caírem como chuva. O poeta sugere ainda que o nome mais adequado para o planeta Terra seria planeta Água. https://www.youtube.com/watch?v=oPwnAq2xMUg
  3. “Sal da Terra” (Beto Guedes, 1981). Usando uma expressão bíblica, Beto Guedes inaugura a década de 1980 com uma canção falando da importância de olhar para a Terra com olhos de respeito e esperança. O poeta faz um chamamento para “arrumar a casa”, para a colaboração de todos, para a construção de um tempo de paz, “uma vida nova”, cuja lei e referência é o amor. Ao mesmo tempo, Beto Guedes desenvolve dois temas: o do meio ambiente e o da paz. https://www.youtube.com/watch?v=YmDct14yAhs
  4. “Sobradinho” (Sá, Guarabyra e Jair Rodrix, 1977), faz a denúncia da destruição ambiental causada pela barragem do Sobradinho, em que vários vilarejos são destruídos, como Remanso, Casa Nova, Sento Sé, Pilão Arcado, Sobradinho, inclusive a famosa cascata de Sete Quedas. Incrível como o São Francisco continua sendo o alvo das intervenções humanas em nome do progresso. https://www.youtube.com/watch?v=WUi38wsiAdQ
  5. “Terra” (Caetano Veloso, 1978). Caetano Veloso também escreveu uma canção importante sobre a Terra. O poeta mostra como, no dia em que estava numa prisão, teve pela primeira vez a revelação da Terra como um planeta azul. É a visão do astronauta. Ele contempla a fragilidade do planeta e expressa o carinho de poeta e sonhador e “errante navegante”. A Terra, tão feminina, tão bela e discreta em seu percurso sideral, não pode ser esquecida pelas gentes. https://www.youtube.com/watch?v=wAmtLN4PlLU
  6. “O Progresso” (Roberto Carlos e Erasmos Carlos, 1976). Eu era menino quando ouvi pela primeira vez essa canção. Estávamos na crise do petróleo dos anos 1970, tempo em que os dilemas ambientais surgiam nos horizontes das preocupações das pessoas. A canção de Roberto e Erasmo foi muito importante para inaugurar esse novo momento. Pela primeira vez, eles denunciam o problema da extinção das baleias e a questão da paz mundial. Nessa canção, ouvimos a surpreendente afirmação: “Eu queria ser civilizado como os animais”. https://www.youtube.com/watch?v=bbm-GFK4Jw4
  7. “Seguindo em frente” (Almir Sater, 1991) traz o chamado para uma vida mais reflexiva, mais lente e saboreada, traz a valorização da vida do ser humana em harmonia com os animais. É o som que vem do Pantanal. É um convite para conhecer “o sabor das massas e das maçãs”, o percurso e o caminho da chuva e do boiadeiro. É a vida como percurso. Sou boiadeiro e sou estrada. Uma canção de amor, paz e perseverança. https://www.youtube.com/watch?v=BONiM1vCWLg
  8. “Passaredo” (Chico Buarque e Francis Hime, 1976) trazem uma coleção aves do Brasil, pintassilgo, pintarroxo, melro, uirapuru, engole vento, saíra, inhambu, asa branca… A canção traz uma voz que tenta avisar os pássaros todos sobra a chegada sombria e destruidora do ser humano. “Voa… Some… Xô… Vai… Te esconde… Bico calado, que o homem vem aí”. De tão bela e relevante, a canção faria parte também da trilha sonora da série de TV do Sítio do Picapau Amarelo, na interpretação do grupo MPB4. https://www.youtube.com/watch?v=4514LqMlBkE
  9. “Bichos do mar” (Lenine, 2011) traz a pressa calma ou a tranquilidade acelerada de uma tartaruga chamando a gente para mudar o rumo do mundo e chamando à consciência da questão ambiental. A canção nasce do apoio do Lenino ao Projeto Tamar. https://www.youtube.com/watch?v=sTvVsNNi46s
  10. “Alguma voz” (Dori Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro, 2014), na interpretação de Maria Bethania traz a revelação da natureza, a voz da fonte, a voz do rio, as voes dos pássaros, o canto da natureza, a voz do vento, a voz do mar, mansa e violenta, e entremeio a tudo isso a voz de Deus, “alguma voz na janela do horizonte, cantando por nós, é Deus cantando defronte”. https://www.youtube.com/watch?v=V1Up079fxyI

 

 

jacob_angel_L-11Eis aqui uma singela tentativa de tradução deste poeta metafísico que peregrinou entre a ruína e a redenção, a vida e a morte, a luxúria e a santidade, a condenação e a graça. O poema é o famosos “Batter my heart, three personed God”.

 

“Bate em meu coração”

(John Donne)

 

Bate em meu coração, Deus trino, pois tu

Ainda que batas, sopras, brilhas e buscas consertar;

Para que eu me levante, e permaneça, derruba-me e inclina

Tua força, para quebrar, golpear, queimar e refazer.

 

Eu, como uma cidade invadida, subjugado por outro,

Luto para te receber, mas ai, sem sucesso.

A razão, tua governanta em mim, a mim deveria defender,

Mas está cativa, e se revela fraca e falsa.

 

Mesmo assim com ternura te amo, e ser amado adoraria,

Mas estou comprometido com teu inimigo:

Divorcia-me, desata ou arrebenta de novo aquele nó,

 

Leva-me contigo, aprisiona-me, pois eu,

A não ser que me acorrentes, jamais serei livre,

Nem jamais serei casto, a não ser que me violentes.

25 livrosDicas de leitura são sempre bem-vindas, pois num oceano de publicações um pobre mortal como nós se sente às vezes perdido. O que ler? Diante de uma biblioteca com tantas obras importantes, cada uma silenciosamente gritando por atenção, como escolher aquela digna de atenção? No burburinho de feira de uma livraria, em que os livros discutem entre si com tanta paixão, como saber qual deles deve ser ouvido? Richard Foster, autor de grandes obras de cunho devocional, e Dallas Willard, filósofo que transita pelos campos da teologia, trazem uma sugestão de 25 Livros que Todo Cristão Deveria Ler. A lista deles é esta:

1. Sobre a Encarnação (Atanásio)

2. Confissões (Agostinho)

3. Ditos dos Pais do Deserto (os pais do deserto)

4. A Regra de São Bento (Bento)

5. A Divina Comédia (Dante Alighieri)

6. A Nuvem do Não-Saber (anônimo)

7. Revelações do Amor Divino (Juliana de Norwich)

8. Imitação de Cristo (Thomas a Kempis)

9. Filocalia (vários autores)

10. As Institutas (João Calvino)

11. Castelo Interior ou Moradas (Teresa de Ávila)

12. A Noite Escura da Alma (João da Cruz)

13. Pensamentos (Blaise Pascal)

14. O Peregrino (John Bunyan)

15. A Prática da Presença de Deus (Brother Lawrence)

16. Um Sério Chamado a uma Vida Devota e Santa (William Law)

17. O Caminho de um Peregrino (autor desconhecido)

18 Os Irmãos Karamázov (Fiódor Dostoiévski)

19. Ortodoxia (G.K. Chesterton)

20. A Poesia de Gerard Manley Hopkins

21. Discipulado (Dietrich Bonhoeffer)

22. Um Testamento de Devoção (Thomas R. Kelley)

23. A Montanha dos Sete Patamares (Thomas Merton)

24. Cristianismo Puro e Simples (C.S. Lewis)

25. A Volta do Filho Pródigo (Henri Nouwen)

 

Mais do que uma lista de obras interessantes, esse é um banquete, uma mesa farta para um coração sedento de vida espiritual. A lista cobre autores das mais diversas eras e tradições da Igreja cristã, desde o período inicial do cristianismo, passando pela baixa e alta Idade Média, a Renascença, a Reforma, o século XIX e o XX.

Vejo com alegria que já li 15 dos 25 livros sugeridos. O primeiro deles a marcar minha vida foi o Imitação de Cristo, numa versão de bolso que ganhei como recordação de um querido e velho irmão: Manoel Joaquim. Eu devia ter na época uns 18 anos de idade. Dietrich Bonhoeffer marcou minha formação teológica. Li e estudei o Discipulado enquanto era seminarista no Seminário Presbiteriano do Sul, em Campinas (SP). Também é dessa época meu contato com As Institutas (Calvino), O Peregrino (Bunyan), Confissões (Agostinho), Cristianismo Puro e Simples (C.S. Lewis). Em 1987, passei a conhecer a tradição Russa e a oração contemplativa. Comecei a pesquisar intensamente sobre o assunto: A Filocalia, O Caminho de um Peregrino, e daí para A Prática da Presença de Deus, A Nuvem do Não-saber, Um Testamento de Devoção, que achei perdido nas estantes do SPS, e uma série de outros livros que não são citados por Foster & Willard.

Surpreendeu-me que a lista traz A Divina Comédia (Dante), que li na universidade (curso de Letras), mas não como livro devocional, li como literatura. Da mesma forma surpreendeu-me a sugestão da obra Os Irmãos Karamázov (Dostiévski) como tendo teor devocional. Para mim era apenas literatura, e da boa.

Senti falta de algumas obras que não estão na lista: Jonathan Edwards, David Barinerd, John Woolman, Corrie ten Boom, Eugene Peterson, Frederick Buechner, Sadhu Sundar Singh… Mas, enfim, dessa forma teria de ser uma lista de 100 livros que todo cristão deveria ler, e aí ficaríamos com o mesmo problema: o que ler primeiro?

O que mais me alegra é saber que tenho pela frente três prioridades de leitura: 1) quero ler com cuidado e devoção Os Irmãos Karamázov (Dostoiévski); 2) quero conhecer mais a fundo a obra de Gerard Manley Hopkins (pois apenas provei alguns bocados); 3) quero também ler do começo ao fim os Pensamentos, de Blaise Pascal.

Alguém me acompanha?

Enquanto preparava as aulas de Literatura Inglesa deste semestre, li este poema e fiz uma tentativa de tradução. Compartilho com os amigos:

vitral

“The Windows”
(George Herbert, 1593-1633)

 

Senhor, como pode o homem pregar a palavra eterna?

Ele é um vidro frágil e louco;

Mesmo assim, em teu templo tu lhe concedes

Este lugar glorioso e transcendente,

Para ser uma janela, através de tua graça.

 

Mas quando tu temperas no vidro tua história,

Fazendo tua vida brilhar dentro

Dos santos pregadores, então a luz e a glória

Cresce mais reverentemente, e mais alcança;

O que de outro modo é aguado, desolado e fino.

 

Doutrina e vida, cores e luz, em um só

Quando se combinam e misturam, causam

Grande respeito e temor; mas a fala sozinha

Desaparece como algo que se queima,

E ao ouvido, não à consciência, ressoa.

moltmannEstou terminando de ler o livro Teologia da Esperança, de Jürgen Moltmann. A obra tem uma rica fundamentação da teologia bíblica, ao mesmo tempo em que dialoga diretamente com os mais importantes representantes da teologia sistemática e da filosofia. O capítulo 4, particularmente, apresenta uma rica exposição sobre o conceito de história em Moltmann, que faz referência a Walter Benjamin, a Ernst Bloch, George Lukács e outros pensadores. Meus amigos estudiosos da história precisam ler esse livro.

Segue um pequeno fragmento que me impressionou bastante.

O passado terá de ser examinado em relação ao seu próprio futuro. Toda a história está cheia de possibilidades — possibilidades que têm sido aproveitadas ou não aproveitadas, apreendidos e bloqueados. Nessa perspectiva, ela aparece cheia de possibilidades interrompidas, primórdios perdidos, iniciativas arrebatadas para o futuro. As eras passadas irão, assim, ser entendidas do ponto de vista de suas esperanças. Elas não eram a base do presente que agora existe, mas eram elas mesmas o presente e a linha de frente para o futuro (Moltmann, Theology of Hope, p. 174).

 

diario 2-001Uma das resoluções que tomei para 2015 foi retomar o hábito de escrever um diário. Como não pude me conter, e até para impedir que tudo não passasse de um entusiasmo de janeiro, comecei meus registros em 1° de dezembro de 2014. Em meus tempos de juventude, cultivei o hábito de escrever diários. Hoje eles são tesouros preciosos para mim. O diário fazia parte de minha vida espiritual, uma disciplina devocional muito valorizada naqueles tempos.

Li recentemente o diário de David Brainerd (1718-1847), li também há alguns anos o diário de Ashbel G. Simonton (1833-1867) e o de John Woolman (1720-1772). Mas muitos outros grandes escritores mantiveram seus diários: Flannery O’Connor, Maya Angelou, Franz Kafka, C.S. Lewis e Virginia Woolf.

Philippe Lejeune é um estudioso dos escritos autobiográficos e em 2009 publicou um livro interessantíssimo intitulado On Diary (Sobre o Diário). De acordo com Lejeune, os diários nasceram na história a partir de necessidades comerciais e administrativas. Fazer registros e colocar data ajudava os negociantes a controlarem suas atividades. Segundo Lejeune, os diários pessoais existiam na era clássica, mas só com os cristãos é que ele ganhou características intimistas, pessoais e espirituais.

A escrita de si tem chamado a atenção de intelectuais, pesquisadores e acadêmicos em geral. Um dos focos de interesse está na relação entre a escrita de si e a construção da identidade e da formação da subjetividade. Muito antes desse renovado interesse, no entanto, os cristãos encaravam a escrita do diário como parte do exercício espiritual.

Nesse sentido, a escrita do diário nos permite meditar sobre a vida e sobre as Escrituras. Ao escrever um diário, nos posicionamos em relação à vida, e reorientamos nossa oração e nossa ação. Modificando um pouco aquele ditado que dizia: “Quem canta ora duas vezes”, podemos dizer que quem escreve um diário pensa duas vezes, e com muito mais clareza. É uma ótima forma de reconsiderar o passado ou planejar o futuro, enfrentar os temores interiores, examinar o próprio funcionamento de nossa mente e os movimentos de nossa alma, bem ao estilo do salmista quando dizia: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro em mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei” (Salmo 42.11).

No diário cabem reflexões, orações, citações de poemas, canções, passagens das Escrituras, rabiscos, desenhos, mapas, caricaturas, lembretes, tudo o que ocupa sua mente e coração. O diário fortalece também outras disciplinas espirituais, pode auxiliar na vida de oração, na prática da Lectio Divina, é uma oportunidade para ver a luz de Deus iluminando nossas trevas e confusões. Por meio dessa prática, vamos conhecendo melhor o caráter de Deus e, por consequência, nosso próprio caráter. Há inclusive uma força terapêutica no exercício do diário, pois vamos aprendendo a lidar com nossos traumas e amarguras tanto quando com nossos temores e ansiedades.

Assim que decidi retomar minha prática da escrita de diário, tive de optar por uma forma de escrita: computador ou caderno? Se fosse computador, teria de ser uma máquina pequena, transportável, um notebook. Há ótimos softwares específicos para escrever diário, a maioria disponíveis gratuitamente: o RedNotebook, o OneNote, o próprio WordPress… Mas também o próprio Word ou LibreOffice serviriam. No entanto, preferi o silêncio, a intimidade, a portabilidade e o calor de um caderno com capa dura. Ele está sempre comigo. Não precisa recarregar bateria e a variação das linhas e do formato das letras vão registrando a emoção do momento. Além do mais, li em algum lugar que quando escrevemos à mão ativamos áreas do cérebro diferentes das que utilizamos ao digitar um teclado.

Quando escrever? Quando quiser. Aproveito as primeiras horas do dia, mas também ao final do dia, antes de repousar, a escrita do diário cai muito bem. Sobretudo, tenho notado que escrever logo depois de minha hora devocional e do período de oração contemplativa tem sido muito significativo e prazeroso.

Alguns princípios têm sido norteadores para mim: autenticidade acima de tudo, deixar vibrar no papel minha própria voz e alma, honestidade em relação aos temas que forem aparecendo. Quando apenas os eventos do dia a dia aparecem na mente, apenas registro os eventos. Não me preocupo em ser profundo, complexo ou mesmo poético. Esqueço meu corretor gramatical interno e, principalmente, tento não bancar o policial de mim mesmo. Simplesmente contemplo a beleza cristalina de uma folha de papel em branco e começo a conversar com Deus ou comigo mesmo: “Puxa uma cadeira, minha alma. Eu quero te perguntar: ‘Por que me roubas a calma, me mostras tristeza no olhar? Vamos entrar num acordo, vida tranquila viver. Lembra daquilo que o Mestre falou: A minha graça te basta’” (Stênio Marcius).

Faltam apenas dez dias para o Natal. Faça o download deste e-book gratuitamente: uma meditação para cada dia do mês de dezembro.

 

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