mario_quintanaO sol se põe na linha do horizonte. A escuridão pouco a pouco invade a terra. No risco distante do poente vê-se apenas um clarão. Olhando para trás, o escuro da noite parece encobrir a cidade, menos os prédios mais altos, ainda tocados pela claridade do sol. Tenho para mim que nossos poetas, nossos grandes escritores são como prédios iluminados ao cair da tarde. Num mundo rodeado por sombras cada vez maiores, eles refletem certos raios da luz do Sol. Assim é que vejo a poesia de Mário Quintana.

O poeta tem os olhos abertos para a beleza, e nada escapa ao seu foco preciso. No seu livro Baú de Espantos, ele vai mostrando a cada poema a extraordinária beleza das coisas corriqueiras, a sacralidade e o mistério das coisas banais e cotidianas. Nas entrelinhas de seus versos é possível perceber sinais da presença do divino, não uma presença pesada ou indiscutível como um livro de doutrina, mas movente como as águas de um rio.

Na poética quintaneira, a palavra “espanto” expressa a capacidade humana de maravilhar-se diante da vida e do mundo. O poeta é alguém que não cansa de surpreender-se. E sua grande tarefa consiste em nos ensinar a lição do maravilhar-se perante as pessoas, perante as palavras e perante as coisas. Esse maravilhar-se inclui um tanto de estranhamento em relação ao mundo moderno e seus aparatos tecnológicos e produtos de massa, como música pop ou novelas de TV. Inclui também um tanto de contemplação e percepção da singularidade das pessoas e do mundo natural, como a leveza das nuvens, a força dos ventos, a sinuosidade dos rios ou o “[f]rescor agradecido de capim molhado como alguém que chorou e depois sentiu uma grande, uma quase envergonhada alegria por ter a vida continuado….”.

Alguns poemas de Quintana mostram como é tênue e tenso o limite entre o tempo e a eternidade, a morte e a vida. No poema “O Olhar”, Quintana mostra o quanto “[o] olhar do poeta é como o olhar de um condenado… como o olhar de Deus…”. É que “[o] último olhar do condenado é nítido como uma fotografia: vê até a pequenina formiga que sobe acaso pelo rude braço do verdugo, vê o frêmito da última folha no alto daquela árvore, além…”. O olhar da finitude nos permite ver as coisas como são, em sua temporalidade, em sua fugacidade. A consciência da mortalidade nos faz abrir os olhos para a realidade do mundo em seu mais duro e claro contorno.

É também muito nítido o olhar que Deus tem das coisas criadas, Ele que as vê a partir da Sua eternidade e pleno conhecimento. Mas esse saber divino tem a delicadeza de um olhar e ao mesmo tempo um postergar sempre o fim. É assim que, de maneira irreverente, o poeta vai mostrando o quanto a eternidade de Deus está ligada à sua capacidade para “deixar tudo para depois”, adiar o fim das coisas. E ele completa: “Só é verdadeiramente vida a que tem um inquieto depois!”.

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QUINTANA, Mário. Baú de Espantos. 2. ed. São Paulo: Globo 2006.

 

QUINTANA, Mário. O Olhar. Disponível em: <http://www.umdiadepoesia.com.br/o-olhar/>. Acessad em 30 nov 15.

baquaqua

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Você não espera que alguém da minha raça,

Com cabelos encaracolados e rosto negro,

E com um pequeno raio de saber,

Chame a atenção de seus amigos no colégio.

Mas, farei o melhor que puder

Para provar que quero ser um homem.

É verdade, que meu corpo traz as marcas das correntes,

É verdade que minhas costas trazem as cicatrizes das chicotadas,

Mas não é verdade que o poder do tirano

Jamais tenha feito de meu coração um covarde.

Não! Ele é livre como quando eu brincava

À sobra das palmeiras de minha terra natal.

 

Oh! África, minha terra natal,

Quando irei te ver, humildemente postada,

Sob a bandeira de meu Deus,

E governada por Sua Santa Palavra?

Quando irei ver a vara dos opressores

Ser tirada de suas mãos, meu gracioso Deus?

Oh! Quando verei meus irmãos

Desfrutarem da doçura da LIBERDADE?

 

Amigos dos escravos oprimidos e ensanguentados,

Peçam a Deus por piedade! Que Deus nos salve!!

Pois toda a ajuda dos homens é vã,

Pois o homem ao homem forjou cadeias.

Oh, Pai da Justiça, tu és justo,

Olho para ti, em ti confio;

Oh, que teu espírito gracioso atenda

Ao gemido dos africanos, às orações dos africanos,

Junto ao teu puro trono nos céus,

Onde tudo é alegria e paz e amor,

Por Jesus, Oh! salva o oprimido,

E que suas almas encontrem paz nos céus.

 

(Mohammah Gardo Baquaqua, 1854).

 

 

 

portinari - grupo

Portinari – “Grupo” (1958)

Imagina!

 

Se é pura verdade o que diz Benedict Anderson sobre o caráter imaginário de nossa identidade nacional e se Darcy Ribeiro acertou quando disse que “a coisa mais importante para o brasileiro era inventar o Brasil”, então quero imaginar um país e colaborar para a sua invenção. Trata-se de um exercício de imaginação coletiva, um trabalho participativo e diário de construção e reconstrução.

Neste país como possibilidade a se concretizar, será possível ouvir de novo, e sempre, a voz do velho Lua a cantar aboios e a sorrir sanfonas celebrando o fim da seca no sertão, a volta do retirante e da asa branca com saudade da beleza e da alegria que só a chuva traz. Neste país imaginário, a canção de Antônio Brasileiro será a trilha sonora que chamará os pássaros de volta para as florestas que, finalmente, foram preservadas e reconhecidas como santuário de nossa vida natural.

Nas ruas de Brodowski se ouvirá o som do autofalante chamando o povo para assistir ao grande espetáculo do novo circo que acabou de chegar. E as crianças sairão correndo para ver os palhaços e trapezistas. E Portinari, entre elas, encherá de azul uma país feito de trabalho e brinquedo, balanço, gangorra, violões, frevos, sambas, vaqueiros, garimpeiros e jangadeiros do Nordeste e trabalhadores nas plantações de café.

Os traços suaves e flutuantes de Oscar Niemeyer nos ajudarão a reconstruir cidades agora transformadas em ruína pelo risco implacável da injustiça, pelo rabisco apressado da ambição e da mentira. E imaginaremos Brasília em que a pérola será o entorno, a periferia, em que a beleza será satélite da arquitetura justa e sensível de uma nação reinventada.

E para garantir que não haverá falta de imaginação e literatura neste Brasil que certamente construiremos, será reservado um espaço privilegiado no coreto da praça para que Mário de Andrade leia, em tom apaixonado, o manifesto antropofágico que um dia ouviu da boca do seu amigo Oswald. E em sua voz soarão as vozes de tantos povos indígenas há tanto tempo silenciados, e se ouvirão caiporas e sacis e macunaímas todos a procurar a pedra de muiraquitã, aquilo que um dia sabíamos ser e que afinal perdemos de vista.

Neste país, Guimarães Rosa nos mostrará o que é sertão e quantas veredas o atravessam, e quantos enredos se desenrolam nos fios da sua narrativa, da palavra que se debate diante do inefável, da narrativa que desemboca no silêncio dos caminhos e dos rios, do coração humano que se pega a cismar com o infinito. E Rosa dirá que, assim como Minas Gerais, o Brasil são muitos.

Sim, são muitos os brasis que temos sonhado coletivamente, algumas imagens perturbadoras nos falam de desmatamentos, chacinas, desigualdades tantas, corrupção e desmando, quadros que revelam nosso vício do “jeitinho”, nossa cultura do favor, nosso endividamento moral, nossa miséria, enfim. É como se várias músicas fossem tocadas ao mesmo tempo pela mesma orquestra confusa e desafinada. É como se várias sinfonias se iniciassem ao mesmo tempo, e o maestro, desconcertado, pusesse a mão nos cabelos e perguntasse: “Que faremos deste país?”

Vivemos agora este momento em que paramos todos para pensar que música tocaremos, que obra imaginaremos juntos. Ladrões não fazem um país. Assassinos não têm pátria nem compatriotas. Mercenários não estão em busca do que somos, mas do que temos a fim de vendê-lo ao que não somos e, fazendo assim, roubar a pedra preciosa de nossa identidade. Este é o momento de encarar nossa estranha contradição e de celebrar, com humildade e esperança, a possibilidade da reconstrução de um país pelo uso de nossa imaginação democrática.

 

Gladir Cabral

 

Confira:

 

Site com a obra de Portinari: http://www.portinari.org.br/

 

Filme “As Sanfonas do Lua”: https://www.youtube.com/watch?v=54UpU1tsdn0

 

Documentário “O Povo Brasileiro”: https://www.youtube.com/watch?v=eqlcHGj4f7k

 

 

Vivemos entre memórias e a esperança. É disso que fala esta bela canção de Sara Groves: “Painting Pictures of Egypt”. Sara é artista cristã, autora de belíssimas canções, com melodias sensíveis, fortes, e letras bastante poéticas. Graduada em direito, Sara apoia o ministério de denúncia e combate à escravidão moderna. Mãe e esposa, vive a simplicidade do cotidiano guardando sempre no coração as palavras de Jesus. Admirável pessoa.

Nesta canção ela se coloca no lugar do povo de Israel e a hesitação entre sair para o deserto (para a terra prometida) ou permanecer no “conforto” das coisas cotidianas do Egito.

“Pintando quadros do Egito”
(Sara Groves)

Não quero sair daqui
Não quero ficar
Sinto como se fosse um aperto
De qualquer jeito
E os lugares que mais desejo
São os lugares onde já estive
Eles me chamam
Como um amigo que não se vê há muito

Não se trata de perder a fé
Não se trata de confiar
Trata-se de sentir-se confortável
Quando você se muda tanto
E o lugar em que eu estava não era perfeito
Mas achei um jeito de viver
E não era leite ou mel
Mas também não isto o que tenho aqui

Estou pintando quadros do Egito
Deixando de lado o que falta
O futuro parece tão difícil
E quero voltar
Mas os lugares que pareciam perfeitos para mim
Não podem conter as coisas que tenho aprendido
Aquelas estradas se fecharam para mim
Quando virei as costas e parti

O passado é tão palpável
Isso eu sei de cor
Coisas familiares nunca são fáceis
De se descartar
Eu queria tanto alguma liberdade
Mas agora estou em dúvida ao partir
Me vejo entre a Promessa
E as coisa que já conheço

“Painting Pictures Of Egypt”

(Sara Groves)

I don’t want to leave here
I don’t want to stay
It feels like pinching to me
Either way
And the places I long for the most
Are the places where I’ve been
They are calling out to me
Like a long lost friend

It’s not about losing faith
It’s not about trust
It’s all about comfortable
When you move so much
And the place I was wasn’t perfect
But I had found a way to live
And it wasn’t milk or honey
But then neither is this

I’ve been painting pictures of Egypt
Leaving out what it lacks
The future feels so hard
And I want to go back
But the places that used to fit me
Cannot hold the things I’ve learned
Those roads were closed off to me
While my back was turned

The past is so tangible
I know it by heart
Familiar things are never easy
To discard
I was dying for some freedom
But now I hesitate to go
I am caught between the Promise
And the things I know

Leia: Mateus 2.1-12

Ouço o som de buzinas e de autofalantes. Em seguida, vejo o caminhão com várias pessoas sobre a carroceria e com um grande número de pacotes coloridos passar chamando a criançada. Após o caminhão seguem vários carros de apoio.
A carreata do bem acontece todo final do ano. Ela percorre a rua de minha casa e segue até o final do bairro onde moram pessoas de condições humildes.
Lá chegando, é feita a distribuição de presentes às crianças. Terminada a entrega, algumas passam em frente de casa. Da janela de meu quarto consigo ver as carinhas de alegria. Não importa se a boneca é uma imitação de grifes famosas, ou se a bola de plástico dali a alguns dias estará furada, ou mesmo se o carrinho logo perderá as rodas.
Não importa. O fato é que essas crianças, tomadas de alegria, foram lembradas. Pessoas vieram até elas e trouxeram presentes. Que alegria! Em um mundo desumano e de apagamentos sociais, lembrar de uma criança pobre significa muito.
Os pais ficam gratos. Afinal, por mais baratos que sejam os presentes, liberam o pouco de dinheiro que possuem para comprar talvez um panetone, ou, quem sabe, com um pouco mais de esforço, uma carne que poderá até ser a surpresa da ceia humilde de natal.
O texto bíblico indicado acima testemunha a sensibilidade de pessoas importantes que se lembraram de uma humilde criança na Palestina.
Embora o relato se revista de tensões, afinal, o falso rei Herodes deseja utilizar os magos para seus intentos assassinos, há nele também um elemento de delicadeza e de alegria. Protegidos por Deus, os magos conseguem se desvencilhar das garras de Herodes e, dirigidos pela estrela, chegam à humilde Belém e visitam a criança.
Imagine a surpresa da família de Jesus ao ver aqueles homens, certamente muito bem vestidos, com ares aristocráticos, entrarem na pequena casa e, após saudarem seus moradores, depositarem presentes diante daquela pequena e pobre criança!
O recém-nascido era considerado por eles o rei dos judeus. Claro que a sequência do evangelho de Mateus corrigirá essa visão demonstrando que Jesus é o rei do universo, senhor de tudo e de todos. Mas, naquele momento, reconhecer aquela criança como rei dos judeus era muita coisa.
O texto revela que eles estavam cheios de alegria e de júbilo. Sim, pois eles faziam parte do restrito círculo de pessoas que conseguiram ver e reconhecer o menino Jesus. E mais, tiveram o privilégio de presenteá-lo. O texto silencia a respeito da reação da criança. Certamente não entendeu o que ocorria ao seu redor. Também não relata a reação de Maria. O mais importante é realçar a alegria de quem presenteia.
Sim, é verdade. As pessoas que passam diante de casa são as mais felizes, mais até do que as crianças que recebem os presentes. E têm razão para isso. Afinal, elas são privilegiadas por poderem dar presentes. E para crianças que precisam deles.
Que tal, neste Natal, levar presentes para crianças carentes? Para um orfanato, para uma entidade de assistência social. Existem tantas! Ao dar presentes, pense no menino Jesus, pense que poderá alegrar, em nome de Jesus Cristo, crianças que talvez, sem você, permanecerão esquecidas neste natal.
Ouça a canção na voz de Ivan Lins. Medite. Ore. Compartilhe. http://www.youtube.com/watch?v=upsyx4X5bH8
João Leonel

albert schweitzer2Nestes dias em que a humanidade passa por crises de toda ordem: econômica, política, ideológica, social, cultural, faz bem trazer à memória a contribuição de pessoas que souberam compreender seu mundo e apontar caminhos. Uma dessas figuras inesquecíveis, mas que muita gente desconhece, foi o médico cristão, pesquisador, teólogo e missionário Albert Schweitzer.

Durante a I Guerra Mundial, quando seu trabalho missionário em Lambarene (no Gabão) foi interrompido, Schweitzer começou a refletir sobre a crise da civilização ocidental e o desafio de elaborar princípios éticos que tivessem validade universal e que vencessem os ventos fortes do relativismo, que já começavam a soprar na Europa. A elaboração desses princípios éticos deveria se basear na reflexão, no pensamento crítico e ao mesmo tempo honesto sobre o sentido da realidade. Ele escreve um livro que seria publicado em 1923: Filosofia da Civilização. No capítulo 26 ele apresenta sua mais importante proposição: “A ética da reverência pela vida”.

Schweitzer buscou embasar seu princípio ético numa racionalidade que não se tornasse mera abstração, e que tivesse validade universal, algo que fosse elementar, simples e ao mesmo tempo profundo. Seu ponto de partida é o sujeito que descobre uma verdade bruta e fundamental: “Sou uma vida que quer viver no meio de outras vidas que querem viver”. A partir daí, há dois princípios básicos: 1) é preciso socorrer a vida que estiver em risco; 2) é preciso não ferir e não matar a vida.

Nosso poeta João do Vale soube expressar isso muito bem o que o filósofo propôs: “Eu vi a lavadeira pedindo sol / E o lavrador pra chover / Os dois com a mesma razão / Todos precisam viver”. O dilema ético consiste em que a vida, para viver, acaba matando outras vidas, como o gavião carcará, que “pega, mata e come”. A diferença entre o ser humano e o carcará é que o ser humano tem de decidir conscientemente o que fazer com a vida e ser responsável por essa decisão.

Schweitzer aponta para o respeito necessário diante de toda forma de vida, inclusive animais e vegetais. Ele fala até mesmo do respeito devido aos insetos e aos seres microscópicos: “O ser humano é verdadeiramente ético somente quando obedece ao impulso de socorrer toda vida que puder assistir, e evitar ferir qualquer ser vivo. Ele não questiona até que ponto essa ou aquela forma de vida merece simpatia ou valor […]. A vida é sagrada para ele. Ele não arranca uma folha de árvore, não colhe uma flor e tenta não pisar em nenhum inseto. Se no verão ele trabalha à luz do lampião, ele prefere fechar a janela e respirar o ar abafado a ver os insetos se atirarem na chama um após outro e caírem sobre a mesa”. Exagero? Não. Coerência.

Nesse mesmo artigo, Schweitzer entra na questão da pesquisa científica e antecipa por décadas discussões que hoje agitam as universidades do mundo. O que fazer com os animais que servem às nossas pesquisas em laboratório? Como tratá-los dignamente. Se é preciso que eles sejam sacrificados pelo bem da humanidade, então façamos com consciência e responsabilidade. Ele comenta o mesmo em relação aos animais tratados em confinamento e abatidos pelas indústrias de alimento.

Vale a pena conhecer a obra e o pensamento de Albert Schweitzer. Vale a pena ouvir as canções de João do Vale:joao do vale

Deu meia noite, a lua faz um claro

Eu assubo nos aro, vou brincar no vento leste

 

A aranha tece puxando o fio da teia

A ciência da abeia, da aranha e a minha

 

Muita gente desconhece

Muita gente desconhece, olará, viu?

Muita gente desconhece

 

 

Para conhecer a vida e obra de Albert Schweitzer:

http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/4975589/filosofia-da-civilizacao

Documentário: em inglês http://www.youtube.com/watch?v=Gf4B9v0s0CY

Há um filme rodado em 2006 sobre a vida de Schweitzer: eis o trailer http://www.youtube.com/watch?v=wBHXg3G6-H4

 

João do Vale cantando: http://www.youtube.com/watch?v=yvkolUGD8rg

Luiz Vieira canta uma canção de João do Vale: http://www.youtube.com/watch?v=fBQeev18Ejk

Sustainable-Green-WorldNa Semana do Meio Ambiente, parei para relembrar canções que marcaram a história da música popular brasileira e que trouxeram alguma contribuição para o desenvolvimento de uma sensibilidade ambiental. Felizmente, não foram poucas as lembranças. Muitas outras canções ficaram de fora, mas esta lista me parece representativa do esforço dos artistas brasileiros no sentido de se pensar a Terra e neste momento decisivo de sua (nossa) história.

 

  1. “Borzeguim” (Tom Jobim, 1987) faz pensar sobre o sagrado das coisas criadas por Deus, “todo o dia é dia santo”, ainda que seja Sexta-Feira da Paixão, tempo de sofrimento. A canção traz imperativos que na época surgiam como gritos de alerta: “Deixa o mato crescer em paz… Deixa o tatu bola no lugar… Deixa a capivara atravessar… Deixa a anta cruzar o ribeirão… Deixa o índio vivo no sertão… Escuta o mato…” e por aí afora. Ela o alerta para o risco e a violência do movimento devorador chamado progresso. A canção é feito oração, “em nome de Deus”. https://www.youtube.com/watch?v=OA1YnWZi76s
  2. “Planeta água” (Guilherme Arantes, 1983) foi uma das canções que, quase profeticamente, antecipou um problema que hoje sentimos na pele: a falta da água potável e a contaminação dos mananciais, o dilema entre a sede e a inundação. A canção vai traçando o percurso das águas, das fontes, dos igarapés, dos riachos, riachos até os mares e de novo aos céus em forma de nuvens, para depois caírem como chuva. O poeta sugere ainda que o nome mais adequado para o planeta Terra seria planeta Água. https://www.youtube.com/watch?v=oPwnAq2xMUg
  3. “Sal da Terra” (Beto Guedes, 1981). Usando uma expressão bíblica, Beto Guedes inaugura a década de 1980 com uma canção falando da importância de olhar para a Terra com olhos de respeito e esperança. O poeta faz um chamamento para “arrumar a casa”, para a colaboração de todos, para a construção de um tempo de paz, “uma vida nova”, cuja lei e referência é o amor. Ao mesmo tempo, Beto Guedes desenvolve dois temas: o do meio ambiente e o da paz. https://www.youtube.com/watch?v=YmDct14yAhs
  4. “Sobradinho” (Sá, Guarabyra e Jair Rodrix, 1977), faz a denúncia da destruição ambiental causada pela barragem do Sobradinho, em que vários vilarejos são destruídos, como Remanso, Casa Nova, Sento Sé, Pilão Arcado, Sobradinho, inclusive a famosa cascata de Sete Quedas. Incrível como o São Francisco continua sendo o alvo das intervenções humanas em nome do progresso. https://www.youtube.com/watch?v=WUi38wsiAdQ
  5. “Terra” (Caetano Veloso, 1978). Caetano Veloso também escreveu uma canção importante sobre a Terra. O poeta mostra como, no dia em que estava numa prisão, teve pela primeira vez a revelação da Terra como um planeta azul. É a visão do astronauta. Ele contempla a fragilidade do planeta e expressa o carinho de poeta e sonhador e “errante navegante”. A Terra, tão feminina, tão bela e discreta em seu percurso sideral, não pode ser esquecida pelas gentes. https://www.youtube.com/watch?v=wAmtLN4PlLU
  6. “O Progresso” (Roberto Carlos e Erasmos Carlos, 1976). Eu era menino quando ouvi pela primeira vez essa canção. Estávamos na crise do petróleo dos anos 1970, tempo em que os dilemas ambientais surgiam nos horizontes das preocupações das pessoas. A canção de Roberto e Erasmo foi muito importante para inaugurar esse novo momento. Pela primeira vez, eles denunciam o problema da extinção das baleias e a questão da paz mundial. Nessa canção, ouvimos a surpreendente afirmação: “Eu queria ser civilizado como os animais”. https://www.youtube.com/watch?v=bbm-GFK4Jw4
  7. “Seguindo em frente” (Almir Sater, 1991) traz o chamado para uma vida mais reflexiva, mais lente e saboreada, traz a valorização da vida do ser humana em harmonia com os animais. É o som que vem do Pantanal. É um convite para conhecer “o sabor das massas e das maçãs”, o percurso e o caminho da chuva e do boiadeiro. É a vida como percurso. Sou boiadeiro e sou estrada. Uma canção de amor, paz e perseverança. https://www.youtube.com/watch?v=BONiM1vCWLg
  8. “Passaredo” (Chico Buarque e Francis Hime, 1976) trazem uma coleção aves do Brasil, pintassilgo, pintarroxo, melro, uirapuru, engole vento, saíra, inhambu, asa branca… A canção traz uma voz que tenta avisar os pássaros todos sobra a chegada sombria e destruidora do ser humano. “Voa… Some… Xô… Vai… Te esconde… Bico calado, que o homem vem aí”. De tão bela e relevante, a canção faria parte também da trilha sonora da série de TV do Sítio do Picapau Amarelo, na interpretação do grupo MPB4. https://www.youtube.com/watch?v=4514LqMlBkE
  9. “Bichos do mar” (Lenine, 2011) traz a pressa calma ou a tranquilidade acelerada de uma tartaruga chamando a gente para mudar o rumo do mundo e chamando à consciência da questão ambiental. A canção nasce do apoio do Lenino ao Projeto Tamar. https://www.youtube.com/watch?v=sTvVsNNi46s
  10. “Alguma voz” (Dori Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro, 2014), na interpretação de Maria Bethania traz a revelação da natureza, a voz da fonte, a voz do rio, as voes dos pássaros, o canto da natureza, a voz do vento, a voz do mar, mansa e violenta, e entremeio a tudo isso a voz de Deus, “alguma voz na janela do horizonte, cantando por nós, é Deus cantando defronte”. https://www.youtube.com/watch?v=V1Up079fxyI