EU SOU AQUELE
(Mário Quintana)

Eu sou aquele que, estando sentado a uma janela,
a ouvir o Apóstolo das Gentes,
adormeci e caí do alto dela.
Nem sei mais se morri ou fui miraculado:

Consultai os Textos, no lugar competente
o que importa é que o Deus que eu tanto ansiava
como uma luz que se acendesse de repente,
era-me vestido com palavras e mais palavras

e cada palavra tinha o seu sentido…
Como as entenderia eu tão pobre de espírito
como era simples de coração?

E pouco a pouco se fecharam os meus olhos…
e eu cada vez mais longe… no acalanto
de uma quase esquecida canção…

[gravura de Alison Lambert, 2011]

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Em seu ensaio sobre a importância da leitura dos clássicos da literatura, Italo Calvino afirma, entre várias teses, que “[u]m clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. A obra Don Quixote, de Miguel de Cervantes, confirma plenamente essa afirmação. Passados mais de 400 anos de sua publicação, o livro continua falando coisas, dialogando com seus leitores, provocando risos e reflexões sobre a realidade e a vida.

Entre os tantos temas que obra desenvolve, Don Quixote de la Mancha trata do fenômeno da leitura e de sua prática na sociedade humana. Documento importante sobre a história da leitura, a obra fala da aceitação literatura popular no período renascentista. Entre os vários gêneros literários que se tornaram populares na época, estão os romances de cavalaria, resquícios e sonhos de um mundo medieval que naquela altura já não eram mais possíveis. A obra de Cervantes celebra essa tradição, ao mesmo tempo em que a ironiza e a revisa. Em várias passagens do livro, discute-se se o papel da literatura seria apenas “deleitar” ou “ensinar”. Cruzando dualismos reducionistas, Cervantes mostra que, a partir de um gênero popular, é possível propor questões profundas sobre a vida e a arte.

Outro aspecto interessante do livro é que ele propõe uma discussão sobre ficção e realidade, sugerindo que a literatura permite o desvelamento do caráter ficcional da realidade. Ao abandonar sua cômoda (e medíocre) realidade para buscar a as aventuras de um cavaleiro andante, Don Quixote deseja intensamente ressignificar sua vida. Por das leituras em sua vasta biblioteca, ele reconstrói sua identidade. Vida é narrativa, é história que se conta e que se tece no dia a dia. Momento crítico é aquele em que o herói é derrotado em seu próprio mundo ficcional. Desenganado, recupera a sua sanidade ao final da história, volta à razão para, simplesmente, morrer e enfim adentrar os portais da realidade perante a qual tudo o mais é sonho.

Esse é um livro sobre a condição humana, sua fragilidade total, sua busca incessante por significado e ventura, sua situação ridícula e ao mesmo tempo admirável, sua nobreza e seu desvario. Sobressalta aos olhos a incompletude da existência, o modo como o herói precisa de Sancho Pança, seu fiel escudeiro, a tal ponto que é impossível conceber Don Quixote sem Sancho Pança. O idealismo do “cavaleiro da triste figura” precisa ardentemente da sobriedade simples e chã de Sancho Pança. Isso aponta para o caráter dialogal da vida humana. Somos feitos para o outro, em cooperação com o outro. Somos seres feitos para a relação, para o relacionamento.

Ao final, o herói que volta de suas aventuras não é o mesmo que saiu. Chegando à sua pequena vila de La Mancha, Don Quixote, “derrotado pelos braços dos outros, retorna vencedor de si mesmo” (Quixote, p. 993). Assim o “desocupado leitor” da obra de Cervantes chega ao final da leitura transformado, diferente do que era quando começou as primeiras linhas.

Quando comecei a me interessar pelas práticas da oração contemplativa, lá pelos anos de 1987, compartilhei algumas das minhas descobertas e leituras com um amigo. Ele não me pareceu muito interessado e, na verdade, até mesmo mostrou-se desconfiado de que a vida contemplativa seria sintoma ou sinal de alienação, de fuga das questões da realidade. Nada mais equivocado. A vida de oração contemplativa é um mergulho fundo no coração da realidade, tanto material quanto física, psicológica, social, mas fundamentalmente espiritual.

Thomas Merton enfrentou os mesmos dilemas em relação às suas horas de oração e silêncio, afinal rondava-o sempre o velho ditado que diz: “Quem cala, consente”. Calar-se, diante de um mundo violento e desigual, seria o mesmo que aceitar as coisas como são. Merton reage a esse equívoco.

Em seu diário, no dia  3 de março de 1964, ele escreve:

 

Não há consolação, só futilidade, na ideia de que alguém é mártir de alguma causa. Não sou mártir de coisa alguma. Estou com medo. Eu quis agir como um cristão sensato, civilizado e responsável do meu tempo. Não tenho permissão para fazer isso. Dizem-me que renunciei a isso — tudo bem. Em favor do quê? Em favor de um silêncio que está em profunda e completa cumplicidade com as forças que exercem opressão, injustiça, agressão, exploração, guerra. Em outras palavras, a cumplicidade silenciosa é apresentada com um “bem maior” do que o protesto honesto e consciencioso — supostamente ele é parte de meus votos, para a “glória de Deus”. Certamente, recuso-me a ser cúmplice. Meu silêncio é em si mesmo um protesto, e aqueles que me conhecem estão conscientes desse fato. Pelo menos tenho conseguido escrever o suficiente para tornar isso claro. Eu também não posso sair daqui para protestar, pois o sentido de qualquer protesto depende do meu estar aqui. De qualquer modo, Estou definitivamente “silenciado” sobre a questão da guerra nuclear.

 

merton

walt-whitman-1887-dana-kellerFragmento de uma das obras mais importantes de Walt Whitman: “Leaves of Grass”. Uma tradução imperfeita, mas inevitável.

Agora não faço mais nada, só ouço,
Para verter o que ouço nesta canção, para deixar os sons contribuírem com ela.

Ouço bravuras de pássaros, alvoroço de trigo crescendo, murmúrio de chamas,
estalido de gravetos cozinhando meus alimentos,
ouço o som que amo, o som da voz humana,
ouço todos os sons correndo juntos, combinados, fundidos ou em sequência,
sons da cidade e sons de fora da cidade, sons do dia e da noite,
jovens falantes para aqueles que gostam deles, a risada ruidosa dos trabalhadores em sua refeição,
o grupo enraivecido de amigos dispersos, os tons tênues dos enfermos,
o juiz com suas mãos agarradas à mesa, seus lábios pálidos pronunciando a sentença de morte,
o movimento dos estivadores descarregando navios nos ancoradouros, o refrão dos içadores de âncoras,
o som dos sinos de alarmes, o ronco dos motores velozes e dos carros de bombeiro cheios de tilintares de alerta e luzes coloridas,
o apito do vapor, a rolagem sólida do comboio de carros que se aproximam,
a marcha lenta tocada na mente do povo marchando dois a dois,
(eles vão escoltar algum corpo, o topo dos mastros estão cobertos de musselina preta.)

Ouço o violoncelo, (é o lamento do coração do jovem,)
ouço a corneta de pistons, ela desliza rapidamente através dos meus ouvidos,
ela agita dores loucas e doces através de meu ventre e minha respiração.

Ouço o coro, é uma grande ópera,
Oh isso é música de verdade — ela me agrada.

Um tenor grande e viçoso como a criação me satisfaz,
a órbita flexível de sua boca derrama-se e me enche.

Ouço a soprano educada (que maravilha de obra é a dela?)
A orquestra me faz rodopiar mais amplo que os habitantes de Urano,
ela arranca tantos ardores que eu nem sabia que tinha,
ela me navega, eu toco de leve com meus pés nus, lambidos por ondas indolentes,
sou ferido por saudações amargas e raivosas, perco a respiração,
embebido em mel de morfina, minha traqueia asfixiada nos estertores da morte,
por fim, sinta de novo o enigma dos enigmas,
e aquilo a que chamamos Ser.

mario_quintanaO sol se põe na linha do horizonte. A escuridão pouco a pouco invade a terra. No risco distante do poente vê-se apenas um clarão. Olhando para trás, o escuro da noite parece encobrir a cidade, menos os prédios mais altos, ainda tocados pela claridade do sol. Tenho para mim que nossos poetas, nossos grandes escritores são como prédios iluminados ao cair da tarde. Num mundo rodeado por sombras cada vez maiores, eles refletem certos raios da luz do Sol. Assim é que vejo a poesia de Mário Quintana.

O poeta tem os olhos abertos para a beleza, e nada escapa ao seu foco preciso. No seu livro Baú de Espantos, ele vai mostrando a cada poema a extraordinária beleza das coisas corriqueiras, a sacralidade e o mistério das coisas banais e cotidianas. Nas entrelinhas de seus versos é possível perceber sinais da presença do divino, não uma presença pesada ou indiscutível como um livro de doutrina, mas movente como as águas de um rio.

Na poética quintaneira, a palavra “espanto” expressa a capacidade humana de maravilhar-se diante da vida e do mundo. O poeta é alguém que não cansa de surpreender-se. E sua grande tarefa consiste em nos ensinar a lição do maravilhar-se perante as pessoas, perante as palavras e perante as coisas. Esse maravilhar-se inclui um tanto de estranhamento em relação ao mundo moderno e seus aparatos tecnológicos e produtos de massa, como música pop ou novelas de TV. Inclui também um tanto de contemplação e percepção da singularidade das pessoas e do mundo natural, como a leveza das nuvens, a força dos ventos, a sinuosidade dos rios ou o “[f]rescor agradecido de capim molhado como alguém que chorou e depois sentiu uma grande, uma quase envergonhada alegria por ter a vida continuado….”.

Alguns poemas de Quintana mostram como é tênue e tenso o limite entre o tempo e a eternidade, a morte e a vida. No poema “O Olhar”, Quintana mostra o quanto “[o] olhar do poeta é como o olhar de um condenado… como o olhar de Deus…”. É que “[o] último olhar do condenado é nítido como uma fotografia: vê até a pequenina formiga que sobe acaso pelo rude braço do verdugo, vê o frêmito da última folha no alto daquela árvore, além…”. O olhar da finitude nos permite ver as coisas como são, em sua temporalidade, em sua fugacidade. A consciência da mortalidade nos faz abrir os olhos para a realidade do mundo em seu mais duro e claro contorno.

É também muito nítido o olhar que Deus tem das coisas criadas, Ele que as vê a partir da Sua eternidade e pleno conhecimento. Mas esse saber divino tem a delicadeza de um olhar e ao mesmo tempo um postergar sempre o fim. É assim que, de maneira irreverente, o poeta vai mostrando o quanto a eternidade de Deus está ligada à sua capacidade para “deixar tudo para depois”, adiar o fim das coisas. E ele completa: “Só é verdadeiramente vida a que tem um inquieto depois!”.

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QUINTANA, Mário. Baú de Espantos. 2. ed. São Paulo: Globo 2006.

 

QUINTANA, Mário. O Olhar. Disponível em: <http://www.umdiadepoesia.com.br/o-olhar/>. Acessad em 30 nov 15.

baquaqua

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Você não espera que alguém da minha raça,

Com cabelos encaracolados e rosto negro,

E com um pequeno raio de saber,

Chame a atenção de seus amigos no colégio.

Mas, farei o melhor que puder

Para provar que quero ser um homem.

É verdade, que meu corpo traz as marcas das correntes,

É verdade que minhas costas trazem as cicatrizes das chicotadas,

Mas não é verdade que o poder do tirano

Jamais tenha feito de meu coração um covarde.

Não! Ele é livre como quando eu brincava

À sobra das palmeiras de minha terra natal.

 

Oh! África, minha terra natal,

Quando irei te ver, humildemente postada,

Sob a bandeira de meu Deus,

E governada por Sua Santa Palavra?

Quando irei ver a vara dos opressores

Ser tirada de suas mãos, meu gracioso Deus?

Oh! Quando verei meus irmãos

Desfrutarem da doçura da LIBERDADE?

 

Amigos dos escravos oprimidos e ensanguentados,

Peçam a Deus por piedade! Que Deus nos salve!!

Pois toda a ajuda dos homens é vã,

Pois o homem ao homem forjou cadeias.

Oh, Pai da Justiça, tu és justo,

Olho para ti, em ti confio;

Oh, que teu espírito gracioso atenda

Ao gemido dos africanos, às orações dos africanos,

Junto ao teu puro trono nos céus,

Onde tudo é alegria e paz e amor,

Por Jesus, Oh! salva o oprimido,

E que suas almas encontrem paz nos céus.

 

(Mohammah Gardo Baquaqua, 1854).

 

 

 

portinari - grupo

Portinari – “Grupo” (1958)

Imagina!

 

Se é pura verdade o que diz Benedict Anderson sobre o caráter imaginário de nossa identidade nacional e se Darcy Ribeiro acertou quando disse que “a coisa mais importante para o brasileiro era inventar o Brasil”, então quero imaginar um país e colaborar para a sua invenção. Trata-se de um exercício de imaginação coletiva, um trabalho participativo e diário de construção e reconstrução.

Neste país como possibilidade a se concretizar, será possível ouvir de novo, e sempre, a voz do velho Lua a cantar aboios e a sorrir sanfonas celebrando o fim da seca no sertão, a volta do retirante e da asa branca com saudade da beleza e da alegria que só a chuva traz. Neste país imaginário, a canção de Antônio Brasileiro será a trilha sonora que chamará os pássaros de volta para as florestas que, finalmente, foram preservadas e reconhecidas como santuário de nossa vida natural.

Nas ruas de Brodowski se ouvirá o som do autofalante chamando o povo para assistir ao grande espetáculo do novo circo que acabou de chegar. E as crianças sairão correndo para ver os palhaços e trapezistas. E Portinari, entre elas, encherá de azul uma país feito de trabalho e brinquedo, balanço, gangorra, violões, frevos, sambas, vaqueiros, garimpeiros e jangadeiros do Nordeste e trabalhadores nas plantações de café.

Os traços suaves e flutuantes de Oscar Niemeyer nos ajudarão a reconstruir cidades agora transformadas em ruína pelo risco implacável da injustiça, pelo rabisco apressado da ambição e da mentira. E imaginaremos Brasília em que a pérola será o entorno, a periferia, em que a beleza será satélite da arquitetura justa e sensível de uma nação reinventada.

E para garantir que não haverá falta de imaginação e literatura neste Brasil que certamente construiremos, será reservado um espaço privilegiado no coreto da praça para que Mário de Andrade leia, em tom apaixonado, o manifesto antropofágico que um dia ouviu da boca do seu amigo Oswald. E em sua voz soarão as vozes de tantos povos indígenas há tanto tempo silenciados, e se ouvirão caiporas e sacis e macunaímas todos a procurar a pedra de muiraquitã, aquilo que um dia sabíamos ser e que afinal perdemos de vista.

Neste país, Guimarães Rosa nos mostrará o que é sertão e quantas veredas o atravessam, e quantos enredos se desenrolam nos fios da sua narrativa, da palavra que se debate diante do inefável, da narrativa que desemboca no silêncio dos caminhos e dos rios, do coração humano que se pega a cismar com o infinito. E Rosa dirá que, assim como Minas Gerais, o Brasil são muitos.

Sim, são muitos os brasis que temos sonhado coletivamente, algumas imagens perturbadoras nos falam de desmatamentos, chacinas, desigualdades tantas, corrupção e desmando, quadros que revelam nosso vício do “jeitinho”, nossa cultura do favor, nosso endividamento moral, nossa miséria, enfim. É como se várias músicas fossem tocadas ao mesmo tempo pela mesma orquestra confusa e desafinada. É como se várias sinfonias se iniciassem ao mesmo tempo, e o maestro, desconcertado, pusesse a mão nos cabelos e perguntasse: “Que faremos deste país?”

Vivemos agora este momento em que paramos todos para pensar que música tocaremos, que obra imaginaremos juntos. Ladrões não fazem um país. Assassinos não têm pátria nem compatriotas. Mercenários não estão em busca do que somos, mas do que temos a fim de vendê-lo ao que não somos e, fazendo assim, roubar a pedra preciosa de nossa identidade. Este é o momento de encarar nossa estranha contradição e de celebrar, com humildade e esperança, a possibilidade da reconstrução de um país pelo uso de nossa imaginação democrática.

 

Gladir Cabral

 

Confira:

 

Site com a obra de Portinari: http://www.portinari.org.br/

 

Filme “As Sanfonas do Lua”: https://www.youtube.com/watch?v=54UpU1tsdn0

 

Documentário “O Povo Brasileiro”: https://www.youtube.com/watch?v=eqlcHGj4f7k