paul-dunbar2Paul Laurence Dunbar (1872-1906) foi o primeiro grande escritor negro a ser reconhecido nos Estados Unidos e na Inglaterra. Na aula de Literatura Norte-Americana de hoje na Unesc, lemos juntos e comentamos este poema: “We Wear the Mask” (Nós usamos a máscara). Este é um poema que fala de preconceito e exclusão. Fala da estratégia do poeta de esconder sua verdadeira identidade a fim de proteger sua vida. Em tempos de racismo solto, de preconceitos vários, o poema continua fazendo sentido.

 

Eis aqui uma tentativa de tradução:

 

“Usamos a Máscara”

 

 .
Usamos a máscara que sorri e mente,
Ela esconde nosso rosto e sombreia nossos olhos,—
Pagamos esse preço da malícia humana;
Com coração quebrantado e sangrando, sorrimos,
E a boca cheia de miríades de sutilezas.
.
Por que deveria o mundo saber de tudo,
Ao saber de todas as nossas lágrimas e suspiros?
Não, que eles apenas nos vejam enquanto
       Usamos a máscara.
.
Sorrimos, mas, ó grande Cristo, nossos clamores
A ti brotam de almas torturadas.
Cantamos, mas a lama é vil
Sob nossos pés, e longa é a milha;
Mas que o mundo sonhe outra coisa,
       Nós usamos a máscara!

 

 

botticelli_annunciazione_di_cestello_02O poeta Mário Quintana era apreciador de toda sorte de arte: cinema, música, teatro, pintura. Em seu breve poema intitulado “If…”, faz uma homenagem a um belíssimo quadro de Sandro Botticelli: “Anunciação de Cestello”. Pode-se dizer que é uma breve análise do quadro em forma de poesia.

 

If…

 

E até hoje não me esqueci

Do Anjo da Anunciação no quadro de Botticelli:

Como pode alguém

Apresentar-se ao mesmo tempo tão humilde e cheio de tamanha dignidade?

Oh! tão soberanamente inclinado…

Se pudéssemos ser como ele!

Os Anjos dão tudo de si

Sem jamais se despirem de nada.

 

— Mário Quintana

nmb

 

No último mês de agosto ocorreu no acampamento Jovens da Verdade, em Arujá (SP), a décima edição do “Nossa Música Brasileira” (NMB), um encontro que contemplou não apenas a linguagem musical, mas também o teatro, a poesia, a fotografia e a pintura. Tendo participado de diversas edições anteriores, acompanho com expectativa e alegria cada novo encontro. Quero falar neste espaço da importância do evento para a música brasileira, em primeiro lugar, e para a música cristã

João Alexandre canta no NMB. Foto: David Vieira

João Alexandre canta no NMB. Foto: David Vieira

brasileira em particular. Desejo apontar aqui seis razões pelas quais considero, esse evento, da mais alta importância para a igreja brasileira.

 

1. Uma comunidade de artistas e amantes da arte

O NMB tem a capacidade de criar uma comunidade viva de artistas e apreciadores da arte vindos de várias partes do Brasil, com representantes do Sudeste, Sul, Norte, Nordeste e Centro-oeste do país. Esses artistas e amantes da arte se conhecem, criam vínculo, trocam experiências e repartem seus dons e talentos. A arte cristã nasce assim, da experiência e da vida em comunidade, do coletivo de nossas existências. Dessa maneira o NMB tem provado que a arte cristã não nasce da genialidade de um artista solitário trancafiado em sua torre, mas do povo que tem coração aberto, mente sensível e mãos dispostas a escrever novos acordes, novos poemas.

 

2. Um espaço para reflexão estética e teológica

O NMB também tem se configurado como um evento que produz reflexão crítica e profunda sobre a fé cristã e o seu vínculo com a arte, a cultura e a sociedade humana. Já houve edições em que foi possível refletir sobre a imaginação e a fé cristã, a arte cristã e o mundo moderno (e também pós-moderno), arte e teologia, música cristã contemporânea e cultura de massa, música cristã e cultura gospel, e a história da música evangélica no Brasil. Temos tido sempre a colaboração de teólogos, missionários, pastores e mestres que tomam a dianteira na tarefa de pensar a música e a cultura brasileira a partir da graça tão bela trazida pelo evangelho.

 

3. Um chão fecundo para a criatividade

Teatro: Rafael Damata. Foto: Cris Tozzi.

Teatro: Rafael Damata. Foto: Cris Tozzi.

O NMB tem se constituído como lugar para o exercício da criatividade e como celeiro de inspiração para novos projetos artísticos e culturais, novas ideias para novas canções. Posso dizer que, no meu caso, o CD “Mil Caminhadas” nasceu ali, numa conversa entre amigos. Sem os desafios dos amigos, sem o chamado para criar, certamente não haveria como seguir adiante. Ali pude apresentar pela primeira vez canções como “Pasárgada”, “Alhambra”, “O Cartola Falou” e muitas outras que nasceram de projetos começados ou partilhados ali. A partir dos encontros do NMB, muitas novas parcerias surgiram e estão surgindo, ligando o Brasil de Norte a Sul. Um traz um verso, outro a melodia, um terceiro escreve uma estrofe e mais um outro parceiro escreve o coro.

 

4. Uma experiência de comunhão e de convivência com o diferente

O NMB também tem oportunizado a superação das diferenças denominacionais e a experiência de uma dimensão mais ecumênica da nossa fé cristã, sem que as pessoas tenham de abrir mão de suas convicções teológicas ou mesmo debatê-las. O que importa ali é a troca de sensibilidades, o aprendizado mútuo, a aceitação do outro na sua peculiaridade, na sua singularidade. Presbiterianos, batistas, congregacionais, metodistas, anglicanos, cristãos de tradições diferentes, porém unidos no desejo de fazer arte para a glória do Senhor.

 

Arte visual: Marcelo Bittencourt; Foto: Cris Tozzi de Deus

Arte visual: Marcelo Bittencourt; Foto: Cris Tozzi de Deus

5. Um lugar para se plantar música do Brasil

O NMB é também importante como chamamento para a riqueza da cultura brasileira e para o desafio do diálogo com o nosso povo. Isso não torna o movimento da música cri

stã contemporânea fechado em termos de gênero musical ou estilo, pelo contrário. O NMB não quer fazer MPB em seu sentido restrito e limitado, mas música que leve em conta a peculiaridade de nossa cultura brasileira, as diferenças regionais, a diversidade de estilos, sotaques, ritmos, a mescla e o diálogo com gêneros musicais produzidos em outros países, como a música folk americana, os hinos evangélicos tradicionais, o blues e até mesmo o rock. Afinal, mesmo sendo rock, é o nosso rock, o nosso jeito de tocar guitarra e soltar a voz, a nossa realidade sendo exposta e problematizada através da música.

 

 

6. Um celeiro para o surgimento de novos talentos

O NMB tem revelado inúmeros talentos ao longo de sua história. Nesta última edição, por exemplo, foi gratificante conhecer o jovem violonista Manoel Lopes, que veio sozinho de São Luís do Maranhão e, sem avisar ninguém, encantou a todos e logo estava no palco compartilhando sua voz e sua arte. Rolando Boldrin cunhou a expressão “Vamos tirar o Brasil da gaveta” para apresentar ao público artistas que estavam até então escondidos pelos quatro cantos do Brasil. Em certo sentido, é isso também o que o NMB faz ao fazer conhecer gente jovem e às vezes nem tão jovem assim (!) que escreve, canta, desenha e dança o Brasil.

 

EM VÍDEO
Confira um resumo de como foi o Nossa Música Brasileira Nº 10:

hiroshimaEsta carta foi escrita por um grupo de meninas sobreviventes do bombardeio de Hiroshima e endereçada ao senhor Claude Robert Eatherly, oficial das forças armadas norte-americanas e piloto de um dos aviões que deu suporte ao bombardeiro Enola Gay, que lançou a bomba atômica sobre a cidade de Hiroshima em 6 de agosto de 1945.

 

Das Meninas de Hiroshima a Claude Eatherly

24 de julho de 1959.

 

Prezado senhor,

 

Nós, abaixo assinadas, meninas de Hiroshima, enviamos a você nossos calorosos cumprimentos.

 

Somos todas meninas que felizmente escaparam da morte, mas receberam ferimentos em nossos rostos, membros e corpos por causa da bomba atômica que foi lançada sobre a cidade de Hiroshima na última guerra.  Temos cicatrizes ou marcas de ferimentos em nossas faces e membros e gostaríamos muito que aquela coisa horrível chamada ‘guerra’ jamais acontecesse novamente nem para nós nem para qualquer pessoa viva neste mundo. Agora recentemente ouvidos que você tem sido atormentado por um senso de culpa após o incidente de Hiroshima e que, por causa disso, você foi hospitalizado para tratamento mental. Esta carta está sendo enviada a você para assegurá-lo de que agora não abrigamos nenhum sentimento de inimizade a você pessoalmente. Talvez você tenha recebido ordens para fazer o que fez, ou talvez pensasse que iria ajudar as pessoas acabando com a guerra. Mas você sabe que bombas não acabam com guerras nesta Terra. Temos sido tratadas com grande amabilidade pelo povo cristão (Quakers) na América. Temos aprendido a sentir por você um sentimento de simpatia, pensando que você também é uma vítima da guerra, como nós. Esperamos que você logo se recupere completamente e decida se unir àqueles que estão engajados na boa obra de abolir essa coisa bárbara chamada ‘guerra’ por meio do espírito de fraternidade.

 

Com nossas calorosas saudações,

 

Atenciosamente,

 

Hideko Sumimura

Sayoko Komatsu

Chieko Komura

Tadako Emori

Motoko Yamashita

Keiko Kawasaki

Miyoko Katsubara

Tazuko Shibata

Mitsuko Kodama

Chizuko Suzuki

AtsukoTada

Misako Kannabe

Michiyo Zomen

Hiroko Task

Toyoko Yamanaka

Shigeko Miimoto

Yoshie Enokawa

Michiko Yamaoka

Masako Wada

Arden T. T. Yamanaka

Yasuko Sima

Hisaomi Watanabe

Suzue Hiyama

Emiko Takemoto

Shigeko Hara

Hatsue Inoue

Yukiko Okita

Ruriko Funatsu

Yoshie Kihara

Sachiko Kawamata

 

[fonte: Burning Conscience: the Case of the Hiroshima Pilot]

EU SOU AQUELE
(Mário Quintana)

Eu sou aquele que, estando sentado a uma janela,
a ouvir o Apóstolo das Gentes,
adormeci e caí do alto dela.
Nem sei mais se morri ou fui miraculado:

Consultai os Textos, no lugar competente
o que importa é que o Deus que eu tanto ansiava
como uma luz que se acendesse de repente,
era-me vestido com palavras e mais palavras

e cada palavra tinha o seu sentido…
Como as entenderia eu tão pobre de espírito
como era simples de coração?

E pouco a pouco se fecharam os meus olhos…
e eu cada vez mais longe… no acalanto
de uma quase esquecida canção…

[gravura de Alison Lambert, 2011]

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Öèôðîâàÿ ðåïðîäóêöèÿ íàõîäèòñÿ â èíòåðíåò-ìóçåå Gallerix.ru

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Em seu ensaio sobre a importância da leitura dos clássicos da literatura, Italo Calvino afirma, entre várias teses, que “[u]m clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. A obra Don Quixote, de Miguel de Cervantes, confirma plenamente essa afirmação. Passados mais de 400 anos de sua publicação, o livro continua falando coisas, dialogando com seus leitores, provocando risos e reflexões sobre a realidade e a vida.

Entre os tantos temas que obra desenvolve, Don Quixote de la Mancha trata do fenômeno da leitura e de sua prática na sociedade humana. Documento importante sobre a história da leitura, a obra fala da aceitação literatura popular no período renascentista. Entre os vários gêneros literários que se tornaram populares na época, estão os romances de cavalaria, resquícios e sonhos de um mundo medieval que naquela altura já não eram mais possíveis. A obra de Cervantes celebra essa tradição, ao mesmo tempo em que a ironiza e a revisa. Em várias passagens do livro, discute-se se o papel da literatura seria apenas “deleitar” ou “ensinar”. Cruzando dualismos reducionistas, Cervantes mostra que, a partir de um gênero popular, é possível propor questões profundas sobre a vida e a arte.

Outro aspecto interessante do livro é que ele propõe uma discussão sobre ficção e realidade, sugerindo que a literatura permite o desvelamento do caráter ficcional da realidade. Ao abandonar sua cômoda (e medíocre) realidade para buscar a as aventuras de um cavaleiro andante, Don Quixote deseja intensamente ressignificar sua vida. Por das leituras em sua vasta biblioteca, ele reconstrói sua identidade. Vida é narrativa, é história que se conta e que se tece no dia a dia. Momento crítico é aquele em que o herói é derrotado em seu próprio mundo ficcional. Desenganado, recupera a sua sanidade ao final da história, volta à razão para, simplesmente, morrer e enfim adentrar os portais da realidade perante a qual tudo o mais é sonho.

Esse é um livro sobre a condição humana, sua fragilidade total, sua busca incessante por significado e ventura, sua situação ridícula e ao mesmo tempo admirável, sua nobreza e seu desvario. Sobressalta aos olhos a incompletude da existência, o modo como o herói precisa de Sancho Pança, seu fiel escudeiro, a tal ponto que é impossível conceber Don Quixote sem Sancho Pança. O idealismo do “cavaleiro da triste figura” precisa ardentemente da sobriedade simples e chã de Sancho Pança. Isso aponta para o caráter dialogal da vida humana. Somos feitos para o outro, em cooperação com o outro. Somos seres feitos para a relação, para o relacionamento.

Ao final, o herói que volta de suas aventuras não é o mesmo que saiu. Chegando à sua pequena vila de La Mancha, Don Quixote, “derrotado pelos braços dos outros, retorna vencedor de si mesmo” (Quixote, p. 993). Assim o “desocupado leitor” da obra de Cervantes chega ao final da leitura transformado, diferente do que era quando começou as primeiras linhas.

Quando comecei a me interessar pelas práticas da oração contemplativa, lá pelos anos de 1987, compartilhei algumas das minhas descobertas e leituras com um amigo. Ele não me pareceu muito interessado e, na verdade, até mesmo mostrou-se desconfiado de que a vida contemplativa seria sintoma ou sinal de alienação, de fuga das questões da realidade. Nada mais equivocado. A vida de oração contemplativa é um mergulho fundo no coração da realidade, tanto material quanto física, psicológica, social, mas fundamentalmente espiritual.

Thomas Merton enfrentou os mesmos dilemas em relação às suas horas de oração e silêncio, afinal rondava-o sempre o velho ditado que diz: “Quem cala, consente”. Calar-se, diante de um mundo violento e desigual, seria o mesmo que aceitar as coisas como são. Merton reage a esse equívoco.

Em seu diário, no dia  3 de março de 1964, ele escreve:

 

Não há consolação, só futilidade, na ideia de que alguém é mártir de alguma causa. Não sou mártir de coisa alguma. Estou com medo. Eu quis agir como um cristão sensato, civilizado e responsável do meu tempo. Não tenho permissão para fazer isso. Dizem-me que renunciei a isso — tudo bem. Em favor do quê? Em favor de um silêncio que está em profunda e completa cumplicidade com as forças que exercem opressão, injustiça, agressão, exploração, guerra. Em outras palavras, a cumplicidade silenciosa é apresentada com um “bem maior” do que o protesto honesto e consciencioso — supostamente ele é parte de meus votos, para a “glória de Deus”. Certamente, recuso-me a ser cúmplice. Meu silêncio é em si mesmo um protesto, e aqueles que me conhecem estão conscientes desse fato. Pelo menos tenho conseguido escrever o suficiente para tornar isso claro. Eu também não posso sair daqui para protestar, pois o sentido de qualquer protesto depende do meu estar aqui. De qualquer modo, Estou definitivamente “silenciado” sobre a questão da guerra nuclear.

 

merton