Quintana e Botticelli

botticelli_annunciazione_di_cestello_02O poeta Mário Quintana era apreciador de toda sorte de arte: cinema, música, teatro, pintura. Em seu breve poema intitulado “If…”, faz uma homenagem a um belíssimo quadro de Sandro Botticelli: “Anunciação de Cestello”. Pode-se dizer que é uma breve análise do quadro em forma de poesia.

 

If…

 

E até hoje não me esqueci

Do Anjo da Anunciação no quadro de Botticelli:

Como pode alguém

Apresentar-se ao mesmo tempo tão humilde e cheio de tamanha dignidade?

Oh! tão soberanamente inclinado…

Se pudéssemos ser como ele!

Os Anjos dão tudo de si

Sem jamais se despirem de nada.

 

— Mário Quintana

Eu sou aquele

EU SOU AQUELE
(Mário Quintana)

Eu sou aquele que, estando sentado a uma janela,
a ouvir o Apóstolo das Gentes,
adormeci e caí do alto dela.
Nem sei mais se morri ou fui miraculado:

Consultai os Textos, no lugar competente
o que importa é que o Deus que eu tanto ansiava
como uma luz que se acendesse de repente,
era-me vestido com palavras e mais palavras

e cada palavra tinha o seu sentido…
Como as entenderia eu tão pobre de espírito
como era simples de coração?

E pouco a pouco se fecharam os meus olhos…
e eu cada vez mais longe… no acalanto
de uma quase esquecida canção…

[gravura de Alison Lambert, 2011]

lambert_eutychus_2011

O exercício da leitura em Don Quixote

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Em seu ensaio sobre a importância da leitura dos clássicos da literatura, Italo Calvino afirma, entre várias teses, que “[u]m clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. A obra Don Quixote, de Miguel de Cervantes, confirma plenamente essa afirmação. Passados mais de 400 anos de sua publicação, o livro continua falando coisas, dialogando com seus leitores, provocando risos e reflexões sobre a realidade e a vida.

Entre os tantos temas que obra desenvolve, Don Quixote de la Mancha trata do fenômeno da leitura e de sua prática na sociedade humana. Documento importante sobre a história da leitura, a obra fala da aceitação literatura popular no período renascentista. Entre os vários gêneros literários que se tornaram populares na época, estão os romances de cavalaria, resquícios e sonhos de um mundo medieval que naquela altura já não eram mais possíveis. A obra de Cervantes celebra essa tradição, ao mesmo tempo em que a ironiza e a revisa. Em várias passagens do livro, discute-se se o papel da literatura seria apenas “deleitar” ou “ensinar”. Cruzando dualismos reducionistas, Cervantes mostra que, a partir de um gênero popular, é possível propor questões profundas sobre a vida e a arte.

Outro aspecto interessante do livro é que ele propõe uma discussão sobre ficção e realidade, sugerindo que a literatura permite o desvelamento do caráter ficcional da realidade. Ao abandonar sua cômoda (e medíocre) realidade para buscar a as aventuras de um cavaleiro andante, Don Quixote deseja intensamente ressignificar sua vida. Por das leituras em sua vasta biblioteca, ele reconstrói sua identidade. Vida é narrativa, é história que se conta e que se tece no dia a dia. Momento crítico é aquele em que o herói é derrotado em seu próprio mundo ficcional. Desenganado, recupera a sua sanidade ao final da história, volta à razão para, simplesmente, morrer e enfim adentrar os portais da realidade perante a qual tudo o mais é sonho.

Esse é um livro sobre a condição humana, sua fragilidade total, sua busca incessante por significado e ventura, sua situação ridícula e ao mesmo tempo admirável, sua nobreza e seu desvario. Sobressalta aos olhos a incompletude da existência, o modo como o herói precisa de Sancho Pança, seu fiel escudeiro, a tal ponto que é impossível conceber Don Quixote sem Sancho Pança. O idealismo do “cavaleiro da triste figura” precisa ardentemente da sobriedade simples e chã de Sancho Pança. Isso aponta para o caráter dialogal da vida humana. Somos feitos para o outro, em cooperação com o outro. Somos seres feitos para a relação, para o relacionamento.

Ao final, o herói que volta de suas aventuras não é o mesmo que saiu. Chegando à sua pequena vila de La Mancha, Don Quixote, “derrotado pelos braços dos outros, retorna vencedor de si mesmo” (Quixote, p. 993). Assim o “desocupado leitor” da obra de Cervantes chega ao final da leitura transformado, diferente do que era quando começou as primeiras linhas.

Aprendendo a ouvir

walt-whitman-1887-dana-kellerFragmento de uma das obras mais importantes de Walt Whitman: “Leaves of Grass”. Uma tradução imperfeita, mas inevitável.

Agora não faço mais nada, só ouço,
Para verter o que ouço nesta canção, para deixar os sons contribuírem com ela.

Ouço bravuras de pássaros, alvoroço de trigo crescendo, murmúrio de chamas,
estalido de gravetos cozinhando meus alimentos,
ouço o som que amo, o som da voz humana,
ouço todos os sons correndo juntos, combinados, fundidos ou em sequência,
sons da cidade e sons de fora da cidade, sons do dia e da noite,
jovens falantes para aqueles que gostam deles, a risada ruidosa dos trabalhadores em sua refeição,
o grupo enraivecido de amigos dispersos, os tons tênues dos enfermos,
o juiz com suas mãos agarradas à mesa, seus lábios pálidos pronunciando a sentença de morte,
o movimento dos estivadores descarregando navios nos ancoradouros, o refrão dos içadores de âncoras,
o som dos sinos de alarmes, o ronco dos motores velozes e dos carros de bombeiro cheios de tilintares de alerta e luzes coloridas,
o apito do vapor, a rolagem sólida do comboio de carros que se aproximam,
a marcha lenta tocada na mente do povo marchando dois a dois,
(eles vão escoltar algum corpo, o topo dos mastros estão cobertos de musselina preta.)

Ouço o violoncelo, (é o lamento do coração do jovem,)
ouço a corneta de pistons, ela desliza rapidamente através dos meus ouvidos,
ela agita dores loucas e doces através de meu ventre e minha respiração.

Ouço o coro, é uma grande ópera,
Oh isso é música de verdade — ela me agrada.

Um tenor grande e viçoso como a criação me satisfaz,
a órbita flexível de sua boca derrama-se e me enche.

Ouço a soprano educada (que maravilha de obra é a dela?)
A orquestra me faz rodopiar mais amplo que os habitantes de Urano,
ela arranca tantos ardores que eu nem sabia que tinha,
ela me navega, eu toco de leve com meus pés nus, lambidos por ondas indolentes,
sou ferido por saudações amargas e raivosas, perco a respiração,
embebido em mel de morfina, minha traqueia asfixiada nos estertores da morte,
por fim, sinta de novo o enigma dos enigmas,
e aquilo a que chamamos Ser.