O exercício da leitura em Don Quixote

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Em seu ensaio sobre a importância da leitura dos clássicos da literatura, Italo Calvino afirma, entre várias teses, que “[u]m clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. A obra Don Quixote, de Miguel de Cervantes, confirma plenamente essa afirmação. Passados mais de 400 anos de sua publicação, o livro continua falando coisas, dialogando com seus leitores, provocando risos e reflexões sobre a realidade e a vida.

Entre os tantos temas que obra desenvolve, Don Quixote de la Mancha trata do fenômeno da leitura e de sua prática na sociedade humana. Documento importante sobre a história da leitura, a obra fala da aceitação literatura popular no período renascentista. Entre os vários gêneros literários que se tornaram populares na época, estão os romances de cavalaria, resquícios e sonhos de um mundo medieval que naquela altura já não eram mais possíveis. A obra de Cervantes celebra essa tradição, ao mesmo tempo em que a ironiza e a revisa. Em várias passagens do livro, discute-se se o papel da literatura seria apenas “deleitar” ou “ensinar”. Cruzando dualismos reducionistas, Cervantes mostra que, a partir de um gênero popular, é possível propor questões profundas sobre a vida e a arte.

Outro aspecto interessante do livro é que ele propõe uma discussão sobre ficção e realidade, sugerindo que a literatura permite o desvelamento do caráter ficcional da realidade. Ao abandonar sua cômoda (e medíocre) realidade para buscar a as aventuras de um cavaleiro andante, Don Quixote deseja intensamente ressignificar sua vida. Por das leituras em sua vasta biblioteca, ele reconstrói sua identidade. Vida é narrativa, é história que se conta e que se tece no dia a dia. Momento crítico é aquele em que o herói é derrotado em seu próprio mundo ficcional. Desenganado, recupera a sua sanidade ao final da história, volta à razão para, simplesmente, morrer e enfim adentrar os portais da realidade perante a qual tudo o mais é sonho.

Esse é um livro sobre a condição humana, sua fragilidade total, sua busca incessante por significado e ventura, sua situação ridícula e ao mesmo tempo admirável, sua nobreza e seu desvario. Sobressalta aos olhos a incompletude da existência, o modo como o herói precisa de Sancho Pança, seu fiel escudeiro, a tal ponto que é impossível conceber Don Quixote sem Sancho Pança. O idealismo do “cavaleiro da triste figura” precisa ardentemente da sobriedade simples e chã de Sancho Pança. Isso aponta para o caráter dialogal da vida humana. Somos feitos para o outro, em cooperação com o outro. Somos seres feitos para a relação, para o relacionamento.

Ao final, o herói que volta de suas aventuras não é o mesmo que saiu. Chegando à sua pequena vila de La Mancha, Don Quixote, “derrotado pelos braços dos outros, retorna vencedor de si mesmo” (Quixote, p. 993). Assim o “desocupado leitor” da obra de Cervantes chega ao final da leitura transformado, diferente do que era quando começou as primeiras linhas.

Aprendendo a ouvir

walt-whitman-1887-dana-kellerFragmento de uma das obras mais importantes de Walt Whitman: “Leaves of Grass”. Uma tradução imperfeita, mas inevitável.

Agora não faço mais nada, só ouço,
Para verter o que ouço nesta canção, para deixar os sons contribuírem com ela.

Ouço bravuras de pássaros, alvoroço de trigo crescendo, murmúrio de chamas,
estalido de gravetos cozinhando meus alimentos,
ouço o som que amo, o som da voz humana,
ouço todos os sons correndo juntos, combinados, fundidos ou em sequência,
sons da cidade e sons de fora da cidade, sons do dia e da noite,
jovens falantes para aqueles que gostam deles, a risada ruidosa dos trabalhadores em sua refeição,
o grupo enraivecido de amigos dispersos, os tons tênues dos enfermos,
o juiz com suas mãos agarradas à mesa, seus lábios pálidos pronunciando a sentença de morte,
o movimento dos estivadores descarregando navios nos ancoradouros, o refrão dos içadores de âncoras,
o som dos sinos de alarmes, o ronco dos motores velozes e dos carros de bombeiro cheios de tilintares de alerta e luzes coloridas,
o apito do vapor, a rolagem sólida do comboio de carros que se aproximam,
a marcha lenta tocada na mente do povo marchando dois a dois,
(eles vão escoltar algum corpo, o topo dos mastros estão cobertos de musselina preta.)

Ouço o violoncelo, (é o lamento do coração do jovem,)
ouço a corneta de pistons, ela desliza rapidamente através dos meus ouvidos,
ela agita dores loucas e doces através de meu ventre e minha respiração.

Ouço o coro, é uma grande ópera,
Oh isso é música de verdade — ela me agrada.

Um tenor grande e viçoso como a criação me satisfaz,
a órbita flexível de sua boca derrama-se e me enche.

Ouço a soprano educada (que maravilha de obra é a dela?)
A orquestra me faz rodopiar mais amplo que os habitantes de Urano,
ela arranca tantos ardores que eu nem sabia que tinha,
ela me navega, eu toco de leve com meus pés nus, lambidos por ondas indolentes,
sou ferido por saudações amargas e raivosas, perco a respiração,
embebido em mel de morfina, minha traqueia asfixiada nos estertores da morte,
por fim, sinta de novo o enigma dos enigmas,
e aquilo a que chamamos Ser.

A cegueira iluminada de Quintana

mario_quintanaO sol se põe na linha do horizonte. A escuridão pouco a pouco invade a terra. No risco distante do poente vê-se apenas um clarão. Olhando para trás, o escuro da noite parece encobrir a cidade, menos os prédios mais altos, ainda tocados pela claridade do sol. Tenho para mim que nossos poetas, nossos grandes escritores são como prédios iluminados ao cair da tarde. Num mundo rodeado por sombras cada vez maiores, eles refletem certos raios da luz do Sol. Assim é que vejo a poesia de Mário Quintana.

O poeta tem os olhos abertos para a beleza, e nada escapa ao seu foco preciso. No seu livro Baú de Espantos, ele vai mostrando a cada poema a extraordinária beleza das coisas corriqueiras, a sacralidade e o mistério das coisas banais e cotidianas. Nas entrelinhas de seus versos é possível perceber sinais da presença do divino, não uma presença pesada ou indiscutível como um livro de doutrina, mas movente como as águas de um rio.

Na poética quintaneira, a palavra “espanto” expressa a capacidade humana de maravilhar-se diante da vida e do mundo. O poeta é alguém que não cansa de surpreender-se. E sua grande tarefa consiste em nos ensinar a lição do maravilhar-se perante as pessoas, perante as palavras e perante as coisas. Esse maravilhar-se inclui um tanto de estranhamento em relação ao mundo moderno e seus aparatos tecnológicos e produtos de massa, como música pop ou novelas de TV. Inclui também um tanto de contemplação e percepção da singularidade das pessoas e do mundo natural, como a leveza das nuvens, a força dos ventos, a sinuosidade dos rios ou o “[f]rescor agradecido de capim molhado como alguém que chorou e depois sentiu uma grande, uma quase envergonhada alegria por ter a vida continuado….”.

Alguns poemas de Quintana mostram como é tênue e tenso o limite entre o tempo e a eternidade, a morte e a vida. No poema “O Olhar”, Quintana mostra o quanto “[o] olhar do poeta é como o olhar de um condenado… como o olhar de Deus…”. É que “[o] último olhar do condenado é nítido como uma fotografia: vê até a pequenina formiga que sobe acaso pelo rude braço do verdugo, vê o frêmito da última folha no alto daquela árvore, além…”. O olhar da finitude nos permite ver as coisas como são, em sua temporalidade, em sua fugacidade. A consciência da mortalidade nos faz abrir os olhos para a realidade do mundo em seu mais duro e claro contorno.

É também muito nítido o olhar que Deus tem das coisas criadas, Ele que as vê a partir da Sua eternidade e pleno conhecimento. Mas esse saber divino tem a delicadeza de um olhar e ao mesmo tempo um postergar sempre o fim. É assim que, de maneira irreverente, o poeta vai mostrando o quanto a eternidade de Deus está ligada à sua capacidade para “deixar tudo para depois”, adiar o fim das coisas. E ele completa: “Só é verdadeiramente vida a que tem um inquieto depois!”.

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QUINTANA, Mário. Baú de Espantos. 2. ed. São Paulo: Globo 2006.

 

QUINTANA, Mário. O Olhar. Disponível em: <http://www.umdiadepoesia.com.br/o-olhar/>. Acessad em 30 nov 15.

Um poema de Mahommah Baquaqua

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Você não espera que alguém da minha raça,

Com cabelos encaracolados e rosto negro,

E com um pequeno raio de saber,

Chame a atenção de seus amigos no colégio.

Mas, farei o melhor que puder

Para provar que quero ser um homem.

É verdade, que meu corpo traz as marcas das correntes,

É verdade que minhas costas trazem as cicatrizes das chicotadas,

Mas não é verdade que o poder do tirano

Jamais tenha feito de meu coração um covarde.

Não! Ele é livre como quando eu brincava

À sobra das palmeiras de minha terra natal.

 

Oh! África, minha terra natal,

Quando irei te ver, humildemente postada,

Sob a bandeira de meu Deus,

E governada por Sua Santa Palavra?

Quando irei ver a vara dos opressores

Ser tirada de suas mãos, meu gracioso Deus?

Oh! Quando verei meus irmãos

Desfrutarem da doçura da LIBERDADE?

 

Amigos dos escravos oprimidos e ensanguentados,

Peçam a Deus por piedade! Que Deus nos salve!!

Pois toda a ajuda dos homens é vã,

Pois o homem ao homem forjou cadeias.

Oh, Pai da Justiça, tu és justo,

Olho para ti, em ti confio;

Oh, que teu espírito gracioso atenda

Ao gemido dos africanos, às orações dos africanos,

Junto ao teu puro trono nos céus,

Onde tudo é alegria e paz e amor,

Por Jesus, Oh! salva o oprimido,

E que suas almas encontrem paz nos céus.

 

(Mohammah Gardo Baquaqua, 1854).

 

 

 

Imagina!

portinari - grupo

Portinari – “Grupo” (1958)

Imagina!

 

Se é pura verdade o que diz Benedict Anderson sobre o caráter imaginário de nossa identidade nacional e se Darcy Ribeiro acertou quando disse que “a coisa mais importante para o brasileiro era inventar o Brasil”, então quero imaginar um país e colaborar para a sua invenção. Trata-se de um exercício de imaginação coletiva, um trabalho participativo e diário de construção e reconstrução.

Neste país como possibilidade a se concretizar, será possível ouvir de novo, e sempre, a voz do velho Lua a cantar aboios e a sorrir sanfonas celebrando o fim da seca no sertão, a volta do retirante e da asa branca com saudade da beleza e da alegria que só a chuva traz. Neste país imaginário, a canção de Antônio Brasileiro será a trilha sonora que chamará os pássaros de volta para as florestas que, finalmente, foram preservadas e reconhecidas como santuário de nossa vida natural.

Nas ruas de Brodowski se ouvirá o som do autofalante chamando o povo para assistir ao grande espetáculo do novo circo que acabou de chegar. E as crianças sairão correndo para ver os palhaços e trapezistas. E Portinari, entre elas, encherá de azul uma país feito de trabalho e brinquedo, balanço, gangorra, violões, frevos, sambas, vaqueiros, garimpeiros e jangadeiros do Nordeste e trabalhadores nas plantações de café.

Os traços suaves e flutuantes de Oscar Niemeyer nos ajudarão a reconstruir cidades agora transformadas em ruína pelo risco implacável da injustiça, pelo rabisco apressado da ambição e da mentira. E imaginaremos Brasília em que a pérola será o entorno, a periferia, em que a beleza será satélite da arquitetura justa e sensível de uma nação reinventada.

E para garantir que não haverá falta de imaginação e literatura neste Brasil que certamente construiremos, será reservado um espaço privilegiado no coreto da praça para que Mário de Andrade leia, em tom apaixonado, o manifesto antropofágico que um dia ouviu da boca do seu amigo Oswald. E em sua voz soarão as vozes de tantos povos indígenas há tanto tempo silenciados, e se ouvirão caiporas e sacis e macunaímas todos a procurar a pedra de muiraquitã, aquilo que um dia sabíamos ser e que afinal perdemos de vista.

Neste país, Guimarães Rosa nos mostrará o que é sertão e quantas veredas o atravessam, e quantos enredos se desenrolam nos fios da sua narrativa, da palavra que se debate diante do inefável, da narrativa que desemboca no silêncio dos caminhos e dos rios, do coração humano que se pega a cismar com o infinito. E Rosa dirá que, assim como Minas Gerais, o Brasil são muitos.

Sim, são muitos os brasis que temos sonhado coletivamente, algumas imagens perturbadoras nos falam de desmatamentos, chacinas, desigualdades tantas, corrupção e desmando, quadros que revelam nosso vício do “jeitinho”, nossa cultura do favor, nosso endividamento moral, nossa miséria, enfim. É como se várias músicas fossem tocadas ao mesmo tempo pela mesma orquestra confusa e desafinada. É como se várias sinfonias se iniciassem ao mesmo tempo, e o maestro, desconcertado, pusesse a mão nos cabelos e perguntasse: “Que faremos deste país?”

Vivemos agora este momento em que paramos todos para pensar que música tocaremos, que obra imaginaremos juntos. Ladrões não fazem um país. Assassinos não têm pátria nem compatriotas. Mercenários não estão em busca do que somos, mas do que temos a fim de vendê-lo ao que não somos e, fazendo assim, roubar a pedra preciosa de nossa identidade. Este é o momento de encarar nossa estranha contradição e de celebrar, com humildade e esperança, a possibilidade da reconstrução de um país pelo uso de nossa imaginação democrática.

 

Gladir Cabral

 

Confira:

 

Site com a obra de Portinari: http://www.portinari.org.br/

 

Filme “As Sanfonas do Lua”: https://www.youtube.com/watch?v=54UpU1tsdn0

 

Documentário “O Povo Brasileiro”: https://www.youtube.com/watch?v=eqlcHGj4f7k

 

 

Sara Groves e as pinturas do Egito

Vivemos entre memórias e a esperança. É disso que fala esta bela canção de Sara Groves: “Painting Pictures of Egypt”. Sara é artista cristã, autora de belíssimas canções, com melodias sensíveis, fortes, e letras bastante poéticas. Graduada em direito, Sara apoia o ministério de denúncia e combate à escravidão moderna. Mãe e esposa, vive a simplicidade do cotidiano guardando sempre no coração as palavras de Jesus. Admirável pessoa.

Nesta canção ela se coloca no lugar do povo de Israel e a hesitação entre sair para o deserto (para a terra prometida) ou permanecer no “conforto” das coisas cotidianas do Egito.

“Pintando quadros do Egito”
(Sara Groves)

Não quero sair daqui
Não quero ficar
Sinto como se fosse um aperto
De qualquer jeito
E os lugares que mais desejo
São os lugares onde já estive
Eles me chamam
Como um amigo que não se vê há muito

Não se trata de perder a fé
Não se trata de confiar
Trata-se de sentir-se confortável
Quando você se muda tanto
E o lugar em que eu estava não era perfeito
Mas achei um jeito de viver
E não era leite ou mel
Mas também não isto o que tenho aqui

Estou pintando quadros do Egito
Deixando de lado o que falta
O futuro parece tão difícil
E quero voltar
Mas os lugares que pareciam perfeitos para mim
Não podem conter as coisas que tenho aprendido
Aquelas estradas se fecharam para mim
Quando virei as costas e parti

O passado é tão palpável
Isso eu sei de cor
Coisas familiares nunca são fáceis
De se descartar
Eu queria tanto alguma liberdade
Mas agora estou em dúvida ao partir
Me vejo entre a Promessa
E as coisa que já conheço

“Painting Pictures Of Egypt”

(Sara Groves)

I don’t want to leave here
I don’t want to stay
It feels like pinching to me
Either way
And the places I long for the most
Are the places where I’ve been
They are calling out to me
Like a long lost friend

It’s not about losing faith
It’s not about trust
It’s all about comfortable
When you move so much
And the place I was wasn’t perfect
But I had found a way to live
And it wasn’t milk or honey
But then neither is this

I’ve been painting pictures of Egypt
Leaving out what it lacks
The future feels so hard
And I want to go back
But the places that used to fit me
Cannot hold the things I’ve learned
Those roads were closed off to me
While my back was turned

The past is so tangible
I know it by heart
Familiar things are never easy
To discard
I was dying for some freedom
But now I hesitate to go
I am caught between the Promise
And the things I know