Victor Hugo

nossa terra

Victor Hugo conheceu o exílio. Ao descrever as ruas de Paris no passado, depois de um afastamento de 12 anos, ele não esconde sua emoção e faz uma tocante reflexão sobre a pátria vista a partir de longe. Creio que essa experiência deve ser comum a muitos brasileiros que hoje caminham por ruas e estradas distantes.

Enquanto vivemos na nossa terra, parece-nos que aquelas ruas nos são indiferentes, que aquelas janelas, telhados e portas nada significam, que aquelas paredes são completamente estranhas, que aquelas árvores nasceram ontem, que aquelas casas, onde nunca entramos, são inúteis, que as ruas por onde andamos não passam de simples pedras. Mais tarde, quando estamos longe, é que percebemos como nos são queridas aquelas ruas, como nos fazem falta aqueles telhados, aquelas janelas e portas, como nos são indispensáveis aquelas paredes, como gostamos daquelas árvores, como aquelas casas, onde nunca entramos, faziam parte de nossa vida, e que deixamos entranhas, sangue e coração nas pedras daquelas ruas. Todos esses lugares, que não vemos mais, que talvez nunca mais tornaremos a ver, e cuja imagem guardamos em nossa mente, tomam um encanto nostálgico, voltam com a melancolia e uma aparição, tornam-nos visível a terra santa, e são, podemos dizer, a própria alma da França; então, gostamos de relembrá-las tais como as conhecemos, do mesmo modo, obstinadamente, sem querer mudar coisa alguma, porque a imagem da pátria é como o retrato de uma mãe (Victor Hugo, Os Miseráveis, p. 405).

waterloo

waterlooPassei pelo quebramar da batalha de Waterloo. Capítulo muito rico dos Miseráveis, cheio de reflexões sobre guerra, paz, nações, vida humana e com humor em certas passagens. Victor Hugo faz um curioso comentário sobre a suposta importância da batalha de Waterloo para nações como a Inglaterra e a Alemanha. Ele diz:

… Graças aos céus, os povos são grandes sem precisar das lúgubres aventuras da espada. Nem a Alemanha, nem a Inglaterra, nem a França tiram sua grandeza da bainha de uma espada. Nessa época, em que Waterloo nada mais é que um retinir de sabres, acima de Blücher a Alemanha tem Goethe, e acima de Wellington a Inglaterra tem Byron; um vasto renascer de idéias é a característica de nosso século, e nessa aurora, a Inglaterra e a Alemanha têm brilho magnífico. São majestosas porque sabem pensar. A elevação de nível que trazem à civilização é-lhes intrínseco; vem delas mesmas e não de um acidente. O que elas têm de progresso no século XIX não tem como origem Waterloo.Somente povos bárbaros sentem súbitas indigestões após uma vitória. É a vaidade passageira das torrentes infladas pelo aguaceiro. Os povos civilizados, sobretudo nos tempos atuais, não se levantam nem se abaixam conforme a boa ou má sorte de um capitão. Seu peso específico no gênero humano resulta de algo mais que um simples combate. Sua honra, graças a Deus, sua dignidade, sua luz, seu gênio, não são números que esses jogadores, os heróis e os conquistadores, possam arriscar na loteria das batalhas. Quase sempre, batalha perdida é progresso adquirido. Menos glória e mais liberdade. Os tambores se calam e a razão toma a palavra. É um jogo de perde-ganha. Falemos, pois, de Waterloo friamente, dos dois lados. Demos ao acaso o que lhe pertence e a Deus o que é de Deus. Que foi Waterloo? Uma vitória? Não. Uma partida. Partida ganha pela Europe e paga pela França (Victor Hugo, Os Miseráveis, p. 317-8).

o infinito dentro da gente

Mais um pouquinho de Victor Hugo. Desta vez sobre a alma humana, a vida interior, que ele chama de infinito dentro da gente:

Existe uma coisa que é maior que o mar: o céu. Existe um espetáculo maior que o céu: é o interior de uma alma.

Que coisa mais sombria é esse infinito que todo homem leva em si mesmo, pelo qual desesperadamente mede os desejos do seu cérebro e as ações da sua vida! (Victor Hugo, Os Miseráveis, p. 211).

Existe um infinito fora de nós? Esse infinito é uno, imanente, peermanente; necessariamente substancial, desde que é infinito, se tivesse necessidade da matéria, seria por ela limitado; necessariamente inteligente, pois é infinito, faltando-lhe a inteligência, seria por ela circunscrito? Esse mesmo infinito desperta em nós a idéia de essência, enquanto não podemos atribuir a nós mesmos senão a idéia de existência? Em outros termos, não é ele absoluto, enquanto nós somos relativos?

Ao mesmo tempo que existe um infinito ao nosso redor, há algum infinito dentro de nós? Esses dois infinitos (plural medonho!) não se sobrepõem um ao outro? O segundo infinito não está, por assim dizer, sob o primeiro? Não é, por acaso, o espelho, o reflexo, o eco, o abismo concêntrico de outro abismo? Esse segundo infinito é também inteligente? Pensa? Ama? Quer? Se os dois infinitos são inteligentes, cada um deles tem um princípio volitivo, e existe um ego tanto no infinito superior como no inferior. O ego inferior é a alma; o ego superior é Deus.

Pôr, pelo pensamento, o infinito interior em contato com o infinito superior chama-se rezar.

Nada roubemos ao espírito humano; suprimir não é bom. É preciso reformar, transformar. Algumas faculdades do homem são dirigidas para o Desconhecido: o pensamento, o sonho, a oração” (462).

os miseráveis

miserablesFinalmente, estou realizando um sonho antigo nestas férias: ler Os Miseráveis, de Victor Hugo. Estou saboreando cada linha. O livro começa com uma descrição detalhada da vida, feitos e pensamentos de Dom Bienvenu, bispo de Digne (França) em 1815. Minhas expectativas eram encontrar um texto denso, literiariamente rico, mas não necessariamente edificante. No entanto, topei com esta fala de Bienvenu, que transcrevo:

– Nunca devemos ter medo de ladrões ou assassinos. São perigos externos e os menores que existem. Temamos a nós mesmos. Os preconceitos é que são os ladrões; os vícios é que são os assassinos. Os grandes perigos estão dentro de nós. Que importância tem aquele que ameaça a nossa vida ou a nossa fortuna? Preocupemo-nos com o que põe em perigo a nossa alma. (Hugo, Os Miseráveis, p. 47).