Poesia

Arts Poetica

Segue uma singela tradução do poema de Archbald MacLeash (1892-1982). Este poema, intitulado “Arte Poética” foi primeiramente publicado em 1926.

 

Um poema deve ser palpável e mudo
Como uma fruta redonda,
Mudo
Como velhos medalhões no polegar,
Silencioso como pedra gasta e sem reboco
Dos batentes das janelas onde o musgo cresceu—
Um poema deve ser sem palavras
Como o voo dos pássaros.
                         *
Um poema deve ser imóvel no tempo
Como a lua sobe,
Abandonando, como a lua liberta
Galho por galho as árvores emaranhadas da noite,
Abandonando, enquanto a lua por trás do inverno sai,
Memória por memória, a mente—
Um poema deve ser imóvel no tempo
Como sobe a lua.
                         *
Um poema deve ser igual a:
Não verdadeiro.
Pois toda história do luto,
Uma soleira vazia e uma folha de plátano.
Por amor,
As relvas que se curvam e duas luzes sobre o mar—
Um poema não deve significar
Mas ser.

Mending Wall

Um poema de Robert Frost (1875-1963) vai ganhando novos momentos de notoriedade e sentido: “Mending Wall”. Segue aqui uma singela tentativa de tradução.

 

 

“Consertando Muro”

(Robert Frost)

 

Tem alguma coisa que não gosta de muro,

Que faz o solo congelado se dilatar sob ele,

E derruba ao sol as pedras de cima,

E faz brechas que até duas pessoas podem passar lado a lado.

Rastros de caçadores é outra coisa:

Eu os tenho seguido de perto e feito reparos

Onde eles não deixam pedra sobre pedra,

Mas eles tiram o coelho da toca,

Para alegria dos cachorros.

As fendas a que me refiro,

Ninguém as viu ou ouviu sendo feitas,

Mas na primavera, tempo de consertar os muros, nós as encontramos ali.

Aviso meu vizinho além da colina;

E num dia nos encontramos para seguir a linha

E arrumar o muro entre nós de novo.

Mantemos o muro entre nós enquanto vamos.

A cada um, as pedras que caíram do seu lado.

E algumas são como fatias e outras são como bolas

Temos de usar encantamentos para mantê-las em equilíbrio:

“Fiquem onde estão até que viremos as costas!”

Arranhamos nossos dedos de tanto manuseá-las.

Oh, é só mais um tipo de jogo ao ar livre,

Cada um do seu lado.

É um pouco mais do que isso:

Naquele lugar, não precisamos de muro:

A propriedade dele é de pinheiros e a minha é de pomar de maçã

Minhas macieiras nunca irão invadir o terreno

E comer as pinhas sob os pinheiros dele, eu digo a ele.

Ele apenas diz: “Boas cercas fazem bons vizinhos”.

A primavera faz travessura em mim, e fico imaginando

Se consigo colocar alguma noção na cabeça dele:

“Por que elas fazem bons vizinhos? Não é

Onde há vacas? Mas aqui não tem vacas.

Antes de construir um muro, eu gostaria de saber

O que estou murando dentro ou fora,

E a quem estou querendo ofender.

Tem alguma coisa que não gosta de muros,

Que os quer derrubados”. Eu poderia dizer que são ”elfos” para ele,

Mas não são elfos exatamente, e eu preferiria

Que ele dissesse por si mesmo. Eu o vejo lá

Carregando uma pedra firmemente agarrada pelo topo

Em cada mão, como um selvagem armado da idade da pedra.

Ele se move nas trevas, ao que me parece,

Não de florestas apenas e de sombra de árvores.

Ele não ultrapassará os ditados do seu pai,

E se orgulha de ter tudo muito bem pensado,

E diz de novo: “Boas cercas fazem bons vizinhos”.

 

 

 

Usamos a Máscara

paul-dunbar2Paul Laurence Dunbar (1872-1906) foi o primeiro grande escritor negro a ser reconhecido nos Estados Unidos e na Inglaterra. Na aula de Literatura Norte-Americana de hoje na Unesc, lemos juntos e comentamos este poema: “We Wear the Mask” (Nós usamos a máscara). Este é um poema que fala de preconceito e exclusão. Fala da estratégia do poeta de esconder sua verdadeira identidade a fim de proteger sua vida. Em tempos de racismo solto, de preconceitos vários, o poema continua fazendo sentido.

 

Eis aqui uma tentativa de tradução:

 

“Usamos a Máscara”

 

 .
Usamos a máscara que sorri e mente,
Ela esconde nosso rosto e sombreia nossos olhos,—
Pagamos esse preço da malícia humana;
Com coração quebrantado e sangrando, sorrimos,
E a boca cheia de miríades de sutilezas.
.
Por que deveria o mundo saber de tudo,
Ao saber de todas as nossas lágrimas e suspiros?
Não, que eles apenas nos vejam enquanto
       Usamos a máscara.
.
Sorrimos, mas, ó grande Cristo, nossos clamores
A ti brotam de almas torturadas.
Cantamos, mas a lama é vil
Sob nossos pés, e longa é a milha;
Mas que o mundo sonhe outra coisa,
       Nós usamos a máscara!

 

 

Aprendendo a ouvir

walt-whitman-1887-dana-kellerFragmento de uma das obras mais importantes de Walt Whitman: “Leaves of Grass”. Uma tradução imperfeita, mas inevitável.

Agora não faço mais nada, só ouço,
Para verter o que ouço nesta canção, para deixar os sons contribuírem com ela.

Ouço bravuras de pássaros, alvoroço de trigo crescendo, murmúrio de chamas,
estalido de gravetos cozinhando meus alimentos,
ouço o som que amo, o som da voz humana,
ouço todos os sons correndo juntos, combinados, fundidos ou em sequência,
sons da cidade e sons de fora da cidade, sons do dia e da noite,
jovens falantes para aqueles que gostam deles, a risada ruidosa dos trabalhadores em sua refeição,
o grupo enraivecido de amigos dispersos, os tons tênues dos enfermos,
o juiz com suas mãos agarradas à mesa, seus lábios pálidos pronunciando a sentença de morte,
o movimento dos estivadores descarregando navios nos ancoradouros, o refrão dos içadores de âncoras,
o som dos sinos de alarmes, o ronco dos motores velozes e dos carros de bombeiro cheios de tilintares de alerta e luzes coloridas,
o apito do vapor, a rolagem sólida do comboio de carros que se aproximam,
a marcha lenta tocada na mente do povo marchando dois a dois,
(eles vão escoltar algum corpo, o topo dos mastros estão cobertos de musselina preta.)

Ouço o violoncelo, (é o lamento do coração do jovem,)
ouço a corneta de pistons, ela desliza rapidamente através dos meus ouvidos,
ela agita dores loucas e doces através de meu ventre e minha respiração.

Ouço o coro, é uma grande ópera,
Oh isso é música de verdade — ela me agrada.

Um tenor grande e viçoso como a criação me satisfaz,
a órbita flexível de sua boca derrama-se e me enche.

Ouço a soprano educada (que maravilha de obra é a dela?)
A orquestra me faz rodopiar mais amplo que os habitantes de Urano,
ela arranca tantos ardores que eu nem sabia que tinha,
ela me navega, eu toco de leve com meus pés nus, lambidos por ondas indolentes,
sou ferido por saudações amargas e raivosas, perco a respiração,
embebido em mel de morfina, minha traqueia asfixiada nos estertores da morte,
por fim, sinta de novo o enigma dos enigmas,
e aquilo a que chamamos Ser.

Um poema de Mahommah Baquaqua

baquaqua

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Você não espera que alguém da minha raça,

Com cabelos encaracolados e rosto negro,

E com um pequeno raio de saber,

Chame a atenção de seus amigos no colégio.

Mas, farei o melhor que puder

Para provar que quero ser um homem.

É verdade, que meu corpo traz as marcas das correntes,

É verdade que minhas costas trazem as cicatrizes das chicotadas,

Mas não é verdade que o poder do tirano

Jamais tenha feito de meu coração um covarde.

Não! Ele é livre como quando eu brincava

À sobra das palmeiras de minha terra natal.

 

Oh! África, minha terra natal,

Quando irei te ver, humildemente postada,

Sob a bandeira de meu Deus,

E governada por Sua Santa Palavra?

Quando irei ver a vara dos opressores

Ser tirada de suas mãos, meu gracioso Deus?

Oh! Quando verei meus irmãos

Desfrutarem da doçura da LIBERDADE?

 

Amigos dos escravos oprimidos e ensanguentados,

Peçam a Deus por piedade! Que Deus nos salve!!

Pois toda a ajuda dos homens é vã,

Pois o homem ao homem forjou cadeias.

Oh, Pai da Justiça, tu és justo,

Olho para ti, em ti confio;

Oh, que teu espírito gracioso atenda

Ao gemido dos africanos, às orações dos africanos,

Junto ao teu puro trono nos céus,

Onde tudo é alegria e paz e amor,

Por Jesus, Oh! salva o oprimido,

E que suas almas encontrem paz nos céus.

 

(Mohammah Gardo Baquaqua, 1854).

 

 

 

ressuscita-me

Ultimamente, tenho pensado muito na letra de uma antiga canção intitulada “O amor”. A letra foi escrita pelo famoso poeta russo do século XX, Wladimir Maiakovski, e a música foi composta por Caetano Veloso. A letra fala da chegada do amor como um momento de milagre e renovação da vida. Maiakovski foi um homem que viveu grandes e intensos conflitos em sua vida pessoal, amando uma mulher que jamais seria de fato sua, sonhando com uma sociedade em que a justiça e a igualdade fossem plenamente alcançadas, tentando fazer de sua arte um ato político. Desesperado, suicidou-se em 1930, com apenas 37 anos de idade.

De qualquer maneira, o grito de Maiakovski, que ecoa em Caetano, configura-se como um autêntico anseio por vida e ressurreição. É um desejo profundo de amor e reciprocidade que acabam presos na garganta do poeta. Nossos poetas clamam por vida, clamam por ressurreição, clamam por uma Páscoa que, no caso deles, parece ainda distante e inalcançável.

Talvez, quem sabe, um dia
Por uma alameda do zoológico
Ela também chegará
Ela que também amava os animais
Entrará sorridente assim como está
Na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita
Ela é tão bonita que na certa
eles a ressuscitarão
O século 30 vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias
Agora vamos alcançar
Tudo que não podemos amar na vida
Com o estrelar das noites inumeráveis
Ressuscita-me
Ainda que mais não seja
Porque sou poeta e ansiava o futuro
Ressuscita-me
Lutando contra as misérias do cotidiano
Ressuscita-me por isso
Ressuscita-me
Quero acabar de viver o que me cabe
Minha vida
Para que não mais exista amores servis
Ressuscita-me
Para que ninguém mais tenha
De sacrificar-se por uma casa ou um buraco
Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme
E o pai
Seja, pelo menos, o universo
E a mãe
Seja, no mínimo, a terra
A terra, a terra

Eis a interpretação que Renato Braz desta canção:

asas da páscoa

A Páscoa vem chegando, eis aqui um belo poema de um poeta metafísico: George Herbert. Observe como seu poema é formalmente inovador. Você consegue imaginar o que estes versos desenham?

SENHOR, que criaste o homem em riqueza e bens,
embora ele tenha perdido tudo tolamente
decaindo mais e mais
até ele se tornar
mais pobre:
Contigo
deixa-me subir
como a cotovia, em harmonia,
e cantar neste dia tuas grandes vitórias:
Então minha queda alçará meu vôo em mim.

Minha tenra idade começou em tristeza:
e com enfermedidade e dor
Tu castigas o pecado,
até eu me tornar
assim, fino.
Contigo
deixa-me andar
e sentir neste dia tua vitória,
pois, se eu fincar minhas asas em ti,
a aflição vai impulsionar meu vôo em mim.

George Herbert (1593-1633)

 

 

Agora veja como fica muito melhor na língua original:

 

LORD, who createdst man in wealth and store,
Though foolishly he lost the same,
Decaying more and more,
Till he became
Most poor :
With thee
O let me rise
As larks, harmoniously,
And sing this day thy victories:
Then shall the fall further the flight in me.

My tender age in sorrow did beginne:
And still with sicknesses and shame
Thou didst so punish sinne,
That I became
Most thinne.
With thee
Let me combine,
And feel this day thy victorie,
For, if I imp my wing on thine,
Affliction shall advance the flight in me.

George Herbert (1593-1633)