Mário Quintana

Quintana e Botticelli

botticelli_annunciazione_di_cestello_02O poeta Mário Quintana era apreciador de toda sorte de arte: cinema, música, teatro, pintura. Em seu breve poema intitulado “If…”, faz uma homenagem a um belíssimo quadro de Sandro Botticelli: “Anunciação de Cestello”. Pode-se dizer que é uma breve análise do quadro em forma de poesia.

 

If…

 

E até hoje não me esqueci

Do Anjo da Anunciação no quadro de Botticelli:

Como pode alguém

Apresentar-se ao mesmo tempo tão humilde e cheio de tamanha dignidade?

Oh! tão soberanamente inclinado…

Se pudéssemos ser como ele!

Os Anjos dão tudo de si

Sem jamais se despirem de nada.

 

— Mário Quintana

Eu sou aquele

EU SOU AQUELE
(Mário Quintana)

Eu sou aquele que, estando sentado a uma janela,
a ouvir o Apóstolo das Gentes,
adormeci e caí do alto dela.
Nem sei mais se morri ou fui miraculado:

Consultai os Textos, no lugar competente
o que importa é que o Deus que eu tanto ansiava
como uma luz que se acendesse de repente,
era-me vestido com palavras e mais palavras

e cada palavra tinha o seu sentido…
Como as entenderia eu tão pobre de espírito
como era simples de coração?

E pouco a pouco se fecharam os meus olhos…
e eu cada vez mais longe… no acalanto
de uma quase esquecida canção…

[gravura de Alison Lambert, 2011]

lambert_eutychus_2011

A cegueira iluminada de Quintana

mario_quintanaO sol se põe na linha do horizonte. A escuridão pouco a pouco invade a terra. No risco distante do poente vê-se apenas um clarão. Olhando para trás, o escuro da noite parece encobrir a cidade, menos os prédios mais altos, ainda tocados pela claridade do sol. Tenho para mim que nossos poetas, nossos grandes escritores são como prédios iluminados ao cair da tarde. Num mundo rodeado por sombras cada vez maiores, eles refletem certos raios da luz do Sol. Assim é que vejo a poesia de Mário Quintana.

O poeta tem os olhos abertos para a beleza, e nada escapa ao seu foco preciso. No seu livro Baú de Espantos, ele vai mostrando a cada poema a extraordinária beleza das coisas corriqueiras, a sacralidade e o mistério das coisas banais e cotidianas. Nas entrelinhas de seus versos é possível perceber sinais da presença do divino, não uma presença pesada ou indiscutível como um livro de doutrina, mas movente como as águas de um rio.

Na poética quintaneira, a palavra “espanto” expressa a capacidade humana de maravilhar-se diante da vida e do mundo. O poeta é alguém que não cansa de surpreender-se. E sua grande tarefa consiste em nos ensinar a lição do maravilhar-se perante as pessoas, perante as palavras e perante as coisas. Esse maravilhar-se inclui um tanto de estranhamento em relação ao mundo moderno e seus aparatos tecnológicos e produtos de massa, como música pop ou novelas de TV. Inclui também um tanto de contemplação e percepção da singularidade das pessoas e do mundo natural, como a leveza das nuvens, a força dos ventos, a sinuosidade dos rios ou o “[f]rescor agradecido de capim molhado como alguém que chorou e depois sentiu uma grande, uma quase envergonhada alegria por ter a vida continuado….”.

Alguns poemas de Quintana mostram como é tênue e tenso o limite entre o tempo e a eternidade, a morte e a vida. No poema “O Olhar”, Quintana mostra o quanto “[o] olhar do poeta é como o olhar de um condenado… como o olhar de Deus…”. É que “[o] último olhar do condenado é nítido como uma fotografia: vê até a pequenina formiga que sobe acaso pelo rude braço do verdugo, vê o frêmito da última folha no alto daquela árvore, além…”. O olhar da finitude nos permite ver as coisas como são, em sua temporalidade, em sua fugacidade. A consciência da mortalidade nos faz abrir os olhos para a realidade do mundo em seu mais duro e claro contorno.

É também muito nítido o olhar que Deus tem das coisas criadas, Ele que as vê a partir da Sua eternidade e pleno conhecimento. Mas esse saber divino tem a delicadeza de um olhar e ao mesmo tempo um postergar sempre o fim. É assim que, de maneira irreverente, o poeta vai mostrando o quanto a eternidade de Deus está ligada à sua capacidade para “deixar tudo para depois”, adiar o fim das coisas. E ele completa: “Só é verdadeiramente vida a que tem um inquieto depois!”.

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QUINTANA, Mário. Baú de Espantos. 2. ed. São Paulo: Globo 2006.

 

QUINTANA, Mário. O Olhar. Disponível em: <http://www.umdiadepoesia.com.br/o-olhar/>. Acessad em 30 nov 15.

quintana e os ateus

Lendo o livro Baú de Espantos, de Mário Quintana, topei com este poeminha:”Espantos”

Neste mundo de tantos espantos,
cheio das mágicas de Deus,
O que existe de mais sobrenatural
São os ateus…

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