Glauber Ribeiro

obrigado, glauber

Relembo antigos e-mails que recebi durante 2008, reencontrei este do Glauber Ribeiro, que faço questão de postar. Nele, meu amigo reflete sobre a importância de saber lidar com as imperfeições em nossa arte e em nossa vida. O texto é breve e profundo, para meditar nestes dias de chuva de verão:

Eu acredito que as nossas imperfeições são parte do
que somos e devem ser celebradas. Imperfeição é parte
do que significa sermos humanos. Perfeição só a
máquina.

Por isto, o melhor tipo de música é ao vivo,
acontecendo na frente da gente, e melhor ainda se a
gente pode participar.

Eu acredito que é importante trabalhar com a matéria
ou o material que Deus nos deu. É melhor fazer música
imperfeita do que não fazer. Eu li em algum livro que
um certo artesão japonês, trabalhando com barro,
fazendo um conjunto de xícaras de chá, chegou um
momento em que acabou o material que ele estava usando
para laquear as xícaras. Ao invés de jogar todas fora,
ele deixou o conjunto inacabado, testemunhando o
momento exato em que acabou o material.

Eu tenho uma “cabeça” de flauta feita à mão, de
madeira, feita por um homem que mora na Austrália. Um
dia eu tive que mandá-la de volta para reparos. Ele me
perguntou se eu queria aproveitar a ocasião para ele
consertar um certo defeito que ele, agora com mais
experiência em fazer essas cabeças, tinha percebido.
Eu disse a ele que não, que eu gosto do som da flauta
como ele é, e que é trabalhando junto com a flauta
para unir minhas imperfeições à dela, que espero criar
uma música que vá além delas.

Tendo dito tudo isto, eu reconheço que também sou
consciente de cada nota desafinada nos meus dois CDs.
Mas apesar dos problemas, as pessoas que pararam para
escutar disseram que a música lhes fez bem, então para
que reclamar? 🙂

glauber

joyful!

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Meu querido amigo Glauber está de CD novo. Trata-se do Joyful, um trabalho instrumental reunindo a sonoridade da flauta e do piano, o alento e o ritmo, o vento e as cordas. Tudo é gravado ao vivo, sem emendas, sem truques de estúdio. Tudo muito denso e verdadeiro. O CD se propõe a ser um diálogo entre piano e flauta, uma conversa, que começa com uma releitura de uma antiga canção medieval, “Greensleeves across a far horizon”, e faz citação ao tema, mas nos colocando sempre à distância, sempre a caminho em direção, quem sabe, ao horizonte. “Joyful” brinca com a nona sinfonia de Beethoven, numa interpretação meditativa em alguns momentos e intensa em outros. “Like a dove” começa com uma delicadeza deliciosa, sugerindo tom e atmosfera. Mas pouco a pouco vai alçando vôo. Se fecharmos os olhos, podemos ver o vôo da ave por sobre as praças, as torres das igrejas, por sobre os prédios da grande cidade. Há várias passagens muito variadas, como se o vôo nos levasse a diferentes lugares, diferentes paisagens. “Malacandra” tem um título misterioso que vem da obra ficcional de C.S. Lewis, é o planeta Marte. O tema se desenvolve calmamente, uma parada para olhar o espaço. “Breath” celebra o espírito da vida, a respiração que se torna som e sentimento no sopro da flauta, embora a primeira frase da música seja a do piano. A flauta entra como resposta, reagindo aos temas trazidos pelo piano. O ritmo da música se altera, passando a uma segunda fase em que a presença da flauta vai se tornando mais destacada. Outras variações transformam esta música numa peça bastante diversificada, complexa, num crescendo que desemboca num lago sonoro que leva ao final. “Words of the thunder” começa com a flauta parecendo anunciar um dia de sol, que vê o vendo chegando, carregando folhas, trazendo ritmos mais marcados pelo piano, até chegar uma mudança alegre e agitada marcada pelo som de um apito inusitado. Que surpresa! O ritmo vira um redemoinho, que leva à calmaria do final. “Faithful friend” é uma ode à amizade, tudo a ver com a proposta do disco.

Parabéns ao Glauber e ao Jack Urban por mais este presente.

Darrell Grayson: lamento por um poeta

Meu querido amigo Glauber estudou no Seminário de Campinas. Fomos contemporâneos lá pelo início da década de 1980. Músico admirável e mente brilhante, Glauber é um grande companheiro de papos teológicos, filosóficos, e muitas canções. Alma de flautista, cultivador da boa música clássica e de jazz, continua tocando e cantando. No início da década de 1990, foi para os Estados Unidos, casou-se com Henrieta e vive lá até hoje.

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Nos States, Glauber conheceu uma figura rara, um poeta condenado à morte. Quero compartilhar aqui seus registros sobre a perda de um amigo, de um grande amigo. Para os que quiserem conhecer o blog do Glauber, o endereço é: http://wsmusic.blogspot.com.

Hoje, há mais ou menos uma hora, meu amigo Darrell Grayson foi assassinado. Às 16h do dia 26 de julho de 2007, um oficial do estado de Alabama injetou nele três tipos diferentes de veneno. Três vezes morto — morto além da conta. As circunstâncias de sua vida e morte são muitas para que eu possa descrever agora, e são facilmente disponíveis na Internet. Darrell nasceu pobre e cresceu rodeado pela violência e pelo desespero. Em 1982 foi indiciado num crime terrível, representado por um advogado incompetente, condenado à morte, e viveu na fila de execução até hoje. Usando os pouquíssimos recursos que podia conseguir, ele superou a depressão, estudou sozinho, aprendeu a escrever poesia, publicou livros e tocou muitas vidas. Ele é uma inspiração para todos nós, e eu me considero abençoado por tê-lo conhecido um pouco. Cheguei em casa hoje, vindo do trabalho, no exato momento em que tudo se acabava. Tirei meu bandolim da caixa e toquei “Amazing Grace” tão alto quanto pude, em sua homenagem.

Até logo, Darrell!

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No dia seguinte, Glauber escreveu:

Darrell foi declarado morto às 16h16 CDT (2316 GMT) na prisão de Atmore prison. Um de seus amigos testemunhou sua morte. Sua última refeição foi queijo, omelete e tomates frescos. Sua última palavra foi: “paz”.

Agora ele se foi
Senhor, ele se foi
Como uma locomotiva
rolando pelo trilho
Ele se foi
Ele se foi
e nada vai fazê-lo voltar
Ele se foi
Para onde o vento não sopra tão estranho
Talvez em alguma montanha alta
Perdeu uma volta mas o preço não era nada
Faca nas costas e mais do mesmo
O mesmo velho rato no ralo do esgoto
Na encosta da montanha
Você sabe melhor mas eu o conheço
Agora ele se foi
Agora ele se foi
Como uma locomotiva
rolando pelo trilho
Ele se foi
Ele se foi
e nada pode trazê-lo de volta
Ele se foi….
(Robert Hunter)