Frederick Buechner

graça

Terminei de ler o livro Listening to Your Life, de Frederick Buechner. O sentimento que tenho é de gratidão, privilégio e uma certa saudade. Quando é que encontrarei outro livro dele? 😕

O conceito de graça de F. Buechner aproxima-se do de alegria de C.S. Lewis.

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A graça é algo que nunca se pode tomar, mas apenas receber. Não se pode ganhá-la ou merecê-la ou controlá-la, assim como não se pode merecer o gosto da framboesa ou do creme ganhar uma boa aparência ou controlar seu próprio nascimento.
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Uma boa noite de sono é graça e assim também os sonhos. A maioria das lágrimas são graça. O cheiro da chuva é graça. Alguém que ama você é graça. Amar alguém é graça. Já tentou querer amar alguém?
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Uma excentricidade crucial da fé cristã é a afirmação de que as pessoas são salvas pela graça. Não há nada que você tenha de fazer. Não há nada que você tenha de fazer. Não há nada que você tenha de fazer.
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(Frederick Buechner, Listening to Your Life, p. 289).

alegria

Tenho pensado muito sobre a felicidade nos últimos dias. Primeiro foi a leitura em oração dos Salmo 112. Compartilhei essa leitura com meus irmãos da Igreja Presbiteriana de Criciúma e com meus queridos parentes em Blumenau. Em minha compreensão, entendi a felicidade como fruto da graça de Deus.

Em minhas reflexões, lembrava-me sempre da canção do querido amigo Jorge Camargo: “A Felicidade”, uma das coisas mais belas que já ouvi sobre o tema. Uma bela reflexão a partir de uma frase de Kierkegaard: “A porta da felicidade abre só para o exterior; quem a força em sentido contrário acaba por fechá-la ainda mais”. A mensagem é muito clara e forte: a essência da felicidade é compartilhar.  E isso me faz lembrar de outro amigo, Gerson Borges, cujo moto é: “A glória de Deus é compartilhar”. Mas isso é tema para outro post.

Pare um pouco e assista ao belo vídeo do Jorge:

A Felicidade

Na semana, enquanto aguardava minha consulta no cardiologista, li um texto do Frederick Buechner que mudou minha concepção um pouco. Eu que sempre colocava a felicidade acima da alegria. Para mim, a alegria sempre me pareceu menor, mais cotidiana, prosaica, enquanto a felicidade tinha ares de eternidade. A visão de Buechner é um pouco diferente, talvez mais próxima da de C.S. Lewis quando escreveu o Surpreendido pela Alegria. Diz Frederick Buechner:

Não há ninguém que já não tenha sido tocado em algum lugar pela alegria, de modo que, para torná-la real para nós, para mostrá-la, seria suficiente para Jesus simplesmente lembrar-nos dela, lembrar-nos dos momentos de alegria em nossas próprias vidas. Mesmo assim, não é fácil, pois ironicamente esses momentos são os que geralmente não associamos com religião. Tendemos a pensar que a alegria não é propriamente religiosa, mas até mesmo oposta à religião. Tendemos a pensar que a experiência religiosa consiste em sentar-se imóvel e antisséptico e um pouco entediados e que alegria é riso e liberdade e braços estendidos para abraçar a Terra enorme e impressionante e que é tão bela que às vezes parece quase explodir os nossos corações. Precisamos ser lembrados que em sua âmago o Cristianismo é alegria e que o riso e  a liberdade e o abraço são a sua essência. Precisamos ser lembrados também que a alegria não é o mesmo que felicidade. Felicidade é construída pelo ser humano — um lar feliz, um casamento feliz, relacionamentos felizes com nossos amigos e em nosso lugar de trabalho. Isso exige esforço e, se formos cuidadosos e sábios e se tivermos sorte, podemos conseguir. A felicidade é uma das mais nobres realizações a que somos capazes, e quando a conseguimos, recebemos o crédito por ela, de modo até apropriado. Mas nós jamais podemos receber crédito por nossos momentos de alegria, pois sabemos que eles não são realizados humanamente e jamais seremos realmente responsáveis por eles. Eles vêm quando vêm. São sempre repentinos e breves e irrepetíveis. Às vezes a alegria inexplicável de apenas estar vivo. O milagre às vezes de sermos apenas quem somos debaixo do céu azul e sobre a grama verdejante, os rostos dos nossos amigos e as ondas do mar, sendo apenas o que eles são. A alegria de relaxar, de sentir-se bem repentinamente quando havíamos estado doentes, de ser perdoado quando antes nos sentíamos envergonhados e com medo, de nos sabermos amados quando antes estávamos perdidos e sozinhos. A alegria de amar, que é uma alegria tanto da carne quanto do espírito. Entretanto, cada um de nós pode prover-se de seus próprios momentos, pelo menos em duas coisas mais. Um é que a alegria é sempre abrangente; não há nada mais em nós para ser odiado ou temido, para sentir-se culpado ou ser egoísta. A alegria é onde o ser inteiro aponta para uma só direção, e é algo que por sua natureza o homem jamais pode acumular, mas sempre repartir. Segundo, a alegria é um mistério porque ela pode acontecer em qualquer lugar, em qualquer tempo, mesmo sob as circunstâncias mais complicadas, mesmo no meio do sofrimento, com lágrimas nos olhos. Mesmo pendurado a uma cruz” (Frederick Buechner, Listening to Your Life, p. 286-7).

arte

Continuo lendo meu bom e velho Frederick Buechner: Beyond Words. A certa altura, falando de arte, ele diz:

“Um velho lago silencioso, / Dentro dele pula um sapo. / Splash! Silêncio novamente”. Este é talvez o mais conhecido de todos os haikais japoneses. Nenhum outro tema poderia ser mais monótono. Nenhuma linguagem poderia ser mais sem graça. Basho, o poeta, não comenta o que descreve. Ele não deixa nenhum significado implícito, nenhuma mensagem nem metáfora. Ele simplesmente convida nossa atenção a nada mais nada menos que isso: o velho lago em sua imobilidade aquática, o mergulho pesado do sapo, o retorno gradual à imobilidade.

[…]

Desde o mais simples poema ao romance mais complexo e à peça teatral mais densa, a literatura nos pede para prestar atenção. Preste atenção ao sapo. Preste atenção ao vento leste. Preste atenção ao menino na jangada, à senhora na torre, ao velho no trem. Em suma, preste atenção ao mundo e a tudo o que nele habita e assim aprende, afinal, a prestar atenção em ti mesmo e a tudo o que habita em ti. (Frederick Buechner, Beyond Words, p. 25-6).

josé, o esposo de maria

Nestes dias de Natal, nada melhor que um pouco de leitura bíblica e reflexão. Após a leitura de Mateus 1-2; Lucas 2.41-51; 3.23-38, caminhemos um pouco ao lado de Frederick Buechner:

Não se pode culpar José por considerar a possibilidade do divórcio ao descobrir que, não por sua causa, Maria estava grávida. Entretanto, quando lhe foi explicado, ele encarou os fatos como um homem, e tudo foi perdoado. Assim que recebeu a palavra em um sonho de que o rei Herodes estava planejando matar todos os meninos na vizinhança na expectativa de que o Messias fosse um deles, José tomou a criança e Maria e partiu para o Egito, onde teve o bom senso de permanecer até que encontrou o nome de Herodes na coluna de obituários. Mais tarde, quando perderam Jesus em Jerusalém com a idade de 12 anos, José ficou tão nervoso quanto Maria e tão completamente feliz quanto ela ao reencontrar o menino.

Quando Mateus, no seu evangelho, registra a genealogia de Jesus, ele a trala através da linhagem de sua mãe, em deferência à doutrina que ensina que Jesus era de fato o filho de Deus. Quando Lucas registra isso, por outro lado, embora não fosse menos crente, ele não se acanha em listar o nome de José como pai de Jesus e reconstruir sua linhagem através dele.

Como Jesus mesmo nunca se revelou preocupado com teologia, é difícil deixar de crer que, pelos velhos bons tempos, ele teria preferido a versão de Lucas. (Buechner, Beyond Words, p. 202).

o riso e a dor

Aqui vai mais uma preciosidade do Buechner, quebrando este jejum de tantos dias sem postar. Desculpem-me, é a correria do final de ano me levou na correnteza.

“Bem-aventurados vocês, que agora choram, pois haverão de rir”, disse Jesus (Lc 6.21). Isso não quer dizer apenas que vocês haverão de rir quando o tempo vier, mas que vocês podem rir um pouco ainda agora no meio do choro, pois vocês sabem que o tempo está próximo. Apesar de parecer o contrário, o final será um final feliz. O riso tem a ver com isso. É o riso da fé. É a divina comédia. (Frederick Buechner, Beyond Words, p. 63).

pássaros

cardealOs passarinhos são nossos grandes mestres. Tenho um punhado de canções falando deles e tem até uma falando a eles. Entre os livros que ando saboreando ultimamente, estou com o Beyond Words, do Frederick Buechner. Alimento para a cabeça e para o coração.

Rolando pelo céu do verão, pousando no topo das árvores, alimentando seus filhotes, os pássaros vão cuidando de sua vida como sempre sem prestar muita atenção na raça humana, assim como a raça humana geralmente nem se preocupa com eles. Mas eis que senão quando eles fazem alguma coisa que chama nossa atenção. Os gansos do Canadá voando para o sul em bando na forma de V. Um bem-te-vi cantando Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi! Um cardeal voando entre os arbustos como uma chama. Por um momento ou dois, até o mais tolo de nós compreende vagamente que o mundo seria um lugar mais pobre sem eles.

Pode-se pensar de vez em quando que os pássaros sentem o mesmo em relação a nós. Um homem com um guarda-chuva caminhando pela calçada. Uma mulher colhendo amoras. A cantiga de uma criança de dois anos brincando na caixa de areia. Será que os pássaros de vez em quando olham para nós como nós olhamos para eles, basicamente com indiferença, mas às vezes com a curiosidade de uma olhadela, o bater de umas asas, as primeiras notas de uma canção?

o tempo, a nuvem e o sol

Segue um breve diálogo entre Ailred e Godric:

“Você fala de tempo, Godric”, disse Ailred. A sua tosse havia cessado por um instante. “O tempo é uma tempestade. Os tempos passam e os tempos voltam, eles giram e fluem e saltam seus limites como o rio Wear. As horas são nuvens que mudam sua forma diante de nossos olhos. Um dragão vira a manta de uma dama. O riso de um macaco transformam-se num punho cerrado de ira. Mas além das tempestades e das nuvens do tempo há a atemporalidade. Godric, o Senhor do Céu não muda, e mesmo quando nossa visão é mais escura, Ele está acima de nós, belo e dourado como o sol”. E é assim mesmo (Buechner, Godric, 60-1).