Meus queridos amigos: segue uma entrevista concedida à revista virtual Cristianismo Criativo. Visitem o site: http://www.cristianismocriativo.com.br.

10 de January de 2008

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“Minha voz é apenas uma pequenina e desconcertada interferência neste grande debate sobre a realidade e a vida”. Esta fala, do professor, poeta e músico Gladir Cabral, inspira a poesia correndo em suas veias. Tendo a docência como ofício – já que Gladir é professor universitário na área de Literatura, o poeta-músico diz que tem a fé como seu “norte”, sua fonte de “inspiração”, e as festas bíblicas como pinceladas capazes de refletir a plenitude da vida. Leia, a seguir, a entrevista que ele concedeu ao Portal Cristianismo Criativo.

Cristianismo Criativo – Gostaria que vc falasse um pouco sobre você e seu trabalho… neste mundo pós-moderno, marcado por contrastes, rupturas, falta de tempo… o que inspira um poeta-músico?

Gladir Cabral – Meu trabalho é muito simples: propõe-se apenas a ouvir e responder a alguns poemas, canções e vozes no mundo conturbado em que vivemos. É claro, a voz primeira a ser ouvida e respondida é a própria Palavra de Deus, que traz respostas e perguntas inevitáveis nos dias de hoje. Mas há também as vozes dos poetas brasileiros, chilenos, argentinos, uruguaios. Violeta Parra cantou e Thiago de Mello respondeu: “Gracias a la vida”. Drummond perguntou: “E agora, José…” Chico Buarque, Gilberto Gil, Elomar cantam sobre o ser brasileiro. Vozes que chegam de todo canto do Brasil. Minha voz é apenas uma pequenina e desconcertada interferência neste grande debate sobre a realidade e a vida.

CC – Quando li a letra da sua canção “Dança de roda”, do CD Água no Deserto, percebi que você fala da ‘festa’ como quem fala das coisas simples da vida, que trazem alegria… me parece um paralelo bíblico sobre a plenitude da vida, como quem fala de Deus de uma forma não-religiosa…

GC – Sim, a metáfora da festa é muito valiosa nas Escrituras. O Velho Testamento é cheio de festas de caráter religioso, apontando para a redenção do povo, celebração da vida, salvação: festa das colheitas, festa páscoa, festa dos tabernáculos. O Novo Testamento traz Jesus começando seu ministério em Caná da Galiléia, numa festa de casamento. Gosto disso, de saber que nosso Deus é de alegria, de vida plena.

CC – Como um professor, com tantos compromissos acadêmicos, encontra tempo para dedicar-se à música e à poesia?

GC – A música é um canal de expressão e criação muito importante para mim. A poesia também, embora a poesia é também parte de meu ofício, já que sou professor de teoria literária e literatura. Música e poesia: canção — eis o veículo mais versátil que encontrei para exprimir as coisas que penso, sinto e desejo.

CC – Para você, quais são os poetas-músicos da contemporaneidade, pertencentes à Igreja (de forma geral) ou não?

GC – Já citei alguns poetas no início, mas há que acrescentar Quintana, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, Adélia Prado. Entre os mais jovens intérpretes e compositores, lembro-me de Lenine, Jorge Drexler, Monica Salmaso. Entre os cristãos há muitos queridos amigos de caminhada e sonho: Stênio Marcius, Carlinhos Veiga, Tiago Vianna, João Alexandre, Josué, Jorge Camargo, Gerson Borges, Roberto Diamanso… Não há como lembrar de todos.

CC – Qual a música/poesia que você gostaria de dedicar aos nossos leitores?

GC – Há uma canção recente que quero compartilhar. Chama-se “Terra em Transe”, uma referência ao filme de Glauber e um questionamento quanto à nossa relação com a natureza. A canção ainda não foi gravada.

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Se era pra matar,
Por que deram os nomes aos bichos?
Se era pra cortar,
Por que tanto estudaram as plantas?

Se era pra revirar a terra
E cimentar o campo
Empacotar o vento
Plastificar o encanto

Se era pra morrer
De cansaço na beira do asfalto,
Se era pra esquecer
A beleza da água no salto,

Se era pra derramar o vinho
E semear o pranto
Emudecer o pinho
E sufocar o canto

Se era pra perder
Por que foram buscar a esperança?
Se era pra correr
Por que foi que chamaram pra dança?

Se era pra desejar o muito
E usufruir o pouco,
Acalentar o intento
E acabar tão inerte e louco

Se era pra não ser
E evitar a questão do poeta
Se era só pra ter
E virar um produto em oferta

Se era pra ver a Terra em transe
A calçada cobrindo o mangue
A mata vazando sangue
E a cobiça fazendo a festa

Não é para responder
É apenas para se repensar
E quem sabe recomeçar
Replantar / Refazer

CC – Como a fé influencia sua arte?

GC – A fé é o norte, a fonte de inspiração de minhas canções. Só se faz canção quando se tem esperança, seja pelo menos de ressonância. E a nossa fé cristã é fundamentada na esperança, como nos ensinam as Escrituras. Essa esperança aparece em cada canção, às vezes é apenas uma referência discreta, como em “Terra em Transe”, às vezes é declaração explícita, como em “Fina Esperança”, uma velha canção gravada em 1996.

CC – Na sua opinião, qual o papel da arte na Igreja?

GC – No contexto da Igreja, a arte preenche várias funções, tanto na adoração, no louvor, quanto na edificação, na vida devocional, na atuação da Igreja, na evangelização, na vocação profética da comunidade cristã, na denuncia do mal, do erro, na proclamação de uma palavra de Deus para os tempos atuais, no exercício do lamento, que também tem seu lugar em nossa vida cristã.

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CC – O jornalista Steve Turner, autor do livro “Cristianismo Criativo?” (W4 Editora), afirma que “muitos se envolvem no exercício da arte porque desejam melhorar a qualidade de vida das pessoas”. Você concorda com esta afirmação? poderia comentá-la?

GC – Sem dúvida, evangelho é vida em abundância, vida plena, e isso tem tudo a ver com qualidade de vida. Todos os que compreendem o evangelho como uma mensagem de redenção que envolve todas as áreas da vida humana sabem que precisamos desenvolver temas não apenas diretamente religiosos, mas sociais, históricos, políticos, humanos, enfim.

CC – Você acredita que a arte seja uma forma de alcançar as pessoas para o Evangelho?

GC – Também, mas não só. Arte não é só evangelização. É também celebração, edificação, aprendizado, profecia, criticidade, lamento, compartilhamento, declaração de amor e de fé.

CC – Como podemos influenciar a Igreja, saindo do lugar-comum?

GC – Ouvindo mais o que o povo fala, ouvindo os poetas do povo, ouvindo as canções, as danças do povo, e respondendo adequadamente, com paciência, humildade, carinho e respeito.

CC – Bem, agradeço muitíssimo pela entrevista. Obrigada por participar do Portal Cristianismo Criativo.

GC – Eu é que agradeço pela oportunidade de participar.