Canções

Jerusalém

old_ruins_of_jerusalem_western_wall-otherEsta é uma das canções que escrevi pensando em Jerusalém, a cidade amada. Nela se cruzam os caminhos de vários povos. O nome sugere que ali se estabeleceria o fundamento paz, no entanto a história dá conta de uma série de desencontros, de conflitos de alegria e lamento misturados na mesma lágrima. Ali, o Senhor Jesus derrubou o muro da inimizade e estabeleceu profunda paz entre nós e o Eterno, e entre nós e os outros, entre nós e nós mesmos.

 

“Jerusalém”
(Gladir Cabral)
As pedras sobre as pedras,

Uma prece que ressoa

Os passos nas calçadas

Inundadas de pessoas

Os risos e as lágrimas

Brilhando ao sol poente

A rua iluminada

Pela estrada do oriente

 

Jerusalém, Jerusalém,

Os teus jardins e oliveiras

Fazem bem

Os teus portões abraçam

Todo o ser que vem te ver

E amar assim, Jerusalém

 

No espaço do sagrado

Se ouve a prece do segredo

Há corações sangrados

De incontáveis desenredos

Mas há também as rimas

Soltas pelos quatro cantos

Canções de liberdade

Alegria e acalanto

 

Jerusalém…

 

Memorial

madres de la plaza de mayoHerdei de minha mãe o gosto pelo cantar. Ela parece cantar o dia inteiro, em meio às suas atividades domésticas. Lava louça todo dia, e canta… Põe água no feijão, que chegou mais um, e canta… Rega as flores, ainda que estas não falem, e canta… Lê as Escrituras, ora, adora e canta…

E é bom que seja assim, é bom que as mães não se calem, pois elas têm muito que dizer sobre a vida, sobre a família, sobre os nossos tempos. Que as vozes das mães e agora avós da Praça de Maio jamais se calem. Que não se calem as mães de todo mundo diante do sequestro das meninas na Nigéria. Que seu clamor seja ouvido na Terra e no céu.

Como amanhã é o dia das mães, gostaria de deixar a elas esta mensagem de estímulo e gratidão. Cantem, falem, testemunhem, orem, clamem sempre por seus filhos, pelos filhos de seus filhos e pelas crianças sufocadas pelo silêncio e opressão.

Queridas mães, que ao longo de suas vidas, vocês possam trazer no coração e na mente as lembranças e lições da história, as sementes da esperança e da fé. Não se calem, não desistam de orar por seus filhos e pelo mundo que anda triste feito órfão. Que seus hinos, salmos e canções se levantem diante de nós com um memorial sagrado de um pacto pela vida, pela paz e pelo amor incondicional.

Eis a canção que acabei de escrever e que dedico às queridas mães, minha querida mãe Laci, minha esposa Ruth, minha irmã e minhas cunhadas, a todas às mulheres que conhecem o milagre da maternidade, mas sem esquecer daquelas que não puderam ser mães biológicas e são mães de coração pleno.

 

Memorial

 

Solta teu canto pelos quatro ventos

Há quem precise ouvir tua voz

Que teus poemas brotem quais rebentos

E que desatem velhos nós.

 

Deixa habitar teu coração

O que motiva a esperança

O que abençoa e faz andar

Sob este sol ou sobre o mar

 

Solta teu canto pelos quatro ventos

Há quem precise ouvir tua voz

Que teus poemas brotem quais rebentos

E que desatem velhos nós.

 

Risca no chão o teu sinal

Memorial de vida inteira

Salmo de paz, verso de amor,

Luz da manhã, cheiro de flor

 

Fé & Café

IPTrindade 2014 114Ontem (12 abr 14) participei do Fé & Café na Igreja Presbiteriana na Trindade. Depois de dois anos e meio, revivi a experiência de colocar a família no carro e pegar a estrada. Foi uma viagem com emoção, com direito a muita chuva por causa de um ciclone extratropical que resolveu se aproximar da costa, muitas lembranças boas e ao som da música de Carlinhos Veiga, Gerson Borges, Silvestre Khullmann, Allan Marino e Diego Marins (ida e volta foram seis horas de viagem, rs).

 

O mais precioso de tudo foi rever os irmãos e amigos tão queridos que ali estavam. Dar um abraço, partilhar pão, refri (no meu caso não diet), ouvir e ser ouvido, cantar juntos, orar juntos e ver o tempo passando ao contemplar o quanto as crianças e adolescentes cresceram. Foi uma das experiências mais renovadoras e importantes dos últimos anos em nossa vida familiar. Sou muito agradecido pelo convite.

IPTrindade 2014 113 (640x480)

Consegui gravar pouquíssima coisa, só alguns fragmentos, daquela noite. Mas deixo aqui um pedacinho da canção “Mil Caminhadas”. Acompanham-me no cajon Gabriel Antunes, no contrabaixo André Mello. Esse foi nosso último ensaio, e também primeiro.

 

https://www.youtube.com/watch?v=Ux_pL1AaDFk&feature=youtu.be

O espelho na parede

faceless210_copy18571Esta canção foi escrita há mais de 30 anos. Poucas pessoas a conhecem. Guarda uma profundidade impressionante. A letra foi escrita pelo amigo Gilnei, quando éramos estudantes de teologia no Seminário Presbiteriano do Sul. Muito profunda e perturbadora, a letra. A melodia veio quase imediatamente.

Naqueles dias, uma das coisas que pesavam em nossos corações era a indiferença que muitas vezes encontrávamos no olhar das pessoas em relação ao desafio de refletir sobre as Escrituras, a realidade, a vida. Numa dessas vezes, o próprio Gilnei comentou: “As pessoas são ecos de seus próprios gritos”.

Como sabiamente nos faz pensar José Saramago, o grande desafio ainda parece estar no olhar: deixar-se olhar pelo outro e aprender a ver.

“O espelho na parede”
(Gilnei Marcel Hey Kiel & Gladir Cabral)

São vozes, ecos distantes
Que ouvem e aprendem,
Apenas reflexos da mesma imagem,
Caminhos da mesma viagem,
No espelho da parede.

São ventos surdo-imutáveis,
Não criam, não nascem,
Apenas passeiam na mesma paisagem,
Presentes, não vistos, vazios,
Na moldura da parede.

Quem fez a vida, do nada a teceu,
Usando o barro e as mãos escolheu,
Da criação, um a ser criador,
Fruto de amor.
Ora, como entender
Que sua imagem viesse a ser
Um espelho na parede?
Na moldura da parede…

https://soundcloud.com/gladir/o-espelho-na-parede

Amigo meu

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Às vezes é bom revisitar o passado e reviver as marcas, os rastros deixados pelo caminho, o rumo dos pés. É claro que a paisagem não é a mesma, árvores se foram, amigos se foram. Como diz Walter Benjamin: “Nunca podemos recuperar totalmente o que foi esquecido. E talvez seja bom assim. O choque do resgate do passado seria tão destrutivo que, no exato momento, forçosamente deixaríamos de compreender nossa saudade” (Infância em Berlim).

 

Lá no início dos anos 1980 escrevi esta canção em parceria com um amigo querido: o Marcos Albuquerque Barbosa. A canção fala de amizade, tema do qual gosto muito e que tem acompanhado minhas reflexões ao longo da vida. Um amigo falso dói e um amigo traidor é uma faca no peito, mas quando se encontra um amigo verdadeiro e com ele se compartilha alegria e dor, trabalho e ócio, palavra e silêncio, então a vida ganha uma profundidade sem par.

 

“Amigo”

(Marcos Albuquerque Barbosa & Gladir Cabral)

 

Amigo meu,

Quão longe estás.

Não ouço mais

O teu cantar.

Calou-se em mim

A tua voz

E teu olhar

Não posso ver.

 

Mas sempre é bom

Saber, irmão,

Que não se pode

Separar

O que o Senhor

Pra sempre uniu,

O que selou

Com seu amor.

 

|: Andemos juntos

Em comunhão,

Cantando assim

Nossa canção,

Unidos, sim,

No caminhar,

Pois nosso Deus Conosco está : |

Para ouvir a canção => https://soundcloud.com/gladir/amigo-meu

Albert Schweitzer

Albert Schweitzer

Li recentemente a autobiografia de Albert Schweitzer Minha Vida e Minhas Ideias e acabei tomado pelo desejo de compor uma canção que expressasse um pouco das coisas belas e relevantes que aprendi. Entre tantas coisas surpreendentes, como sua experiência musical, sua habilidade como teólogo, sua honestidade intelectual e seriedade como pesquisador, o que mais me tocou foi o conceito desenvolvido por ele de reverência pela vida, um fundamento ético para a existência. Esse conceito é mais plenamente explorado e desenvolvido no capítulo 26 do livro Filosofia da Civilização, intitulado “A ética da reverência pela vida”.

Basicamente, seu ponto de partida é: “Sou uma vida que quer viver, entre outros seres vivos que também querem viver”. Outra constatação importante que ele faz: “O mundo está cheio de sofrimento”, e é preciso fazer alguma coisa. As duas implicações fundamentais dessa constatação são: 1) é preciso fazer algo para aliviar o sofrimento dos outros seres vivos; 2) é preciso não ferir, não ameaçar a vida, que já é tão frágil e sofrida.

Eis a canção:

“Reverência pela vida”

Tudo o que respira quer ir vivendo,
Seguir viagem pra algum lugar,
Quer atravessar o vazio do espaço,
Dar mais um passo pra continuar.

Tudo o que respira quer ter seus filhos
Criar sua prole e quem sabe amar.
Levantar seus olhos ao céu aberto
Sob a luz do velho sol cantar
E se encantar

Temos de aprender que a vida é sagrada
E que todo ser merece atenção
Todo sofrimento espera uma resposta, nossa reação.

Há que se cuidar da pétala que chora
Nunca machucar a abelha e sua flor
Proteger o ninho de um passarinho, q’inda não voou [frágil cantador]

Tudo o que respira quer ter a chance
De florescer logo de manhã
Uma borboleta, alegria alada,
E na emboscada a aranha tecelã.

Vida perigosa e tão preciosa,
Sutil mistura, beleza e dor,
Fino fio de seda perdido ao vento
Feito um pensamento só: viver
E deixar viver

encontro

Em 27 de outubro estive em Natal (RN), na Igreja Betesda Natal, ministrando uma oficina de composição musical. Conheci pessoas muito hospitaleiras, inteligentes, amáveis, criativas. Jamais me esquecerei da experiência. Numa manhã quente de sol de verão nordestino, escrevemos juntos esta canção. Gostei muito do resultado e compartilho.

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Encontro

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Viemos de toda parte

A vida nos convidou

Gozar da simplicidade

Viver como Alguém falou

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E disse que ser amigo

É amar o outro como ele é

E andar juntos no caminho

Unindo forças pra o que vier

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Sonhamos com a liberdade

De um dia poder mudar

As cores da realidade

Na graça de imaginar

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Dizendo que ser amigo

É amar o outro como ele é

E andar juntos no caminho

Unindo forças pra o que vier

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Natal (RN), 27 outubro 2012.

 

http://www.youtube.com/watch?v=pixriBq6R-QEncontro