C. S. Lewis

a poda

No banquete final dos demônios, Murcegão pede a palavra, dá conselhos aos aprendizes todos e propõe um brinde. Em certa altura de seu discurso ele conta uma história:

Creio que você se lembram do que aconteceu quando um certo ditador dentre os gregos (naquele tempo ostentavam o nome de tiranos) enviou um embaixador a outro ditador vizinho para pedir-lhe lições a propósito de princípios de governo. O segundo ditador conduziu, então, o referido embaixador a um campo de cereais e pôs-se ali a decepar, com seu canivete, as pontas de todas as plantas que se salientassem sobre o nível das demais. A lição era demasiado objetiva. Queria ela dizer: não permita que nenhum de seus súditos se saliente. Não deixe ninguém viver que se mostre sábio, melhor, mais famoso ou mesmo mais insinuante do que a mediocridade geral. Nivele a todos os súditos de modo que fiquem perfeitamente iguais; todos escravos, todos nada mais do que meras cifras, todos verdadeiros ‘ninguéns’. Todos iguais.

(C.S. Lewis, Cartas do Inferno, p. 216-7)

a novidade

menino e pipa

Seguem os conselhos do tio Murcegão ao seu aprendiz de demônio:

O horror para com a mesma velha coisa é uma das obsessões mais vantajosas que temos suscitado no coração humano — sendo uma fonte inexaurível de heresias em religião, de insensatez nos parlamentos, de infidelidade na vida conjugal e de inconstância nas amizades. Os seres humanos existem no tempo e experimentam a realidade de modo sucessivo. Para experimentá-la de maneira abundante, eles têm de buscar muitas coisas diferentes; em outras palavras, têm de estar à cata de mudanças. E, uma vez que assim necessitam de mudança, o Inimigo (sendo hedonista como é), tornou-lhes prazeirosa essa experiência, embora não admita que tomem a mudança como fim em si mesma, como acontece, aliás, com o comer, por isso procurou equilibrar-lhes o gosto pela mudança com o reconhecimento do valor da permanência. O Inimigo tem envidado em satisfazer a ambos esses gostos no mundo que mediante a união da mudança com a permanência que designamos de ritmo. Ele lhes proporciona as estações, cada estação sendo diferente, não obstante, recorrendo todos os anos, de modo que a primavera pareça sempre uma novidade, embora não passe da repetição de um fato imemorial. Ele lhes outorga, através da Igreja, um ano espiritual; passam de um período de jejuns a um período de festas, mas é a mesma festa que antes existira.

Ora, exatamente como tomamos os prazeres relacionados com o comer e, pelo excesso, produzimos o vício da gulodice, também tomamos essa tendência natural para a adoção de mudanças e deturpâmo-la de modo que se degenera em exigência por novidades absolutas. Tal exigência é coisa de criação exclusivamente nossa. Se negligenciarmos os deveres, os homens terminarção não somente felizes, mas até mesmo extasiados, em face da novidade e familiaridade, ao mesmo tempo, da queda da neve na estação fria, do nascer e do pôr do sol pela manhã e à tarde de cada dia, e dos doces que constituem variedades de todo Natal. As crianças, até que as tornemos melhores para nós, sentir-se-ão perfeitamente felizes com uma recorrência de tipos de jogos e brincadeiras em que vemos os papagaios de papel a sucederem a outras distrações, consoante se trate da primavera, do verão, do outono ou do inverno. Devido tão somente a nossos esforços incessantes é que conseguimos fazer prevalecer a exigência no sentido da mudança indefinida e destituída de ritmo. Essa exigência nos é muito prestimosa por várias maneiras. Em primeiro lugar, ela diminui o prazer na mesma medida em que intensifica o desejo. O prazer da novidade, por sua própria natureza, fica mais exposto do que qualquer outro à lei da menor recompensa. E, a continuidade da novidade implica em dispêndio de recursos, de modo que o desejo correspondente concita à avareza e resulta em infelicidade, ou as duas coisas simultaneamente. E, ainda mais, quanto mais voraz se revelar esse desejo tanto mais cedo devorará todas as fontes inocentes de prazer, levando as vítimas a demandarem outros prazeres de entre os proibidos pelo Inimigo. Assim sendo, inflamando o horror para com a mesma velha coisa temos consgeuido fazer com que as artes, por exemplo, se venham tornando recentemente menos perigosas para nós do que foram em tempos idos, de modo que, tanto os artistas mais sérios como os menos sérios se vêem empolgados pela imposição de cada vez mais novos excessos nos domínios da lascívia, da insensatez, da crueldade e do orgulho. Finalmente, o desejo por novidades é indispensável, se é que temos de dar origem às modas e aos costumes em voga.

(C.S. Lewis, Cartas do Coisa Ruim, p. 156-9).

observador de igrejas

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Continuo em minha releitura do C.S. Lewis e estou agora lendo o Cartas do Coisa Ruim. Topei com este curioso parágrafo em que o tio Murcegão sugere que seu sobrinho aprendiz seja mais atento quanto ao vínculo que o seu “paciente” estabelece com a Igreja. Tome nota:

Em sua última carta, você fez uma referência casual ao fato de que o paciente tem continuado a freqüentar só uma igreja, tão somente uma, desde que se converteu e sente-se inteiramente satisfeito com ela. Permite-me perguntar-lhe o que está fazendo? Por que não me envia informações sobre as causas dessa fidelidade que o paciente revela para com a igreja local? Você já se apercebeu que, a menos que isso provenha de alguma atitude de indiferença, é uma coisa muito ruim para nós? Certamente você deve bem saber que se um indivíduo qualquer se mostra inveterado em sua freqüência à igreja, a melhor coisa que temos a fazer é conseguir que ele se ponha a percorrer as circunvizinhanças em busca de uma igreja que melhor lhe convenha e assim permaneça até que venha a se tornar um observador ou pessoa familiarizada com várias igrejas.

Os motivos são muito claros. Em primeiro lugar, a igreja local deve ser objeto de ataques constantes de nossa parte porque, sendo uma unidade local, e não de indivíduos que se sintam iguais, ela congrega pessoas de classes sociais diferentes e de traços psicológicos distintos de modo a tornar viável a espécie de unidade que o Inimigo requer. O princípio congregacional, por outro lado, faz com que cada igreja se torne um tipo de clube e, finalmente, se tudo decorrer em harmonia, um tipo de associação ou partido. Em segundo lugar, a busca de uma igreja que melhor convenha faz com que o indivíduo se torne um crítico, quando se sabe que o Inimigo o deseja como discípulo. O que o Inimigo requer do crente na igreja é uma atitude que pode, com efeito, ser crítica no sentido de rejeitar o que for falso ou inúvil, mas que é inteiramente destituída de espírito crítico no sentido de não fazer avaliações — não gastar tempo em reflexões a respeito do que se rejeita — senão abrir-se sem reservas, tornando-se humildemente receptivo aos vatores de nutrição espiritual que forem ministrados. (Você vê como o Inimigo se degrada, sem a necessária espiritualidade e quão irremidiavelmente vulgar Ele é!) Essa atitude, especialmente durante a entrega dos sermões, cria as condições (em sua maioria hostis para com toda maneira de agir que empregamos) nas quais noções absolutamente claras possam ser apreendidas por almas humanas. Dificilmente se encontrará um sermão ou um livro que se não mostre desastroso para nós quando os ouvintes se comportam assim. De maneira que eu o concito a que se esforce mais e mais no sentido de conseguir que esse bobo se ponha a percorrer as igrejas vizinhas assim que for possível. O relatório de suas atividades até esta data não nos tem proporcionado grande satisfação.

(C.S. Lewis, Cartas do Inferno, p. 105-6).

morcegos e burocratas

coisa ruim

Estou lendo Cartas do Coisa Ruim, de C.S. Lewis. No prefácio escrito em 1960 ele fala sobre diabo e inferno. Em certa altura ele diz:

Prefiro os morcegos aos burocratas. Vivo nesta época de administradores. Os maiores males já não são verificados naqueles sórdidos ‘antros de crimes’ que Dickens tanto gostava de descrever. Já não são verificados nem mesmo nos campos de concentração. Em tais campos, apenas temos a visão dos resultados decorrentes dos males que se praticam. A verdade, porém, é que os maiores males são concebidos e engendrados (acionados, secundados, efetuados e articulados em todas as suas minúcias) em escritórios bem limpos, atapetados, aquecidos e devidamente iluminados, através de homens de colarinho engomado, que têm unhas tratadas; estão sempre bem barbeados e nem mesmo precisam falar em voz alta. Disto resulta que, como é natural, os símbolos que adoto para falar sobre o inferno são oriundos da burocracia de um estado em que a polícia domina ou do ambiente característico dos escritórios de certos estabelecimentos comerciais horrivelmente imundos (C.S. Lewis, Cartas do Coisa Ruim, 10-11).

o tempo e Aslan

Estou aproveitando as férias para reler as aventuras de Nárnia (C.S. Lewis). Delicio-me com a profundidade do autor escondida por trás das afirmações aparentemente simples. No livro O Navio da Alvorada, há uma cena em que Lucy conversa com Aslan sobre a percepção do tempo. Aslan havia dito:

— Breve nos encontraremos novamente.

— Aslan, que chama de breve?

— Para mim, todo o tempo é breve — respondeu Aslan, desparecendo de repente e deixando Lúcia sozinha com o mágico. (C.S. Lewis, O Navio da Alvorada, p. 119)