Há 100 terminava a I Guerra Mundial. Com ela foram enterrados para sempre muitos dos sonhos da modernidade. Ela também inaugura um século novo de guerras diferentes, profundamente marcadas pelo uso da tecnologia — o avião para bombardeios, os gases venenosos, máscaras para proteção, granadas de mão, canhões de longo alcance, tanques velozes e pesados, metralhadoras e o rádio como ferramenta de comunicação. Toda uma geração se perdeu durante a I Guerra Mundial — engenheiros, médicos, professores, advogados, agricultores, artesãos artistas e poetas. Sim, poetas.

Muitos poetas foram enviados para os campos de batalha na Itália e na França e na Alemanha. Entre eles, Rupert Brooke (1887-1915), Siegfried Sassoon (1886-1967), Isaac Rosenberg (1890-1918) e Wilfred Owen (1893-1918). Eles escreveram sobre suas experiências nas trincheiras, o ruído das bombas, o frio e a chuva, as noites iluminas pelos holofotes e sinalizadores, a saudade da família, os amores impossíveis, as noivas distantes, as lágrimas das mães.  Entre eles, toca-me mais agudamente os poemas de Wilfred Owen. Aqui estão dois poemas inesquecíveis: “Hino a uma juventude condenada” e “Dulce et decorum est”, na tradução de João Moura Jr.

 

HINO A UMA JUVENTUDE CONDENADA

 

Que dobre de finados aos que morrem qual gado?
– Apenas a monstruosa cólera dos canhões.
Apenas a gagueira dos fuzis disparados
Pode tartamudear rápidas orações.
Basta de escarnecê-los; basta de prece e sinos;
Nenhuma voz de luto que não seja o uníssono
Dos obuses gementes, dementes, mofinos;
E os clarins a chamá-los de condados tristonhos.

 

Que velas cumprirão o dever de despachá-los?
Nos olhos dos meninos, não nas mãos, será vista
A sacra e bruxuleante chama das despedidas.
A palidez das jovens lhes servirá de pálio;
Será guirlanda o afeto das almas resignadas
E cada anoitecer um baixar de persianas.

 

DULCE ET DECORUM EST

Íamos arqueados, velhos mendigos sob um saco,
Pernas bambas, tossindo como harpias, blasfemantes
Na lama, até aos clarões nossas costas voltarmos
E arrastarmo-nos para nosso pouso distante.
Alguns seguiam dormindo. Outros sem seus coturnos.
Seguiam com os pés em sangue, cansados, manquitolas,
Cegos e mesmo surdos ao ruído dos soturnos
5.9 a explodir às suas costas.

 

Gás! GÁS! Rapazes, rápido! De imediato uma azáfama
E máscaras são às pressas colocadas, bem a tempo;
Mas entre nós alguém grita e logo desanda
A debater-se como se houvera visgo ou incêndio…
Pude vê-lo através da embaçada viseira
E da espessa luz verde como a afogar-se em mar.

 

Em todos os meus sonhos, ante minha impotência,
Vagarosamente ele submerge a sufocar.

 

Se em sonhos embaçados também fosses capaz
De seguir a carroça em que foi colocado
E ver a contorcer-se os olhos do rapaz,
Brancos, e o rosto caído, como o de um pobre diabo,
Se pudesses ouvir, a cada sacudida,
Vir dos podres pulmões o sangue borbulhante
E obsceno como um câncer, amargo qual ferida
Sem cura numa língua sem culpa, nesse instante
Não dirias, minha amiga, com tão ardente fé
A crianças que desejam sorver da glória o gole
A vetusta mentira: Dulce et decorum est
Pro patria mori.

 

Encontre mais poemas neste site: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/nas-trincheiras/

  1. SEBASTIÃO MARTINS DE MEDEIROS FILHO

    A história parece quem não ensina o homem a reflexão. Hoje em nosso país vemos governantes defenderem a guerra civil. Algo diabólico.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You may use these HTML tags and attributes:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>