Arquivo de setembro 2015

Um poema de Mahommah Baquaqua

baquaqua

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Você não espera que alguém da minha raça,

Com cabelos encaracolados e rosto negro,

E com um pequeno raio de saber,

Chame a atenção de seus amigos no colégio.

Mas, farei o melhor que puder

Para provar que quero ser um homem.

É verdade, que meu corpo traz as marcas das correntes,

É verdade que minhas costas trazem as cicatrizes das chicotadas,

Mas não é verdade que o poder do tirano

Jamais tenha feito de meu coração um covarde.

Não! Ele é livre como quando eu brincava

À sobra das palmeiras de minha terra natal.

 

Oh! África, minha terra natal,

Quando irei te ver, humildemente postada,

Sob a bandeira de meu Deus,

E governada por Sua Santa Palavra?

Quando irei ver a vara dos opressores

Ser tirada de suas mãos, meu gracioso Deus?

Oh! Quando verei meus irmãos

Desfrutarem da doçura da LIBERDADE?

 

Amigos dos escravos oprimidos e ensanguentados,

Peçam a Deus por piedade! Que Deus nos salve!!

Pois toda a ajuda dos homens é vã,

Pois o homem ao homem forjou cadeias.

Oh, Pai da Justiça, tu és justo,

Olho para ti, em ti confio;

Oh, que teu espírito gracioso atenda

Ao gemido dos africanos, às orações dos africanos,

Junto ao teu puro trono nos céus,

Onde tudo é alegria e paz e amor,

Por Jesus, Oh! salva o oprimido,

E que suas almas encontrem paz nos céus.

 

(Mohammah Gardo Baquaqua, 1854).

 

 

 

Imagina!

portinari - grupo

Portinari – “Grupo” (1958)

Imagina!

 

Se é pura verdade o que diz Benedict Anderson sobre o caráter imaginário de nossa identidade nacional e se Darcy Ribeiro acertou quando disse que “a coisa mais importante para o brasileiro era inventar o Brasil”, então quero imaginar um país e colaborar para a sua invenção. Trata-se de um exercício de imaginação coletiva, um trabalho participativo e diário de construção e reconstrução.

Neste país como possibilidade a se concretizar, será possível ouvir de novo, e sempre, a voz do velho Lua a cantar aboios e a sorrir sanfonas celebrando o fim da seca no sertão, a volta do retirante e da asa branca com saudade da beleza e da alegria que só a chuva traz. Neste país imaginário, a canção de Antônio Brasileiro será a trilha sonora que chamará os pássaros de volta para as florestas que, finalmente, foram preservadas e reconhecidas como santuário de nossa vida natural.

Nas ruas de Brodowski se ouvirá o som do autofalante chamando o povo para assistir ao grande espetáculo do novo circo que acabou de chegar. E as crianças sairão correndo para ver os palhaços e trapezistas. E Portinari, entre elas, encherá de azul uma país feito de trabalho e brinquedo, balanço, gangorra, violões, frevos, sambas, vaqueiros, garimpeiros e jangadeiros do Nordeste e trabalhadores nas plantações de café.

Os traços suaves e flutuantes de Oscar Niemeyer nos ajudarão a reconstruir cidades agora transformadas em ruína pelo risco implacável da injustiça, pelo rabisco apressado da ambição e da mentira. E imaginaremos Brasília em que a pérola será o entorno, a periferia, em que a beleza será satélite da arquitetura justa e sensível de uma nação reinventada.

E para garantir que não haverá falta de imaginação e literatura neste Brasil que certamente construiremos, será reservado um espaço privilegiado no coreto da praça para que Mário de Andrade leia, em tom apaixonado, o manifesto antropofágico que um dia ouviu da boca do seu amigo Oswald. E em sua voz soarão as vozes de tantos povos indígenas há tanto tempo silenciados, e se ouvirão caiporas e sacis e macunaímas todos a procurar a pedra de muiraquitã, aquilo que um dia sabíamos ser e que afinal perdemos de vista.

Neste país, Guimarães Rosa nos mostrará o que é sertão e quantas veredas o atravessam, e quantos enredos se desenrolam nos fios da sua narrativa, da palavra que se debate diante do inefável, da narrativa que desemboca no silêncio dos caminhos e dos rios, do coração humano que se pega a cismar com o infinito. E Rosa dirá que, assim como Minas Gerais, o Brasil são muitos.

Sim, são muitos os brasis que temos sonhado coletivamente, algumas imagens perturbadoras nos falam de desmatamentos, chacinas, desigualdades tantas, corrupção e desmando, quadros que revelam nosso vício do “jeitinho”, nossa cultura do favor, nosso endividamento moral, nossa miséria, enfim. É como se várias músicas fossem tocadas ao mesmo tempo pela mesma orquestra confusa e desafinada. É como se várias sinfonias se iniciassem ao mesmo tempo, e o maestro, desconcertado, pusesse a mão nos cabelos e perguntasse: “Que faremos deste país?”

Vivemos agora este momento em que paramos todos para pensar que música tocaremos, que obra imaginaremos juntos. Ladrões não fazem um país. Assassinos não têm pátria nem compatriotas. Mercenários não estão em busca do que somos, mas do que temos a fim de vendê-lo ao que não somos e, fazendo assim, roubar a pedra preciosa de nossa identidade. Este é o momento de encarar nossa estranha contradição e de celebrar, com humildade e esperança, a possibilidade da reconstrução de um país pelo uso de nossa imaginação democrática.

 

Gladir Cabral

 

Confira:

 

Site com a obra de Portinari: http://www.portinari.org.br/

 

Filme “As Sanfonas do Lua”: https://www.youtube.com/watch?v=54UpU1tsdn0

 

Documentário “O Povo Brasileiro”: https://www.youtube.com/watch?v=eqlcHGj4f7k