Arquivo de novembro 2014

Pássaro Engaiolado

mayaNo dia da Consciência Negra, um poema inesquecível de Maya Angelou, numa tradução muito imperfeita (imprecisa e sem rimas), mas necessária.

 

Pássaro Engaiolado

(Maya Angelou)

 

Um pássaro livre pula

nas costas do vento

e flutua rio abaixo

até a corrente parar

e mergulha suas asas

nos raios alaranjados do sol

e ousa clamar ao céu.

 

Mas um pássaro à espreita

em sua pequena gaiola

quase nem vê

por entre as grades de ira

suas asas estão presas

e seus pés estão atados

então ele abre sua garganta para cantar.

 

O pássaro preso canta

num gorjeio triste

sobre coisas que não conhece

mas ainda deseja

e seu canto é ouvido

na colina distante

pois o pássaro preso

canta sobre a liberdade.

 

O pássaro livre pensa em outras brisas

e nos ventos suaves entre as árvores que suspiram

e nos insetos que o esperam no gramado ao nascer

e ele chama o céu de seu

 

Mas um pássaro engaiolado permanece no túmulo dos sonhos

sua sombra grita um grito de pesadelo

suas asas estão presas e seus pés estão atados

então ele abre a garganta para cantar.

 

O pássaro preso canta

com um gorjeio triste

de coisas desconhecidas

mas ainda desejadas

e seu canto é ouvido

na distante colina

pois o pássaro preso

canta sobre a liberdade

 

Maya Angelou, “Caged Bird” from Shaker, Why Don’t You Sing? Copyright © 1983 by Maya Angelou. Used by permission of Random House, Inc.

 

E aqui a versão original:

 

Caged Bird

A free bird leaps

on the back of the wind

and floats downstream

till the current ends

and dips his wing

in the orange sun rays

and dares to claim the sky.

 

But a bird that stalks

down his narrow cage

can seldom see through

his bars of rage

his wings are clipped and

his feet are tied

so he opens his throat to sing.

 

The caged bird sings

with a fearful trill

of things unknown

but longed for still

and his tune is heard

on the distant hill

for the caged bird

sings of freedom.

 

The free bird thinks of another breeze

and the trade winds soft through the sighing trees

and the fat worms waiting on a dawn bright lawn

and he names the sky his own

 

But a caged bird stands on the grave of dreams

his shadow shouts on a nightmare scream

his wings are clipped and his feet are tied

so he opens his throat to sing.

 

The caged bird sings

with a fearful trill

of things unknown

but longed for still

and his tune is heard

on the distant hill

for the caged bird

sings of freedom.

Cifras do CD Mil Caminhadas

Amigos, seguem aqui as cifras das canções do CD Mil Caminhadas.

 

capa mil caminhadas

 

 

 

 

 

 

 

 

Mil Caminhadas – cifras

A voz da tela: a arte de Anderson Monteiro

anderson monteiro 1As Escrituras falam da voz que clama no deserto, que um dia florescerá e será transformado em jardim. Falam do pássaro que encontra abrigo nos altares do santuário do Senhor. Falam do pastor cuidando do seu rebanho, do povo de Israel atravessando pelo meio do mar Vermelho como se fosse em terra seca. Falam da sequidão de estio e do povo clamando por água. Falam de rios que alegram a cidade de Deus. Falam de pescadores, tempestades, redes cheias de peixes, povo sendo curado, gente partilhando pão e peixe. Enfim, todas essas passagens mexem com nossa imaginação, pois são elas mesmas ricas imagens da realidade humana.

A obra de Anderson Monteiro, artista plástico paulista, é construída basicamente de imagens do cotidiano. São quadros e fotos retratando pessoas, lugares, momentos cheios de alegria, beleza e dor. Algumas obras desenvolvem a temática cristã, como os quadros da série “O Messias” ou também da série “Montaria”, centrados na figura de Jesus. Seu rosto sereno e ao mesmo tempo expressivo, a barba cobrindo-lhe a face, o manto sobre o corpo.

Outras obras falam da importância da arte na vida cotidiana, incluindo quadros como o “Um poeta e um violão”, dedicado a Stênio Marcius, ou como o quadro de perfil de Jorge Camargo cantando de olhos fechados. Em tudo se vê o respeito pelo trabalho do músico. E por falar em música, há também quadros dedicados aos músicos de jazz, da série “Jazz for You”. Saxofonistas, trompetistas, bateristas, pianistas e contrabaixistas interagindo em jam sessions que parecem vibrar na tela. Eles celebram a importância da arte e da beleza na vida.

Nota-se, nos quadros de Anderson, a presença das pessoas, seja individualmente, em suas atividades diárias, seja em duplas, caminhando juntas, trabalhando no campo, interagindo, cooperando, ou seja simplesmente andando em meio à multidão. É o caso da séria intitulada “Pessoas”, que mostra uma multidão caminhando junta. Os rostos mais variados, mulheres, homens, jovens, idosos, bebês levados ao colo, gente de toda cor. Percebe-se, no entanto, uma incompletude nos rostos, que aparecem de modo difuso, às vezes apenas o nariz, às vezes apenas os olhos, às vezes apenas um vulto indefinido. Parecem sugerir que todos estamos na mesma condição, carentes de completude, ou escondidos no anonimato da vida urbana.

Por fim, Anderson dá importância à ternura que aparece no rosto das crianças, como nos quadros “Minhas filhas” e “A Família”. Neles se vê o abraço, o apoio mútuo. Há também o belo quadro “Vilarejo”, inspirado na canção de Marisa Monte e que mostra a beleza e a leveza de um lugar simples e abençoado. Para Makoto Fujimura, outro grande artista cristão, carecemos cada vez mais de “arte, amor e beleza” (2013).

Em tudo se vê, na obra de Anderson Monteiro, uma obra de arte que traz cuidado para com a cultura, uma arte que transpira amor e beleza, que são duas grandes contribuições do artista cristão à sociedade contemporânea. Quando trata de temas do cotidiano, percebem-se nos quadros os sinais de esperança, fé e amor, que segundo Calvin Seerveld são as marcas essenciais da arte feita por cristãos. Do ponto de vista do fazer artístico, “[d]as três coisas que as Escrituras dizem que são permanentes – fé, esperança e amor – a mais humana é a esperança” (Seerveld, 2014, p. 24). E ela é a que mais se mostra nos quadros de Anderson Monteiro.

Gladir Cabral

 

 

FUJIMURA, Makoto. “Art, Love and Beauty: Introduction”. 2013. Disponível em: http://www.makotofujimura.com/writings/art-love-and-beauty-introduction/

MONTEIRO, Anderson. A Voz da Tela. Os quadros estão disponíveis em: http://avozdatela.blogspot.com.br/2008/10/blog-post.html?view=sidebar

SEERVELD, Calvin. Redemptive Art in Society. Sioux Center: Dordt Press, 2014.