Arquivo de outubro 2014

Carta de um escravo

jordonA foto ao lado é do escravo fugido conhecido como Brother Jordan Anderson. Jordan havia sido escravo numa fazenda do Tennessee (USA) e foi liberto pelas tropas da União em 1864 e passou os restantes 40 anos de sua vida em Ohio. Ele vivia uma vida pacata e em total anonimato até que resolveu publicar, num jornal de Cincinnati, uma carta a seu antigo senhor, que havia pedido que ele voltasse à antiga fazenda. Eis a carta publicada em 22 de agosto de 1865.

Essa é uma tentativa de tradução. A matéria saiu no Mail Online, da Associated Press. Está disponível no seguinte endereço eletrônico:  http://www.dailymail.co.uk/news/article-2174410/Pictured-The-freed-slave-moving-letter-old-master-asked-work-farm.html

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Daytona, Ohio, 7 agosto 1865

 

Ao meu velho senhor, coronel P.H. Anderson, Big Spring, Tennessee

 

Senhor:

 

Recebi sua carta e me alegrei em saber que o senhor não se esquece do Jordon, e que me quer de volta para viver aí de novo, prometendo me tratar melhor do que qualquer outra pessoa poderia. Sempre me senti preocupado em relação ao senhor. Pensei que os ianques iriam enforcá-lo a muito tempo atrás, por abrigar os rebeldes que encontraram em sua casa. Suponho que eles nunca tenham ouvido sobre aquela vez em que o senhor foi ao coronel Martin para matar aquele soldado da União que foi abandonado pela companhia no estábulo da fazenda. Embora o senhor tenha atirado em mim duas vezes antes de deixá-lo, eu não queria ouvir que algo ruim tenha lhe acontecido, e me alegro que o senhor ainda esteja vivo. Seria bom voltar ao querido e velho lar, e ver Maria e Martha e Allen, Esther, Green e Lee. Mande a eles o meu carinho, e diga a eles que espero encontrá-los num mundo melhor, senão neste. Eu teria voltado para ver vocês todos, quando ainda trabalhava no Hospital de Nashville, mas um dos vizinhos me disse que Henry planejava atirar em mim, se algum dia tivesse a chance.

E gostaria de saber, com mais detalhes, quais as boas condições que o senhor promete me dar. Eu estou indo razoavelmente bem por aqui. Ganho vinte dólares por mês, mais comida e roupa; tenho um lar confortável onde moro com Mandy – os amigos a chamam Sra. Anderson –; e as crianças – Milly, Jane e Grundy – vão à escola e estão aprendendo bem. O professor diz que Grundy tem vocação para ser pregador. Eles vão à Escola Dominical, e Mandy e eu frequentamos a igreja regularmente. Somos bem tratados pelas pessoas. Às vezes ouvimos alguém dizer: “Aqueles negros ali eram escravos” no Tennessee. As crianças ficam chateadas quando ouvem essas coisas; mas eu digo a elas que não é desgraça nenhuma, lá no Tennessee, pertencer ao coronel Anderson. Muitos negros teriam ficado orgulhosos, como eu ficava, de tê-lo como senhor. Agora, se o senhor escrever dizendo que salário irá me pagar, poderei saber se será melhor para mim voltar ou ficar aqui.

Quanto à minha Liberdade, que o senhor disse que posso ter, não tenho nada a ganhar voltando para aí, pois consegui meus documentos em 1864 com o magistrado do Marechal Geral do Departamento de Nashville. Mandy diz que teme voltar sem alguma prova de que o senhor está disposto a nos tratar com justiça e bondade, e decidimos testar sua sinceridade e pedir que nos envie nossos salários relativos a todos os anos que servimos ao senhor. Isso fará com que esqueçamos e perdoemos as velhas marcas, e confiaremos em sua justiça e amizade no futuro. Eu o servi fielmente por 32 anos, e Mandy por 20 anos. A $ 25,00 ao mês para mim e $ 2,00 por semana para Mandy, nossos ganhos seriam algo em torno de $ 11.680,00.  Acrescenta-se a isso os juros pelo tempo que nossos salários foram retidos, e deduzindo o que nos pagou pelas nossas roupas e pelas três visitas do médico a mim, e por arrancar um dente de Mandy, e o peso da balança vai nos mostrar o que nos cabe pela justiça. Por favor, envie o dinheiro via Adam’s Express, aos cuidados de V. Winters, Esq., Daytona, Ohio. Se o senhor se recusar em nos pagar por nosso trabalho fiel realizado no passado, teremos pouca esperança em suas promessas no futuro. Confiamos que o bom Criador abriu de fato seus olhos para ver os erros que o senhor e seus pais fizeram a mim e aos meus pais, ao fazer-nos trabalhar para o senhor de geração em geração, sem recompensa. Aqui eu ganho meus salários todo sábado à noite, mas no Tennessee nunca havia dia de pagamento para negros, do mesmo modo como não se pagavam os cavalos e vacas. Certamente, haverá um dia de acerto de contas para todos aqueles que defraudaram os trabalhadores nas fazendas.

Em resposta à sua carta, por favor diga se haverá alguma segurança para minha Milly e Jane, que estão agora crescendo, e são ambas muito bonitas. O senhor sabe o que acontecia com a pobre Matilda e a Catherine. Eu preferiria ficar aqui e passar fome – e morrer, se for necessário – do que ver minhas filhas passando vergonha pela violência e pela maldade dos seus senhores mais jovens. Por favor, diga se haverá escolas abertas para crianças negras na sua vizinhança. O grande desejo de minha vida agora é dar às minhas filhas uma educação e ensiná-las hábitos cheios de virtude.

Dê um abraço ao George Carter, e agradeça a ele por tomar a pistola da sua mão quando o senhor estava para atirar em mim.

 

Do seu velho servo,

 

Jordon Anderson
(Fonte: http://www.dailymail.co.uk/news/article-2174410/Pictured-The-freed-slave-moving-letter-old-master-asked-work-farm.html#ixzz3GAyFPAWp)

A Rocha, de T.S. Eliot: a relação entre a cultura e a Igreja

t.s. eliotOs críticos literários, de um modo geral, olham com suspeita escritores que se deixam converter por uma experiência religiosa, principalmente se for cristã, como se a conversão comprometesse o talento do artista e pusesse a perder a qualidade da sua obra. É o caso de autores famosos, como o nosso conhecido C.S. Lewis, o poeta W.H. Auden e o dramaturgo, poeta e crítico literário T.S. Eliot, que se converteu do ateísmo ao cristianismo anglicano com a idade de 39 anos.

A peça dramática A Rocha contém 10 coros escritos para uma produção encenada em meados de 1934 na diocese de Londres. Inconformado com o crescente processo de secularização da sociedade britânica, que perdeu a chama da vida, a sabedoria e se perdeu no excesso de informação, Eliot lança seu protesto e seu apelo por uma mudança cultural. Muita informação e pouca sabedoria, “muita leitura e pouca Palavra de Deus”, “muita construção, mas não da Casa de Deus”.

Caminhando pelas ruas de Londres, o poeta ouve comentários de censura e rejeição: “Que os padres se aposentem. Os homens não precisam da Igreja […] Na cidade, não precisamos de sinos”. E nos subúrbios também não há mais espaço para a Igreja, apenas para as indústrias e o lazer. Para o poeta, essa crise representa a morte da sociedade. Nestes tempos estranhos, o próprio núcleo familiar perde sua base de sustentação e sua unidade, pois “[f]amiliarizados com a estrada e sem paradeiro, nem a própria família anda junto”. As pessoas vivem agora dispersas “entre ruas que se engalham, e ninguém conhece ou se importa com seu vizinho, a não ser que ele o perturbe”.

A obra fala da crise da Igreja, que “tem de ser construída sempre, pois está sempre se corrompendo por dentro e sendo atacada por fora”. Há uma grande obra de restauração a ser feita, e trabalhadores são chamados com urgência, e todos são desafiados a participar, pois “[h]á muito que derrubar, há muito que construir, há muito que restaurar”. A obra está recheada de referências ao livro de Neemias e ao relato da reconstrução do templo de Jerusalém: “Lembrem-se das palavras de Neemias, o Profeta!”. E é preciso construir com o a ajuda do Eterno, pois “construímos em vão se o Senhor não construir conosco. Pode-se guardar a Cidade que o Senhor não protege?”. Evidentemente, há resistências, há oposição, mas a reforma é uma tarefa urgente e contínua.

A Rocha é figura central do poema, é o Filho do Homem, aquele que virá como Forasteiro, “Cristo Jesus Ele Próprio a principal pedra angular”. E ao encaminhar-se para o fim, com a obra de reconstrução sendo completada, “depois de muita luta e de muitos obstáculos”, o poema é cada vez mais invadido pela luz. “Ó Luz Invisível, nós te glorificamos!”

Gladir Cabral

ELIOT, T.S. Obra Completa. Trad. Ivan Junqueira. São Paulo: Arx, 2004. Vol. I

ELIOT, T.S. Coros de “A Rocha”. Edição portuguesa.