Arquivo de julho 2014

Antes do primeiro passo

US Astronaut AuctionEra 20 de julho de 1969. Eu, ainda garoto, acompanhava pela televisão o lançamento do foguete espacial Apollo 11. Assim que o foguete ganhou as nuvens, saí correndo para o quintal. Imaginava que, com um pouco de sorte, poderia ver o foguete passando em sua viagem para a Lua. Um momento mágico e inesquecível em minha vida: eu, no quintal da minha casa, num dia de sol, tentando observar o voo dos astronautas.

Mais tarde, acompanharia as cenas do pouso da espaçonave em solo lunar. Mais emoção ainda. Minha imaginação de menino estava lá, dando aqueles primeiros passos, “apenas um pequeno passo para um homem, mas um passo gigantesco para a humanidade”.

Hoje, ao ler um artigo de jornal, surpreendi-me com os depoimentos de Buzz Aldrin e Neil Armstrong sobre aquele dia. Os dois queriam comemorar aquele momento partindo o pão e o vinho, celebrando a santa ceia do Senhor. E foi o que fizeram, antes de sair da espaçonave, pisar no solo lunar e fincar a bandeira norte-americana. Queriam que o momento da ceia fosse transmitido para todo o mundo via satélite. Foram proibidos pela NASA, que estava sendo processada por uma cientista ateia por conta da missão Apolo 8, em que foi lido publicamente o texto bíblico de Gênesis 1.

Aldrin era presbítero da Webster Presbyterian Church, em Webster, Texas, e algumas semanas antes havia falado com seu pastor, Dean Woodruff,  sobre sua ideia de marcar a maravilha e o mistério dessa aventura de pousar na lua. Aldrin escreve sobre isso: “Queríamos expressar nosso sentimento de que o que a humanidade estava fazendo em sua missão transcendia a eletrônica, os computadores e os foguetes”. Daí surgiu a ideia de celebrar o momento com a beleza simbólica da comunhão, com pão e vinho.

Aldrin levou para sua viagem espacial, junto com coisas pessoais, um pouco de pão, um pouquinho de vinho, um pequenino cálice de prata.

Um ano depois, ele escreveria na revista Guideposts:

Logo depois do horário de nosso horário de refeição, Neil daria o sinal para descer a escada até a superfície empoeirada da Lua. Aquele era o momento para a comunhão.

Então, desempacotei os elementos. Coloquei-os na mesinha na frente do computador com o sistema de abortamento, juntamente com o texto das Escrituras que havia copiado num papel.

Então entrei em contato com Houston.

“Houston, aqui é Eagle. Aqui é o piloto LM falando. Gostaria de pedir alguns minutos de silêncio. Gostaria de convidar cada pessoa que estiver ouvindo, onde quer que esteja e quem quer que seja, que contemple por um instante os eventos das últimas horas e que dê graças à sua maneira”.

No rádio, o silêncio total. Eu abri o pequeno saco plástico contendo o pão e o vinho.

Derramei o vinho no cálice que ganhei de nossa igreja. Com a gravidade lunar, que corresponde a 1/6 da gravidade da Terra, o vinho ondulou-se lentamente e graciosamente ao lado do taça. Era interessante pensar que o primeiro líquido a ser derramado na lua e o primeiro alimento a ser comido ali, seriam os elementos da comunhão.

Antes da comunhão, Aldrin leu silenciosamente a passagem da Bíblia que havia escrito num pedaço de papel: “Eu sou a videira, vocês são os ramos. Todo o que permanece em mim, e eu nele, dará muito fruto; pois sem mim nada podeis fazer” (João 15:5).

 

Esse bilhete está entre as peças leiloadas pela NASA em 2007.

US Astronaut Auction

 

[Fonte das informações: Yasmine Hafiz. “The Moon Communion of Buzz Adrin that NASA Didn’t Want do Brodacast. Disponível em: http://www.huffingtonpost.com/2014/07/19/moon-communion-buzz-aldrin_n_5600648.html?icid=maing-grid7%7Cmain5%7Cdl11%7Csec1_lnk3%26pLid%3D504157]

 

O homem que corrompeu Hadleyburg

MarkTwainWbMuito se fala hoje em nosso país de moralização, de combate à corrupção e à impunidade. O povo nas ruas, as manifestações, os cartazes exigindo mais ética, mais justiça, mais respeito por parte dos políticos, tudo parece demandar uma resposta clara e imediata da parte do governo. O anseio geral parece ser o expurgo, a purificação da cidade de todos aqueles que a corrompem.

No meio de tantos acontecimentos e impasses, vale a pena ouvir o que os poetas têm a dizer. Quem sabe a literatura, familiarizada com a linguagem da imaginação e com as possibilidades da vida e da história, possa trazer alguma contribuição para o entendimento dos tempos atuais. Há um conto do escritor norte-americano Mark Twain que parece trazer subsídio para frutíferas reflexões sobre a discussão em torno da honestidade, corrupção e vida urbana. O título do conto é “O Homem que Corrompeu Hadleyburg”.

“Foi há muitos anos. Hadleyburg era a cidade mais honesta e correta que havia em toda aquela região”. Assim começa o conto que fala de uma cidade moralmente incorruptível, aparentemente perfeita segundo os princípios do puritanismo norte-americano. Mas eis que aparece um homem estranho, um pedinte que, por alguma razão, não é bem recebido, pois a humildade e a hospitalidade não eram virtudes muito cultivadas naquela cidade. Tendo sido humilhado, o estranho decide se vingar de forma engenhosa, corrompendo a cidade inteira.

Ele deixa um saco de ouro na porta da casa dos Richards, uma das 19 famílias mais honestas e ilustres da cidade, junto com uma mensagem dizendo que o saco contém uma doação em ouro para a única pessoa de toda a cidade que o ajudou com $ 20,00 e um conselho que mudou a sua vida e o ajudou a fazer fortuna com jogo de cartas. Pois bem, dentro do saco havia um envelope selado contendo as palavras que lhe foram ditas na ocasião, que apenas essa pessoa certa poderia saber. Essa entrega poderia ser feita secretamente ou publicamente.

O boato se espalhou por toda a cidade e o saco de ouro no valor de $ 40.000,00 dólares acabou se tornando uma grande tentação para todos aqueles ilustres habitantes cuja virtude de fato nunca havia sido provada antes. O resto da história apenas mostra como a aparente honestidade dos habitantes de Hadleyburg se revela artificial e falsa.

Por um lado, o conto critica os riscos em que pode cair o moralismo: rigor legalista, obsessão pela culpa, medo da tentação, orgulho espiritual que fecha os olhos para o estranho, o diferente. Por outro lado, o conto confirma uma das mais basilares afirmações do puritanismo: a depravação total da humanidade, que poderia ser traduzida nas palavras de Romanos 3.10-12: ” Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só”.

Gladir Cabral