Arquivo de junho 2014

Jerusalém

old_ruins_of_jerusalem_western_wall-otherEsta é uma das canções que escrevi pensando em Jerusalém, a cidade amada. Nela se cruzam os caminhos de vários povos. O nome sugere que ali se estabeleceria o fundamento paz, no entanto a história dá conta de uma série de desencontros, de conflitos de alegria e lamento misturados na mesma lágrima. Ali, o Senhor Jesus derrubou o muro da inimizade e estabeleceu profunda paz entre nós e o Eterno, e entre nós e os outros, entre nós e nós mesmos.

 

“Jerusalém”
(Gladir Cabral)
As pedras sobre as pedras,

Uma prece que ressoa

Os passos nas calçadas

Inundadas de pessoas

Os risos e as lágrimas

Brilhando ao sol poente

A rua iluminada

Pela estrada do oriente

 

Jerusalém, Jerusalém,

Os teus jardins e oliveiras

Fazem bem

Os teus portões abraçam

Todo o ser que vem te ver

E amar assim, Jerusalém

 

No espaço do sagrado

Se ouve a prece do segredo

Há corações sangrados

De incontáveis desenredos

Mas há também as rimas

Soltas pelos quatro cantos

Canções de liberdade

Alegria e acalanto

 

Jerusalém…

 

Ver o mundo através das mãos

hands1Nos últimos anos, tem crescido nos meios acadêmicos o interesse pelo estudo das autobiografias, pelas narrativas de si. Talvez por conta da crise identitária criada pela conjuntura da globalização e pelas profundas mudanças culturais inauguradas nos dias de hoje, percebe-se o surgimento de um crescente interesse pelos discursos do eu e pelos exercícios da memória.

Nesse contexto, a autobiografia de Helen Keller, intitulada A História da Minha Vida e publicada pela primeira vem em 1903, ganha renovado interesse por tratar-se do relato de uma jovem cega e surda em seu processo de nascimento no mundo da linguagem, sua paulatina e difícil inserção social e a construção de sua subjetividade, a descoberta de uma voz própria (experiência que se dá inclusive literalmente).

Helen Keller perdeu a visão e a audição quando tinha apenas 18 meses de vida, vítima de uma grave enfermidade, possivelmente febre escarlatina ou meningite, quando ainda não tinha pleno acesso e fluência ao mundo da linguagem. Em completo isolamento e escuridão e sufocada pela falta de compreensão do mundo e de si, Helen mergulhava numa revolta incontrolável. Fechada em seu mundo desabitado pela palavra e pela voz das pessoas, ela debatia-se num nevoeiro sem forma, sem começo nem fim, como ela mesma descreve. “Gradualmente acostumei-me ao silêncio e à escuridão que me rodeavam e esqueci que algum dia fora diferente, até que ela chegou – minha professora, a que iria libertar meu espírito” (p. 7).

De fato, com a chegada de Anne Sullivan, a vida de Helen experimentou completa mudança. Ao lado de sua professora, Helen foi aprendendo o alfabeto manual, isto é, palavras que eram soletradas em suas mãos. A narrativa testifica o poder da educação e sua importância para a construção do ser. Ali, no quintal, em casa, no campo, pouco a pouco a palavra e o mundo ganham forma na palma da mão de Helen Keller.

A narrativa também relata a experiência da menina com a leitura. Os livros foram-se tornando referenciais importantíssimos na compreensão do mundo. Mais que isso, os livros tornaram-se grandes amigos de Helen, mapeando sua imaginação, enriquecendo seu vocabulário, mediando sua relação com a realidade, aumentando sua percepção do ambiente e trazendo consciência social e histórica. A história de minha vida vai dando conta dessa formação do leitor na experiência pessoal de Helen. “Não me recordo de um tempo, desde que amo os livros, em que não tenha amado Shakespeare” (p. 108). Helen leu de tudo e com intensa avidez: poesia, história, os clássicos gregos, romanos, a literatura inglesa, norte-americana, as Escrituras. “Numa palavra, a literatura é minha Utopia. Ali, não sou deficiente. Nenhuma barreira dos sentidos me exclui do discurso doce e gracioso de meus amigos livros” (p. 112).

Por meio da linguagem dos sinais, Helen Keller nasce socialmente e espiritualmente. Surpreendendo a todos ao redor, passa a ver o mundo através das mãos.

Gladir Cabral