Arquivo de maio 2014

A vida, ainda que severina

morte_e_vida_severinaA vida, ainda que severina

 

“O meu nome é Severino, / não tenho outro de pia” – assim começa um dos poemas mais conhecidos e celebrados da carreira do escritor brasileiro João Cabral de Melo Neto: Morte e Vida Severina: Auto de Natal Pernambucano, uma obra cheia de ironias e paradoxos: um auto de Natal cujo foco central parece ser a morte que brota por todos os lados, uma obra de gênero dramático geralmente religioso escrita por um autor que se confessa ateu.

Apesar de sua aparente aridez, que se confunde com a aridez do sertão nordestino e todas as mazelas sociais que a acompanham, a obra de João Cabral está impregnada de um senso difuso do sagrado, algo que Waldecy Tenório observa com tenacidade em seu livro A Bailadora Andaluza: a Explosão do Sagrado na Poesia de João Cabral. O texto contém várias alusões a passagens e imagens das Escrituras e apresenta uma terra em que “são todos irmãos, / de leite, de lama, de ar” (como bem celebra o Salmo 133). A solidariedade entre os pobres é uma constante na obra, bem como o tom profético da denúncia às injustiças da sociedade brasileira.

Morte e Vida Severina descreve a trajetória de Severino, que parte de Nazaré da Mata, no sertão pernambucano, e vai em direção a Recife. Em seu caminho, encontra muita gente: “dois homens carregando um defunto numa rede”, pessoas velando outro morto numa casa, uma mulher com quem conversa, trabalhadores sepultando um companheiro, dois coveiros e José, um dos moradores de um mocambo no cais do rio Capibaribe.

A obra mostra a tênue fronteira que há entre o desespero e a esperança. Quando o retirante se encontra com José, cuja esposa está para dar à luz um filho, pergunta: “Há muito no lamaçal apodrece a sua vida? E a vida que tem vivido foi sempre comprada à vista?”. E mais adiante, aprofunda seus questionamentos: “[…] e que interesse, me diga, / há nessa vida a retalho que é cada dia adquirida?”. A essas inquietantes questões, mestre José responde resignadamente que, ainda que seja comprada a retalho e adquirida arduamente, ela ainda “é, de qualquer forma, vida”.

Nesse ponto, que é o mais tenso da peça, Severino sugere o suicídio como possibilidade de pôr fim à tortura que é a vida: “Seu José, mestre carpina, / que diferença faria / se em vez de continuar / tomasse a melhor saída: / a de saltar, numa noite, / fora da ponte e da vida?”. A questão não é respondida imediatamente, pois a conversa é interrompida pelo nascimento do menino, que recebe louvores e visitas e presentes especiais: “Todo o céu e a terra / lhe cantam louvor”. Só ao fim da peça, mestre José volta à pergunta suspensa no ar, para responder: “É difícil defender, / só com palavras, a vida, / ainda mais quando ela é / esta que vê, severina; / mas se responder não pude / à pergunta que fazia, / ela, a vida, a respondeu / com sua presença viva”.

 

Assista ao musical produzido pela Rede Globo em 1977, Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto.

 

https://www.youtube.com/watch?v=MthmmdJgQXY

 

 

Gladir Cabral

Memorial

madres de la plaza de mayoHerdei de minha mãe o gosto pelo cantar. Ela parece cantar o dia inteiro, em meio às suas atividades domésticas. Lava louça todo dia, e canta… Põe água no feijão, que chegou mais um, e canta… Rega as flores, ainda que estas não falem, e canta… Lê as Escrituras, ora, adora e canta…

E é bom que seja assim, é bom que as mães não se calem, pois elas têm muito que dizer sobre a vida, sobre a família, sobre os nossos tempos. Que as vozes das mães e agora avós da Praça de Maio jamais se calem. Que não se calem as mães de todo mundo diante do sequestro das meninas na Nigéria. Que seu clamor seja ouvido na Terra e no céu.

Como amanhã é o dia das mães, gostaria de deixar a elas esta mensagem de estímulo e gratidão. Cantem, falem, testemunhem, orem, clamem sempre por seus filhos, pelos filhos de seus filhos e pelas crianças sufocadas pelo silêncio e opressão.

Queridas mães, que ao longo de suas vidas, vocês possam trazer no coração e na mente as lembranças e lições da história, as sementes da esperança e da fé. Não se calem, não desistam de orar por seus filhos e pelo mundo que anda triste feito órfão. Que seus hinos, salmos e canções se levantem diante de nós com um memorial sagrado de um pacto pela vida, pela paz e pelo amor incondicional.

Eis a canção que acabei de escrever e que dedico às queridas mães, minha querida mãe Laci, minha esposa Ruth, minha irmã e minhas cunhadas, a todas às mulheres que conhecem o milagre da maternidade, mas sem esquecer daquelas que não puderam ser mães biológicas e são mães de coração pleno.

 

Memorial

 

Solta teu canto pelos quatro ventos

Há quem precise ouvir tua voz

Que teus poemas brotem quais rebentos

E que desatem velhos nós.

 

Deixa habitar teu coração

O que motiva a esperança

O que abençoa e faz andar

Sob este sol ou sobre o mar

 

Solta teu canto pelos quatro ventos

Há quem precise ouvir tua voz

Que teus poemas brotem quais rebentos

E que desatem velhos nós.

 

Risca no chão o teu sinal

Memorial de vida inteira

Salmo de paz, verso de amor,

Luz da manhã, cheiro de flor