Arquivo de abril 2014

Leitura: solidão, comunhão e autoria

boys-readingNÃO sei muito bem quando começou, mas suspeito que tenha sido ao ouvir as primeiras histórias da Bíblia no quarto de dormir, nas últimas horas da noite, ou quem sabe nas primeiras idas à Escola Dominical. O fato é que desde muito cedo criei gosto pela leitura. Primeiro, as leituras feitas por minha mãe, por meu avô, gente simples que me anunciava um mundo a ser conhecido e desvendado. Depois, as leituras feitas na escola e em casa, as memórias de um sargento de milícia, os livros de história, Tiradentes e a corda amarrada ao pescoço, Jesus e suas histórias deliciosamente repetidas em quatro evangelhos que coloriram minha fé e minha imaginação com força indelével superior ao tecnicolor. Mais tarde, na adolescência e juventude encontrei amigos para os quais a leitura era alimento para a mente e a alma, e com eles descobri Edgar Allan Poe e suas histórias de mistério, Dostoiévski e as suas recordações da casa dos mortos, e a lista não tem fim.

A leitura tem um elemento que sempre me fascinou: o silêncio, a solitude, bem mais que a solidão. Ela exige um certo recolhimento, um afastar-se do burburinho, da algazarra, um ir ao encontro do outro no frágil espaço da quietude. Por isso mesmo, ler é estar muito próximo de si mesmo. Há que se ter certa confiança, certa calma de estar na companhia de si mesmo. Qualquer sinal de ansiedade, de pressa, e a leitura se perde na fumaça da distração. Plim!! E lá se foi a voz que me falava. O que dizia mesmo? Espera aí, tenho de voltar ao parágrafo anterior. Com um pouco de calma, o diálogo recomeça. O que se ouve é a voz do outro, a voz dos personagens da história, do autor.  Portanto, a solidão é só aparente. É muito agitado e intenso o momento da leitura.

Por outro lado, a leitura é também um ato coletivo. Intelectuais falam de comunidade de leitores, comunidades interpretativas (Stanley Fish), mostrando que a relação texto-leitor á para lá de rica e complexa, como sugerem Hans Robert Jauss (1994) e Wolfgang Iser (1996). Desse modo, aquele que não lê não se afasta do mundo, mas interage com ele e se posiciona em relação a ele. Em uma palestra proferida no primeiro Congresso Brasileiro de Leitura no início dos anos 1980 em Campinas (SP), Paulo Freire relata suas primeiras experiências com a leitura, seu aprendizado lento e orgânico. Ali ele enfatiza o caráter social da leitura. Ninguém lê sozinho, mas em diálogo com os outros leitores e com a realidade. Em dado momento, Freire faz sua clássica afirmação de que “a leitura de mundo precede a leitura da palavra”. Mais do que ato solitário, a leitura é manifesto solidário, ato comunitário, também crítico, mas sobretudo sinal de comunhão.

Por fim, a leitura é também ato de criação de significado, portanto de coautoria. Quem lê, colabora com o texto, atualiza-o, de certa forma encarna-o. De certa forma, posso dizer que ler é também escrever, pois é reagir à palavra escrita, é oferecer um texto novo ao texto lido. O teórico russo Mikhail Bakhtin assevera que toda palavra é resposta ou interpelação, todo texto é parte de um diálogo, é um fenômeno histórico e social, coletivo e ao mesmo tempo interior. Ao mesmo tempo que o texto nos constrói, vamos, por meio da leitura, construindo novos textos a partir de nossa tênue voz e de tantas vozes que nos atravessam. Umberto Eco fala do leitor como atualizador do texto, sempre complementando suas incompletudes. Ler é fazer-se autor.

Quem lê precisa de silêncio. Quem lê precisa de comunhão. Quem lê se torna escritor.

Fé & Café

IPTrindade 2014 114Ontem (12 abr 14) participei do Fé & Café na Igreja Presbiteriana na Trindade. Depois de dois anos e meio, revivi a experiência de colocar a família no carro e pegar a estrada. Foi uma viagem com emoção, com direito a muita chuva por causa de um ciclone extratropical que resolveu se aproximar da costa, muitas lembranças boas e ao som da música de Carlinhos Veiga, Gerson Borges, Silvestre Khullmann, Allan Marino e Diego Marins (ida e volta foram seis horas de viagem, rs).

 

O mais precioso de tudo foi rever os irmãos e amigos tão queridos que ali estavam. Dar um abraço, partilhar pão, refri (no meu caso não diet), ouvir e ser ouvido, cantar juntos, orar juntos e ver o tempo passando ao contemplar o quanto as crianças e adolescentes cresceram. Foi uma das experiências mais renovadoras e importantes dos últimos anos em nossa vida familiar. Sou muito agradecido pelo convite.

IPTrindade 2014 113 (640x480)

Consegui gravar pouquíssima coisa, só alguns fragmentos, daquela noite. Mas deixo aqui um pedacinho da canção “Mil Caminhadas”. Acompanham-me no cajon Gabriel Antunes, no contrabaixo André Mello. Esse foi nosso último ensaio, e também primeiro.

 

https://www.youtube.com/watch?v=Ux_pL1AaDFk&feature=youtu.be

Ele nos vê

girl in red

“In this dark world where you and I see so little because of our unrecognizing eyes, he, whose eye is on the sparrow, sees each one of us as the child in red. And I believe that because he sees us, not even in the darkness of death are we lost to him or lost to each other” (Frederick Buechner).

“Neste mundo sombrio onde você e eu vemos tão pouco por causa de nosso olhos tão míopes, Ele, cujos olhos veem os pardais, vê cada um de nós como seu filho vestido de vermelho. E creio que por que Ele nos vê, nem mesmo nas trevas da morte estamos separados dEle ou perdidos um do outro” (Frederick Buechner).

Quem?

quemAcabei de fazer uma reflexão sobre a canção “Quem?”, de Maria Gadu, com participação de Lenine.

Aqui está a letra da canção:

 

Quem vai gritar primeiro? Quem?
O grito que afrouxa em desespero
O peito que parte à voz do trovão

Quem vai cuidar do fogo? Quem?
A alma que dança na chama trina
Há queima dos poros, devastação

Quem vai sair de casa?
Quem vai sumir no mundo?
Desatar o nó cego? Ver na escuridão?

Sabotar a injúria? Quem vai curar a cura?
É soro do próprio choro?
Quem vai pedir perdão?

Quem vai gritar primeiro? Quem?
O grito que afrouxa em desespero
O peito que parte à voz do trovão

Quem vai cuidar do fogo? Quem?
A alma que dança na chama trina
Há queima dos poros, devastação

Sonho de mala feita? Quem vai sonhar na espreita?
Quem vai cuidar do outro? Quem vai dizer que não?
Crime de face avulsa, céu na encosta da culpa
Quem justifica o ato? Quem vai lavar as mãos?
Sopro do desalento? Quem se desnuda ao vento?
Quem vai ser indiscreto? Ser divisão do pão?

Quem vai sair do rumo? Quem vai mudar o prumo?
Quem vai ser o primeiro?
Quem vai calar em vão?

 

Aqui está o áudio da canção:

 

Quem?

 

E aqui está a meditação:

 

Quem?