borboletaLeia: Êxodo 33.12-16

 

Dizem que Ele é uma ausência, uma grande e infinita saudade, fruto de nossas ansiedades e frustrações, de nossos desejos não satisfeitos, como cismou Nietzsche, ou talvez um de nossos mais preciosos e belos sonhos, como poeticamente sussurrou Rubem Alves. Ele é nossa mais profunda nostalgia, como orou certa vez Agostinho: “Ó Deus, Tu nos criaste para ti mesmo, e inquieto está o nosso coração até que volte a descansar em ti”.

Em seu livro Poesia, profecia, magia, Rubem Alves escreve que poesia são “palavras que fazem coisas. Palavras que são coisas”. Elas evocam realidades, cenários de encantamento, “habitações de sorrisos”. E quando acaba o encanto, “fica o desejo, no imenso vazio que se abre: a nostalgia de cada folha, cada tronco de árvore, cada regato escondido/nunca existido, cada brisa que nunca mais, cada bruma, cada cerca velha, cada ruína do que foi casa, tudo entrelaçado…” (Rubem Alves).

A experiência religiosa seria assim uma forma de exílio, de separação da terra natal, da fonte originária da vida, um assentar-se à beira dos rios da Babilônia para assentar-se, lembrar de Sião e chorar (Salmo 137). Essa é, portanto, a vivência de um lamento.

Em outra obra, Rubem Alves também disse: “Deus mora na saudade, ali onde amor e ausência se assentam” (in Creio na ressurreição do corpo). Mais adiante ele continua: “Coisa estranha. Saudade, a gente não pode criar, por vontade. Ela nasce, sem querer, quando o vento misterioso do Espírito sopra. E a gente sabe que é coisa do Espírito pelas coisas novas que se começa a ver. Os olhos mudam. O coração também. E é porque o coração fica diferente que os olhos começam a ver coisas que ninguém mais vê. São invisíveis”.

Na verdade, em Cristo Jesus, Deus deseja participar da vida de cada um de nós de uma maneira plena. Ele não quer habitar apenas nossos sonhos, mas também nosso corpo, nossa existência completa. O Senhor procura um encontro com o ser humano no meio da história, no tempo e no espaço. Sua voz deseja uma resposta; seu olhar, um sinal; suas mãos, um contato. E sua presença pode mudar a face do mundo e o rumo de nossa vida.

É no relacionamento pessoal e íntimo entre Deus e os seres humanos, como chamado e resposta, participação e interação, que a fé deixa de ser mera fantasia para fazer-se vida. Isso acontece no aqui e no agora, no tempo que se chama hoje, na urgência do nosso próprio momento. O encontro com Deus se dá nos limites da vida, embora inspire também nossos sonhos, fecunde nossa saudade e encha nossos jardins de perfume e poesia.

Ouça a canção “Sobretudo quando chove”, de Gerson Borges. Medite. Ore. Compartilhe. http://www.youtube.com/watch?v=wNEo1RKXy_4

Gladir Cabral

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