mangerLeia: Mateus 2.1-8, 13, 14; 27.32-44

 

O menino descansa na manjedoura. Até então, as vaquinhas e boizinhos encontravam ali o alimento. Até então, o cheiro da cana cortada, do capim gordura, o cheiro da palha. Agora, um bebê recém-nascido adormece num momento profundo de paz e perfuma o ambiente. Sua mãe e seu pai sorrindo ao redor, o silêncio das estrelas, o acalanto. Perplexos, pastores de ovelhas juntam-se aos reis magos a contemplar o menino.

Trinta e três anos depois, aquele menino seria pregado a uma cruz. Não mais um menino, mas um homem cansado e sedento, suado e sangrando, condenado pelos governantes e religiosos pelo crime de postular-se o Messias, o salvador de Israel. De maneira complexa e misteriosa, pode-se dizer que o significado pleno da manjedoura se encontra nos cravos e espinhos da cruz.

O que há de comum entre a manjedoura e a cruz? O que há de diferente? Tanto a manjedoura quanto a cruz foram feitas do mesmo material, a madeira, o vegetal, a vida. Ambas foram construídas como objetos rústicos, obra de carpintaria, sem o fino acabamento da marcenaria, sem os refinamentos da marchetaria. Utensílio barato, aquela manjedoura recebeu sobre si, surpresa, o mais caro tesouro da história humana: o menino Jesus. Depois disso, a manjedoura continuaria a ser o objeto anônimo que sempre foi, sem nunca virar souvenir, sem nunca tornar-se relíquia de colecionadores.

A cruz, símbolo de morte e maldição, lugar de desprezo e miséria completa, mesmo que acostumada à agonia e à morte carregou, horrorizada, o mesmo tesouro de salvação de graça, o corpo ferido e cortado de Jesus. Ela sim, de símbolo de morte, passaria a significar redenção, e seus supostos fragmentos virariam relíquia nas mãos de inúmeros colecionadores.

Todavia, nem a manjedoura poderia conter o Filho de Deus, embora desejasse, nem a cruz poderia prendê-lo ou limitar seu poder, embora não desejasse. Mas ele estava ali, visitando a história, tornando-se o centro das atenções de todos os que ouviram sua voz.

A manjedoura ouviu o choro da criança, o riso da mãe e o canto dos pássaros. A cruz ouviu o gemido de dor do condenado, o choro da mesma mãe e o silêncio de Deus. A manjedoura atraía os animais para alimento; a cruz atraiu insetos e abutres, mas alimentou a humanidade de redenção e perdão. A manjedoura parece marcar o início da história, mas é apenas continuação de uma história que vem desde a fundação dos séculos. A cruz parece marcar o fim da história, mas é apenas o início da nossa grande salvação.

Para ser posto numa manjedoura é preciso primeiro ser abraçado. Para ser posto na cruz é preciso primeiro abrir os braços. Entretanto, na cruz Jesus estava abraçando a humanidade inteira.

A manjedoura é o lugar da dádiva, em que o menino recebe presentes dos magos do oriente. A cruz é o lugar da pilhagem, onde as vestes de Jesus são repartidas como despojos de guerra. A manjedoura e a cruz, entretanto, unem-se como espaços nos quais Deus nos presenteia com seu filho amado. A manjedoura e a cruz denunciam a exclusão social e espiritual que marca nossa história. Elas testemunham do modo misterioso como Deus nos acolhe em si.

Singela manjedoura, rude cruz – distantes de palácios, quartéis e lugares de poder. Objetos de desprezo, talvez, dos que se tornam senhores e reis. Entretanto, imperadores em geral e soberanos de todas as eras tremem diante da manjedoura e diante da cruz. Como disse certa vez Dietrich Bonhoeffer,

Para os grandes e poderosos deste mundo, há apenas dois lugares diante dos quais lhes falta a coragem, lugares que temem no mais profundo de suas almas e evitam: a manjedoura e a cruz de Cristo. Nenhum dos poderosos ousa se aproximar da manjedoura, nem mesmo o rei Herodes, pois é ali que os tronos tremem, os poderosos caem, os soberanos perecem, porque Deus está do lado dos humildes. Ali a riqueza de nada vale, porque Deus está com os pobres e famintos, mas os ricos e opulentos Ele despede de mãos vazias. Diante de Maria, a jovem serva, diante da manjedoura de Cristo, diante de Deus em humildade, os poderosos nada conseguem; não têm direitos nem esperança; eles são julgados. (in God is in the Manger)

Neste dia especial, ouça esta obra-prima de Corelli, o Concerto de Natal, Opus 6 n. 8. http://www.youtube.com/watch?v=XFQ2oTYp5Z8 Ouça. Medite. Ore. Compartilhe.

As crianças vão gostar destes dois videos:

O primeiro tem Sixpence None the Rich cantando, “Silent Night”. http://www.youtube.com/watch?v=N6ml_YbgJsQ&list=PL82FC3F62FD972915

O segundo traz Sara Groves cantando “O holy night” http://www.youtube.com/watch?v=–XhSOpbb4Q&list=PL82FC3F62FD972915

 

João Leonel & Gladir Cabral

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