Arquivo de maio 2011

embaubar

Você já ouviu falar de uma árvore chamada embaúba? Ela é típica da Mata Atlântica. É classificada como uma árvore pioneira, pois depois de um desmatamento ou de um incêndio na floresta, é a primeira espécie a ressurgir. Cresce rapidamente, dá frutos que alimentam pássaros, bichos preguiças e até formigas se aninham em seu tronco. Árvore teimosa, generosa e resistente, tornou-se símbolo de um grupo de semeadores culturais que conheci em Viçosa (MG): o grupo cênico ART490.cartaz

Eles promovem encontros para divulgar, mostrar e debater a arte brasileira. Como não poderia deixar de ser, a cultura mineira é um dos ingredientes fundamentais dos encontros culturais chamados de “Embaubar”. Ali se pode compartilhar muita música, poesia, dança, pintura e fotografia, num ambiente de muita sensibilidade, amizade e emoção.

Eu tive a honra de ser convidado pelo grupo para o II Embaubar. Um privilégio que jamais esquecerei. Num ambiente de muita concentração, ouvi poemas inesquecíveis, canções de Milton Nascimento, canções de Liz Valente e Zilbinho. Compartilhei canções, ainda que totalmente rouco e ensurdecido por um resfriado sem tamanho. Compartilhei também o projeto do Museu da Infância, desenvolvido em minha Universidade (Unesc) e do qual façoparte com muita alegria (www.museudainfancia.unesc.net). Ali pude cantar algumas canções falando de Minas, amigos, memórias, infância, Brasil.gladir no embaubar

Ali também ouvi uma canção belíssima: “Menino da Pipa”. Carregarei para sempre comigo a memória dos dias passados em Minas Gerais. Carregarei a lembrança das faces, das vozes, os olhares de tanta gente jovem, inteligente, cheia de inspiração e amor pela vida. Alguma coisa me diz que eu também sou Minas Gerais.

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Menino da Pipa

(Liz Valente & Lucas Rolim)

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Ô Menino vem cá

Menino da pipa amarela o céu, vasto céu, é o seu mar

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O pouco que tem divide comigo

Da repartição tudo pode virar

Um prato mexido, farofa, feijão

Ideias à mesa amizade à mão

Do café passado no passar dos dias

Da minha varanda eu reparto o quintal

Da minha vontade… Tudo o mais!

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O vento é chão pra sonhos se ter

Seu pé tem raiz nessa terra seu lar

O muito que sonhas divide comigo

Um caminho trilhado sem solidão

De suas histórias eu bem que conheço

Sua pipa amarela é Minas Gerais

É vôo de muitos Brasil… Em um só lugar

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Ó Minas Gerais

Ô Menino vem cá

Ó Minas Gerais

Ô Menino vem cá

Quem te conhece não esquece jamais

Menino da pipa amarela o céu, vasto céu, é o seu mar

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embaubar

o retrato

Menino com pássaro (Portinari)O professor de teologia R. Paul Stevens diz em seu livro A espiritualidade na prática: “Raízes e asas são dois presentes que os pais podem dar aos filhos, e sem raízes não pode hver asas — nenhum rompimento, nenhuma partida” (p. 24). Meus pés estão bem plantados no chão da fé onde meus pais me cultivaram. Continuo sobrevoando este mundo como andorinha escapa do inverno e deseja novos ares. O tempo que minha mãe gasta comigo em oração e devoção me abençoa uma eternidade. Sou eternamente grato a ela.

O poeta amado Mário Quintana, em seu livro Lili Inventa o Mundo, disse certa vez:

Mãe são três letras apenas

As desse nome bendito:

Três letrinhas, nada mais…

E nelas cabe o Infinito.

E palavra tão pequena

– confessam mesmo os ateus –

É do tamanho do Céu!

E apenas menor que Deus…

Deixo aqui minha homenagem à minha querida mãe numa canção cheia de memórias da infância, cheia de imagens, sons, cheiros, sensações e momentos que um dia vivi com intensidade.

Vento, sopra o relógio do tempo

E faz o meu pensamento reconhecer a manhã

Dentro de uma neblina encantada

A minha infância sonhada de uma vontade tão sã.

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Uma criança no colo da mãe,

O aconchego de amor e canção.

Cheiro de pão e de bolo no ar

E na janela uma voz a chamar assim:

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“Filho, vem que o café tá na mesa.

Chama também teus amigos

E depois volta a brincar”.

Riso no seu olhar lacrimado

E no meu peito apertado

Guardo essa voz a soar.

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Noite, o mais sagrado momento,

Filhos em volta, atentos para orar e aprender,

Contos de uma sagrada escritura

Lida com tanta ternura. Quem poderá esquecer?

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Sopra esse vento a folhagem no ar

E faz o mundo girar e girar

Só o retrato na sala de estar

Mostra essa mãe a sorrir e a olhar para o

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| : Filho que conheceu esse mundo

E o amor mais profundo que é o mistério de Deus.

Tudo passa na vida tão breve

Menos o amor que se teve e que não vai se perder… : |

Se perder… Se perder… Se perder…

O retrato